segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Alma do Natal (conto bonitinho)

Caminhando sem querer acordá-la, mas esboçando certa despreocupação quanto a seus passos, foi ao quarto dela e, na impossibilidade de lhe deixar um beijo, lhe deixou moedas sobre a cômoda. Era a maneira que encontrou de pagar as dívidas que seu nascimento causara e de amparar, nessa nova amargura cuja ação ainda não foi cometida, o semelhante a quem mais amou. Fechou a porta com delicadeza e se foi, planejando não mais voltar…
Que realidade ou simbolismo apresenta-nos o Natal? É meramente uma data com desígnios comerciais ou possui algo, em sua essência, que transcende qualquer trama publicitária, engodo capitalista ou felicidade material? Para Pedro, um rapaz de mente febril, que tudo quer saber, tudo pondera e investiga, o Natal já era passado. Após tantos anos à espera de alguma manifestação do espírito natalino na sua vida e na de seus familiares, passou a crê-lo como uma ilusão. Tinha apenas oito anos quando se viu convicto de tal desengano, pois residia em barraco lastimável, num bairro muito pobre de Gravataí, com seus quatro irmãos e Carla, sua mãe batalhadora. Estando ela desempregada há meses e sendo ele o mais velho das crianças, impossibilitado de ajudá-la, viam-se em condições precárias, vivendo basicamente com o auxílio governamental e com dinheiro que Carla, eventualmente, ganhava com faxinas. Mas isso não era o bastante para que vivessem dignamente… nem perto disso.
            Tantas vezes pediu, com fervor, em Natais anteriores, que algo de bom lhes acontecesse e que sua situação se estabilizasse permanentemente. Porém, ao que parecia, foi uma espera em vão. Em decorrência dessas frustrações, nesse ano decidiu fazer diferente: pôs em sua mochila velha as poucas roupas que tinha, reuniu os trocados que conseguira com a venda de latinhas e, com o intento de não mais voltar, foi a Porto Alegre. Não mais queria ser um peso à sua família, assim como desejava fazer sua própria sorte… fugir de uma esperança incerta. Ao desembarcar na Capital, na véspera de Natal, viu-se com poucos centavos no bolso e faminto. Não importava: já sabia como proceder para garantir o seu sustento. Ao menos, para essa noite de gala, proporcionaria uma ceia. Escolheu um mercado movimentado; observou-o bem para ver como poderia roubá-lo; foi à ação. Num momento de distração de todos, encheu a mochila com guloseimas, colocando algumas por debaixo da camisa. De fininho, dirigiu-se à saída. Mas, antes de concluir o crime perfeito, ao que cruzava a porta, foi pego pelo dono do mercado, um senhor gordo, alto, e mal-encarado. Vociferando, ele pediu ao menino que esvaziasse a mochila. Pedro negou-se. O homem então lhe tirou a mochila e verificou por conta própria, achando nela vários produtos caros. Quando foi dar uma surra no menino encolhido num canto do estabelecimento (o que sempre fazia com os trombadinhas), de pronto, parou, ao ver-lhe as empoeiradas roupas, convertendo o cenho fechado e opressor em uma expressão mansa e amigável. Depois, abaixou-se e perguntou-lhe o nome. Pedro não respondeu, mal o encarava, em parte por medo, em parte por arrependimento. O dono do mercado não se importou com o desrespeito do menino; disse-lhe que poderia levar as mercadorias, acrescentando um panetone, e desejou-lhe um feliz Natal. Pedro saiu do estabelecimento sem responder ou encará-lo. Sentou-se numa praça, e pôs-se a degustar a iguaria natalina com sofreguidão, como se nunca o tivesse feito. De fato, nunca o fizera. Lambia os beiços: era delicioso demais… como um sonho macio de sabores e aromas. Foi o um presente e tanto de quem esperava repreensão. Isso, ele teve que admitir.
              Absorto em sua refeição, Pedro não notou que, num banco do outro lado da praça, havia uma mulher com duas crianças pequenas em seus braços, acompanhadas por um vira-lata mirrado. Todos estavam vestidos humildemente, e pareciam tão desanimados. O único que se mantinha em alerta, faceiro, era o animal, que lambia as faces daquela pobre gente e depois apontava com focinho a várias direções, como se dissesse: “Ei, levantem! Temos que reagir! Há muita comida em toda a parte! Eu vi! Há estalagens abarrotadas de alimentos ao nosso redor! O que esperamos?” O cão seguia as leis de seu instinto; a família, as convenções de uma sociedade desumana. Ele bem poderia caçar para sustentar-se; a família, desprovida de recursos financeiros, de “instinto humano”, só podia esperar caridade. Mas todos passavam por eles sem dar a mínima, preocupados em dar presentes a quem, talvez, não fariam falta. Por isso, os três perderam a esperança; devido à sua miséria, não eram amados, nem dignos de amor. A felicidade só vem para quem já a tem – assim pensavam. Como estivesse a olhar para um espelho de sua existência, de seus dramas insolúveis, Pedro sentiu os bocados do panetone travarem em sua garganta. Não podia comer vendo-os ali desamparados. Pegou sua mochila e foi-se embora. Cinco minutos, retornou àquela praça, encontrando-os no mesmo banco, com as mesmas expressões. Sem dizer palavra alguma, deu-lhes sua mochila com todo seu conteúdo, inclusive seus centavos e roupas, visto que os menininhos mal tinham o que vestir. Era pouco, quase nada, mas estava convicto de que lhes seria um importante alento. Ainda quieto, Pedro saiu dali, ouvindo os efusivos agradecimentos de todos. Acabara de desfazer-se de sua única esperança e não se sentia triste. Muito pelo contrário: estava estranhamente feliz.
Já era noite. Ciente de que cometera um erro ao ter deixado sua família, e que pagaria caro por isso, embora nada ele pudesse pagar, acomodou-se como pôde em paralelepípedos debaixo de um viaduto e se pôs a dormir. Todavia, logo foi acordado por uma algazarra próxima a ele: era uma turma de mendigos. Dançavam e gargalhavam loucamente em trajes imundos. Sobre uma tabua velha, improvisaram um banquete de restos e caridades, com direito a espumante barato. Pedro, presenciando tamanha espirituosidade, aproximou-se deles, timidamente, e indagou: “por que estão felizes em condição tão miserável?” A resposta veio num sorriso, em uníssono: “É Natal! Isso já nos basta!” Por toda a noite, Pedro dançou, riu, brincou e brindou com aquela enorme e alegre família. Pela manhã, eles o colocaram num ônibus, usando as poucas moedas que dispunham, e Pedro pôde voltar para casa. Quando avistou sua mãe, em prantos desfeita, fortemente a abraçou, pedindo-lhe perdão. Sem pensar em castigá-lo, Carla só desejava abraçá-lo. Nesse momento, Pedro deu a ela o mesmo presente que os mendigos lhe deram: a verdadeira felicidade, a esperança intrínseca e infindável… a Alma do Natal.

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