segunda-feira, 29 de junho de 2015

Um Feliz Prenúncio (Conto)

Você vai morrer!” – Disse a vidente, encurvando as sobrancelhas. – Não! Não necessariamente você vai morrer, mas isso depende de qual caminho escolherá. Na verdade você encontrará uma de suas mortes caso não siga minhas instruções, pois, ao contrário do que se pensa, não há um destino certo, mas vários destinos em que estamos propensos a cair. Assim uma pessoa pode ter vários êxitos, várias desgraças e, claro, várias possibilidades de morte antes de morrer. E todas procuram nos atrair para elas, sendo que, se nos desviamos desta ou daquela morte, é justamente por uma boa casualidade quando não se busca o trabalho de profissionais (por isso, sempre recomendo fazer visitas periódicas às videntes, como aos médicos, para saber qual caminho seguir e não morrer ou cair em desgraças). Mas não tema: para sua inacreditável sorte, vou salvar você desta morte, basta que siga minhas instruções. Amanhã a morte da qual te falo virá te procurar na rua. Não saia de casa, nem abra portas ou janelas. Invente uma desculpa para todos, minta para o seu chefe e família, mas em hipótese nenhuma você deve sair de casa amanhã ou abrir janelas e portas, pois a morte a que me refiro te buscará nas ruas ou em sua casa, se ela descobrir onde você mora. Já aconteceu certa vez de ser o oposto, de a pessoa precisar sair para não morrer, pois a morte que prenunciei já sabia onde a vítima morava e havia se alojado por lá, esperando determinado momento; mas não é relevante lembrar-se disso, ainda mais porque a pessoa, ao invés de cumprir o que eu lhe disse, ficou bem sossegada em casa, assistindo filmes e desenhos animados, e, por estar sozinha, uma viúva das mais mal-amadas, veio a morrer de derrame cerebral. Houve o caso de um senhor a quem eu disse para não sair em dias de chuva durante um mês inteiro e, no terceiro dia, ele saiu para comprar remédios num verdadeiro dilúvio e foi pego por um carro que se desgovernou. Também, aconselhei uma moça a não comer doce de leite… e ela comeu e não morreu, mas engravidou, conforme eu tinha previsto. Enfim, nenhum deles seguiu minhas orientações e todos sofreram. E eu, como sou profissional em salvar vidas mais do que são as enfermeiras, não quero que isso aconteça com você. Portanto, lembre-se: amanhã fique escondido em sua casa desde o nascer do sol até o poente, tampando até as brechas das janelas e das portas que dão para a rua. Entendeu? Isso é muito importante. Não deixe nenhum espaço aberto em sua casa e volte-me depois de amanhã, que eu irei prever qual será sua próxima morte. Posso lhe render mais alguns anos ou meses de vida, caso continue vindo ao meu encontro periodicamente. Você está me entendendo? Posso prever quando serão suas mortes e lhe mostrar como evitá-las, contanto que sobreviva a próxima e não deixe de me visitar para novas sessões…  
No dia seguinte, antes de amanhecer, ao levantar depois de uma confortável noite de sono a primeira coisa que fez foi escancarar portas e janelas. E pôs música alta de uma estação de rádio qualquer, não temendo retaliações dos vizinhos. Depois, arrumou-se com sua melhor roupa e saiu de casa, como nunca fez. Saiu para reaver velhos hábitos e achar outros. Olhou para o sol refletido nas folhas das plantas como fazia em sua puerícia, esperando que ali houvesse algo mais. Olhou para as pessoas que nas ruas caminhavam, procurando em seus sorrisos e ações algo mais. Foi às praças, às matas, às favelas, aos rios e autoestradas e nada encontrou. Contornou penhascos; mergulhou em rios sujos; caminhou por onde não devia, aventurou-se de maneira completamente inusitada. Onde estaria? Na seriedade de crianças? Na brincadeira de adultos? Nas rodas de um caminhão? Sob uma pedra, na forma de uma larva? Dentro de um bueiro? Embaixo de uma ponte ou no terraço de um prédio? Em toda a atmosfera, como um mal onipresente? Passou manhã e tarde procurando por algo mais. A morte que a vidente prenunciara e que tanto desejava conhecer.
O dia teve fim e nem um acidente ou tentativa de assassinato. Nenhuma surpresa. De parte alguma brotou a morte que lhe foi prometida. Caiu a noite e nada. Passou em claro a madrugada, já pensando em como se vingar da vidente que lhe deu falsas esperanças. Quando já estava de saída para ir à casa da impostora, percebeu em sua mão uma pequena bolha. Uma feridinha minúscula, mas que já estava formando um halo de inchaço e vermelhidão ao seu redor. Era a picada de um mosquito, provavelmente um transmissor de doença mortal. Ao menos, foi o que indicavam a purulência, as dores fortes e a dificuldade em respirar das próximas horas. Sentiu-se feliz e livre de enganos. Enfim relaxou e pôde dormir.      

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