segunda-feira, 29 de junho de 2015

Por Tempo Tanto (Poema Erótico)

Por tempo tanto, sonhara conquistar dos Deuses
Aquele carnal e ileso manjar chamado Selena.
Sua esbelta figura nele aflorava loucuras ardentes
Que fariam o mais experto juízo cair pela beleza.

Por anos, a negação alimentou sua ilusão e volúpia,
Vendo-a planar, lépida e juvenil, entre os mortais,
Por ele passando sem reparar na louca vigília…
Agora ele a tem desnuda sob seus olhos ferais.

Deitada na cama, ela serenamente dorme, nua,
Como soía todas as noites de lunar esplendor,
A ele preservada em sua angélica formosura,
Inerme, desprevenida, com langoroso ardor.

Ele entrara, feito uma víbora em Edens a penetrar,
De Selena no recôndito lar, antes se certificando
Que nada lhe interromperia daquele corpo o gozar.
Ninguém à vista: todos a quilômetros repousando.

Assim, grito algum transpassaria o silêncio cúmplice.
Possuiria de seus devaneios a intocável deidade
Ali mesmo; na virginal pureza o sórdido artífice
Faria um tálamo às suas profundas e torpes vontades.

Sentindo o ambrosíaco aroma que dela recendia,
Com o extremo cuidado de não a despertar,
Amarra-lhe as delicadas mãos com perícia
Na ampla e resistente cabeceira de âmbar;

Atou-lhe também os pés: presos um de cada lado.
Destarte, estando dela todas as defesas anuladas,
Pôs-se então a contemplar-lhe o corpo orvalhado,
Tão adolescido e alentado em tenras auroras.

Eis que, de súbito, os puros olhos se abrem;
Ao ver-se atada à cama, nua em presença de intruso,
Começa a gritar e a debater-se, como se aquém
Não fossem seus esforços em âmbito noturno.

Logo, desce-lhe à boca a forte mão calejada,
Pressionando-a com controlada força,
Não a machucando, impedindo sua fala.
Rasgando a própria roupa, ele fez uma mordaça.

Estava muda e imóvel; uma linda presa capturada.
Rendendo-se ao desejo, abocanhou-lhe os mamilos,
Tão suaves, tão deliciosos, sorvendo com gula
Os seios graúdos e nela despertando gemidos.

Fremindo… dentro de si um férvido vendaval
A devastando; aos poucos, sua razão perdia.
Palpitações se atropelando… confusão cabal:
Resistindo aos chupões, cada vez mais era vencida.

Ele não para, nem sequer ameniza a tortura;
Com movimentos contínuos, brutos, rápidos,
Dessedenta em mergulhos a sequiosa língua.
Ao perceber os bicos vermelhos e inchados,

Começa a molestá-la de sádica maneira:
Movendo os mamilos de baixo para cima,
Lenta e aflitivamente, com atordoante leveza,
Fazendo-a estremecer em toda a sua estrutura.

A excitação demasiada em agonia se converte.
Em vão ela tenta livrar-se atritando as cordas;
Enquanto é sorvida, uma das ávidas mãos desce,
Como um raio a cair, no florão entre suas coxas.

Um choque úmido e quente turbou-lhe os sentidos.
A região que, com tanto recato, por anos preservara,
Estava à mercê de outrem… nas mãos de um inimigo.
Traía-lhe o corpo: fervente sangue ali se concentrava,

Cada vez mais, lhe aguçando a flamante sensação.
Para ele, era a maior fortuna aquela molhada flor
Tocar, vê-la desabrochar, contraindo-se em sua mão,
Esticar seus lábios para lhe intensificar o furor.

Mais sangue ao sul dimana contra sua vontade,
Fazendo arder-lhe o ventre com loucas carícias.
Friccionava um sensível ponto de sua intimidade,
Para cima e para baixo, devagar e em ação contínua.

Não tinha pressa: queria de todo aproveitá-la.
De golpe, fitando-lhe o olhar aturdido e suplicante,
Fez escorregar os dedos para dentro da rosa oculta,
Apertando-os naquela estreita passagem gotejante.

Explode nela um grito de fúria pela mordaça contido.
Quanto mais suportaria tal vergonha? Tamanha gana?
Ele mete-lhe os dedos com sofreguidão, rápido,
Profundamente, fazendo-os emergir vezes tantas.

Agita-os dentro dela, em movimentos giratórios,
Para com fúria o angustiante prazer aumentar,
Vendo Selena a contorcer-se, em deleite notório.
Assim, com mais força e rancor ele a penetra.

Seus pensamentos a deixaram; o tesão fê-la refém.
Nada mais conseguia ver: tudo lhe era tão só prazer.
Ofegando, mordendo o pano que os apelos detém,
Obsta o orgasmo para esse orgulho não lhe prover.

