segunda-feira, 29 de junho de 2015

Conto de Inverno

Era invernada nas terras da fazenda. A casa rústica, trepidando com as ventanias, ainda era de madeira, ainda que o fazendeiro há muito já quisesse transformá-la num castelo de tijolos. Faria isso, no verão, até porque precisava de mais dinheiro para expandi-la e deixá-la aconchegante para seus oito filhos, cinco meninas e três meninos. A mais velha tinha doze anos; a mais nova era recém-nascida. O mais velho tinha onze anos e, o mais novo, três anos e, se excetuarmos a criança de poucos meses, era ele o caçula, o xodó da família.
Não era por menos: era um menino cheio de graça, gordinho e de bochechas rosadas. Qualquer macaquice que fizesse agradava ao fazendeiro e sua esposa mais do qualquer outro filho, ainda que não lhe pudessem dar mais atenção por causa da criança de berço – deles o segundo xodó. Mas naquele ano era inverno ameaçador! E as searas, cobertas por sereno e granizo, formavam um mar de cristais ao que se tornaram folhas e frutos duros e com forte propensão a quebrar. Animais sucumbiam e geravam estátuas de gelo de suas figuras. Homens e mulheres e crianças recolhiam-se em frente às lareiras, dentro da parte mais protegida de suas casas, para não virar gelo, como os animais, ou em escala menor e não menos atemorizante, pegarem uma tuberculose ou pneumonia. Nessa época, nessa região mais especificamente, ainda não existia tratamento para essas doenças e todo cuidado era pouco. 
Então, numa noite em que chegava a nevar e o céu parecia tornar-se espelho sólido, a proprietária esquentou chaleiras de ferro para tomar banho. Encheu a banheira de água quase fervendo e mergulhou, soltando suspiros de alívio. Enquanto isso deixou Eduarda, seu bebê mais recente, aos cuidados das irmãs mais velhas, Gerusa e Potiara. As duas ficaram mimando a criaturinha no berço enquanto a mãe banhava-se, tempo em que ambas podiam fingir que eram mães também. Pegavam sua irmãzinha no colo e a embalavam, fazendo caretas e sons esdrúxulos. No entanto, uma delas teve uma ideia excêntrica e a outra assentiu em cumpri-la. Na verdade, uma curiosidade bizarra: o que faria a exposição direta àquele frio todo a um ser humano tão frágil? A um bebê? O que faria? Seria como pôr sal em lesmas? Afogar baratas em gasolina? Por água fervendo em formigueiros? Por que não descobrir?
Ninguém estava perto quando abriram a porta de acesso à varanda e aquela brisa de tufões que, por pouco, não as derrubou no chão. Correram e depuseram Eduarda nua no chão de madeira, como se a estivessem dando para adoção, mas às avessas. Fecharam a porta rindo, como quem come a porção de sobremesa do irmão e sabe que assim lhe tiraram a alegria. E foram se esquentar, pois a o vento que receberam lhes congelou até a alma. Sabiam que era errado o que fizeram e por isso era tão legal!      
Quando Verônica, a mãe, voltou do banho e viu o berço vazio – coisa de uns dez minutos –, puxou a orelha das duas e as fez dizer imediatamente onde estava Eduarda. Gritando “ai Meu Deus! Ai meu Deus! Ai meu Deus…”, Verônica abriu a porta e nem se importou com o frio diabólico que a envolveu, entortando sua boca. Pegou o bebê pálido e gelado e o trouxe de volta para o calor. Eduarda tossia e arfava como se fosse gente grande. Deposta em frente à lareira, começou a recuperar a cor e sobreviveu com várias sequelas, entre as quais a total descoordenação motora e problemas cognitivos. Eduarda não aprendeu a falar, mas a articular roncos e diálogos retardados, rosnando quando muito acossada por suas irmãs. Desconjuntava-se ao caminhar em seus cacoetes perpétuos… e não aprendeu nada além do que gemer monstruosamente.   
Gerusa e Potiara foram duramente castigadas por Verônica, que quebrou varas em seus lombos. Mas logo as perdoou por completo, algum tempo depois. Em contrapartida, elas nunca perdoaram Eduarda pela série de surras que ela lhes fez passar. Atazanaram seus dias até quando morreu a caçula – aos catorze anos de idade –, em decorrência de complicações do episódio na varanda. Foi sepultada e chorada pela família, que já esperava tal fim. “Ela nunca teria uma vida normal e nem permitiria que quem lhe rodeasse pudesse ter uma vida normal… pobre criança!”, pensava Verônica, justificando-se para si mesma essa despedida prematura.
A matriarca teve mais cinco filhos, o que lhe arrancou em parte o desgosto dessa perda. E tendo morrido mais quatro antes dos vinte anos, Eduarda deixou de ser uma exceção para ser apenas “a que primeiro se foi”. Então todos os demais filhos cresceram e constituíram família. Gerusa e Potiara se casaram e deram netos a Verônica, que deles cuidou como se fossem seus filhos. Era uma mãe adorável e uma vó babona de boca torta que amava todas as suas crianças. Sobretudo as que nasceram de suas duas filhas mais ricas, as que conseguiram casar com verdadeiros príncipes encantados, os quais moravam em coberturas de prédios na cidade grande, possuindo ares condicionados que aqueciam. Para elas, havia chegado o fim das invernadas e de todo o sofrimento humano.   
Uma delas até mudou de nome, pois achava o seu antigo muito feio e não condizia com o status de uma advogada. A outra manteve o seu: por ser vereadora, gostava de suas origens humildes. Pois, vinda do interior, tendo sido pobre, sabia muito bem como os outros sofrem e, por isso, queria ajudar a todos. Doía-lhe ver um cachorro na rua, sem lar nem lareira. Sentia vontade de largar tudo e abraçá-lo forte, chorando por ele como nunca fez por ninguém.

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