Porém, ele era incansável, esfomeado… invencível:
Arqueando as costas, num urro de selvagem fêmea
Que transpassou a mordaça às súplicas insensível,
Ela gozou com máxima pujança, sobremaneira.

Toda a força que usou para esse gozo impedir
Aos ímpetos do vil desejo então uniu-se,
Redobrando assim todo o seu libidinoso sentir,
Massacrada ferozmente pela ânsia de livrar-se.

Sua vagina pulsa, toda dolorida… esgotada;
E os dedos dele ainda se encontram nela,
Sentindo ardência naquelas paredes dilatadas,
Acariciando o montículo de sua camada externa.

Então ele, dando-lhe a entender sua intenção próxima,
Retirou-os, bruscamente, e os mergulhou, ainda úmidos
Da doce essência de Selena, em sua árida boca,
Chupando-os enquanto vislumbrava seu crime lúbrico.

Vendo-o em tão animalesco ato, antevendo o que ocorreria,
Sentiu-se tomada por intensa preocupação e rubor.
Meneando a cabeça, desesperadamente grunhia;
Mesmo assim, não pôde demovê-lo de libar seu sabor.

Ao contrário: tal decorosa recusa, permeando brios
E íntimos intentos em bravia luta desvantajosa,
Somente lhe favorecia a sedução tal arbítrio,
Qual lebre no fugir instiga a serpe venenosa.

Era do erotismo singular fascínio a resistência:
Sobremodo, da fêmea sua extraía deleitoso domínio.
Manipular tanto a excitação quanto a consciência
Dava a ele, mais do que tudo, onipotente prestígio.

Assim, pôs-se sobre ela, roçando seu torso musculoso
Na genitália da terrestre diva; beijando-lhe todo o ventre,
Foi aproximando o rosto daquele órgão tão desejoso.
Tendo-o alcançado, parou para admirá-lo, de chofre.

Amiúde, ficava a imaginar, quando ela por ele passava
Em suas elegantes roupagens, postura majestática,
Como seria ela sem tantas vestes e fantasias, apenas
Coberta por seu encantado pejo de moça castiça.

Como seriam as suas formas mais ocultas? Seu Secreto
Nome? Suas naturais fragrâncias? Seu gozo? O gosto
De sua intimidade? Que aspecto tinham seus segredos?
Tinha-os à disposição, agora, para o seu gozar expostos.

Nesse caso, vencia a imaginação a realidade:
A visão daquele fértil jardim excedeu suas expectativas.
Uma trilha de pelugem do montículo subia-lhe
Em direção ao umbigo; um indicador ao lírio de delícias.

E a principal atração, estando abertas e presas as pernas,
Bem visível ficou, esboçando pelo nenhum: lisa e oleosa.
Tudo nela é lindo e charmoso: suas avermelhadas pétalas,
Ao fogo submetidas, realçadas pela branca pele brilhosa;

Cada reentrância e saliência, cada dobra e profundidade
É obra perfeita nas mínimas minúcias; o odor típico,
Adocicado perfume, que ele respirava com voracidade,
Supera os bálsamos mais aprazíveis e místicos.

Não pôde mais conter-se; e mesmo contra os protestos
De sua vítima atormentada, fez-lhe uma investida cruel:
Por ela apaixonado, afoitos, seus lábios os dela tocaram,
Usufruindo de tão rico manancial mel inesgotável.

Lambe de lá tudo o que dela se expele; nada ele repele:
Gota sequer desperdiçaria daquela sagrada seiva.
Cravava sua ávida língua na abertura que se lhe oferece,
Saboreando o interior daquela flor melíflua.

“Por que tão vulnerável… tão maldito… és tu, meu corpo?
Cedendo tuas pudendas sensações a um desconhecido!
Já não calha o comer… o respirar… diversos estorvos,
Para me amaldiçoares com desagradável libido?……

“Que estranho sentir é este? Que… delicioso desconforto!
Por que tua língua bole minhas baixas regiões?…
Por qual obrigação… tu o queres? Que gosto te é engodo?”
Mas ela cessou de pensar, ao que voltaram as convulsões.

Percebendo nela a excitação crescente, arredou-lhe os beiços,
Contornando-lhe as bordas carnudas, de jeito suave.
Braços e pernas as cordas puxam; suor corre sobre os seios;
Indômitos gemidos soam abafados… o desejo avoluma-se.

Esticadas as pétalas, engole o hiante sexo por inteiro,
Como se beijasse a boca de uma princesa. Esfregava sua língua
Naquela macia textura em assomo forte e ligeiro,
Movendo o deleite de Selena na cadência de sua lascívia.

Medo, mágoa, ira, vergonha, repulsa: tudo em perdição e loucura
Converte-se e funde-se… turbilhão tórrido e encharcado.
De tão intenso, vinha-lhe junto com o prazer certa ardência;
Mas ela sabia que reagir seria inútil… mudos os chamados.

A sensação que há pouco experimentou – o fogo devorador –
Muito mais forte e incontrolável se lhe torna;
Já não resistindo às ofensivas do sôfrego violador,
Seu orgasmo tão cobiçado a ele novamente entrega:

Num imóvel tremor, ela ouve-se gritar enquanto goza
Tão violentamente, como se fosse estourar sua bela carne.
A boca do invasor ainda mantém-se ali a torturá-la:
Abocanhando-lhe o gozo, ainda queria dela saciar-se.

Agarra Selena pelo quadril para melhor a usurpar,
Com paixão mais agressiva, maior absorção.
Pouco importa o que seu egoísmo irá causar:
Só quer drenar o máximo de néctar daquela região.

Tentou recuar o corpo, sacudir-se; mas nada o afasta.
É um verme noturno a sugar o alento de uma rosa,
Até que esteja de todo satisfeito… e ela morta.
Não quer outro alimento; desse veneno morrerá.

Por estar tão aflorada a sensibilidade daquele lugar,
Cada mexer, cada sorver é um suplício!
A inquietude lhe dominou; começou a lagrimar;
Porém, nenhum doer comove do malfeitor o vício.

Em espasmos frenéticos, com lágrimas de luxúria
A lhe ensopar a face, toda suada e vermelha,
Ela prefere que ele a mordesse a tal agonia!
Mas ele não lhe pretende ferir a delicadeza.

Transpassado certo tempo, no paroxismo do tesão,
De repente o sádico parou de mortificá-la,
Sem antes lhe dar um último e interno chupão
Que nela ardeu como se dele a boca fosse brasa.

Ao sabê-la tão atordoada, sua atiçada mulher
De inocências despida, julgou-a pronta
Para perpetrar maior intrusão, indizível prazer,
Enchendo com sua essência sua deusa toda.

Tirou seus trajes bélicos, para longe arrojando
O sabre com o qual matou sentinelas;
Vendo-a irrecuperada, seu órgão pulsando,
Caiu sobre ela como um urso sobre a presa.

Estando tão molhada, a penetrou com facilidade.
Calor uniu-se ao calor; labaredas o fogo queimou.
Sentindo-a impetuosamente, fuzila sua feminilidade,
Revolvendo o profundo amor de quem nunca amou.

Extirpado pudor, consumada desonra… gozo tremendo!
Trepida a cama como se fosse desmontar;
E com a violência dos assaltos e movimentos,
Derramamento de delícias, rompem-se as cordas…

Pela noite inteira, inverteram os personagens:
Quem sodomizava, bruscamente foi subjugado.
Quando ascendeu o dia e se desfez a tempestade,
Dois corpos rebrilhavam, lânguidos… abraçados.


Conto de Inverno

Era invernada nas terras da fazenda. A casa rústica, trepidando com as ventanias, ainda era de madeira, ainda que o fazendeiro há muito já quisesse transformá-la num castelo de tijolos. Faria isso, no verão, até porque precisava de mais dinheiro para expandi-la e deixá-la aconchegante para seus oito filhos, cinco meninas e três meninos. A mais velha tinha doze anos; a mais nova era recém-nascida. O mais velho tinha onze anos e, o mais novo, três anos e, se excetuarmos a criança de poucos meses, era ele o caçula, o xodó da família.
Não era por menos: era um menino cheio de graça, gordinho e de bochechas rosadas. Qualquer macaquice que fizesse agradava ao fazendeiro e sua esposa mais do qualquer outro filho, ainda que não lhe pudessem dar mais atenção por causa da criança de berço – deles o segundo xodó. Mas naquele ano era inverno ameaçador! E as searas, cobertas por sereno e granizo, formavam um mar de cristais ao que se tornaram folhas e frutos duros e com forte propensão a quebrar. Animais sucumbiam e geravam estátuas de gelo de suas figuras. Homens e mulheres e crianças recolhiam-se em frente às lareiras, dentro da parte mais protegida de suas casas, para não virar gelo, como os animais, ou em escala menor e não menos atemorizante, pegarem uma tuberculose ou pneumonia. Nessa época, nessa região mais especificamente, ainda não existia tratamento para essas doenças e todo cuidado era pouco. 
Então, numa noite em que chegava a nevar e o céu parecia tornar-se espelho sólido, a proprietária esquentou chaleiras de ferro para tomar banho. Encheu a banheira de água quase fervendo e mergulhou, soltando suspiros de alívio. Enquanto isso deixou Eduarda, seu bebê mais recente, aos cuidados das irmãs mais velhas, Gerusa e Potiara. As duas ficaram mimando a criaturinha no berço enquanto a mãe banhava-se, tempo em que ambas podiam fingir que eram mães também. Pegavam sua irmãzinha no colo e a embalavam, fazendo caretas e sons esdrúxulos. No entanto, uma delas teve uma ideia excêntrica e a outra assentiu em cumpri-la. Na verdade, uma curiosidade bizarra: o que faria a exposição direta àquele frio todo a um ser humano tão frágil? A um bebê? O que faria? Seria como pôr sal em lesmas? Afogar baratas em gasolina? Por água fervendo em formigueiros? Por que não descobrir?
Ninguém estava perto quando abriram a porta de acesso à varanda e aquela brisa de tufões que, por pouco, não as derrubou no chão. Correram e depuseram Eduarda nua no chão de madeira, como se a estivessem dando para adoção, mas às avessas. Fecharam a porta rindo, como quem come a porção de sobremesa do irmão e sabe que assim lhe tiraram a alegria. E foram se esquentar, pois a o vento que receberam lhes congelou até a alma. Sabiam que era errado o que fizeram e por isso era tão legal!      
Quando Verônica, a mãe, voltou do banho e viu o berço vazio – coisa de uns dez minutos –, puxou a orelha das duas e as fez dizer imediatamente onde estava Eduarda. Gritando “ai Meu Deus! Ai meu Deus! Ai meu Deus…”, Verônica abriu a porta e nem se importou com o frio diabólico que a envolveu, entortando sua boca. Pegou o bebê pálido e gelado e o trouxe de volta para o calor. Eduarda tossia e arfava como se fosse gente grande. Deposta em frente à lareira, começou a recuperar a cor e sobreviveu com várias sequelas, entre as quais a total descoordenação motora e problemas cognitivos. Eduarda não aprendeu a falar, mas a articular roncos e diálogos retardados, rosnando quando muito acossada por suas irmãs. Desconjuntava-se ao caminhar em seus cacoetes perpétuos… e não aprendeu nada além do que gemer monstruosamente.   
Gerusa e Potiara foram duramente castigadas por Verônica, que quebrou varas em seus lombos. Mas logo as perdoou por completo, algum tempo depois. Em contrapartida, elas nunca perdoaram Eduarda pela série de surras que ela lhes fez passar. Atazanaram seus dias até quando morreu a caçula – aos catorze anos de idade –, em decorrência de complicações do episódio na varanda. Foi sepultada e chorada pela família, que já esperava tal fim. “Ela nunca teria uma vida normal e nem permitiria que quem lhe rodeasse pudesse ter uma vida normal… pobre criança!”, pensava Verônica, justificando-se para si mesma essa despedida prematura.
A matriarca teve mais cinco filhos, o que lhe arrancou em parte o desgosto dessa perda. E tendo morrido mais quatro antes dos vinte anos, Eduarda deixou de ser uma exceção para ser apenas “a que primeiro se foi”. Então todos os demais filhos cresceram e constituíram família. Gerusa e Potiara se casaram e deram netos a Verônica, que deles cuidou como se fossem seus filhos. Era uma mãe adorável e uma vó babona de boca torta que amava todas as suas crianças. Sobretudo as que nasceram de suas duas filhas mais ricas, as que conseguiram casar com verdadeiros príncipes encantados, os quais moravam em coberturas de prédios na cidade grande, possuindo ares condicionados que aqueciam. Para elas, havia chegado o fim das invernadas e de todo o sofrimento humano.   
Uma delas até mudou de nome, pois achava o seu antigo muito feio e não condizia com o status de uma advogada. A outra manteve o seu: por ser vereadora, gostava de suas origens humildes. Pois, vinda do interior, tendo sido pobre, sabia muito bem como os outros sofrem e, por isso, queria ajudar a todos. Doía-lhe ver um cachorro na rua, sem lar nem lareira. Sentia vontade de largar tudo e abraçá-lo forte, chorando por ele como nunca fez por ninguém.

A Filha Ingrata (Conto)

Sua mãe era quase uma sacerdotisa de uma religião que mais pregava a espiritualidade em vida do que uma salvação após a morte. Uma pessoa notável em sua sociedade que, seguindo os próprios ditames, era gentil para com todos, bondosa, honesta e sincera na medida em que lhe era permitido ser. Nunca fez um mal a alguém de que pudesse se lembrar; e sempre desencorajou as práticas ruins. Costumava aconselhar as mulheres e, até, alguns homens, a como se portarem socialmente e vencer problemas e depressões. Ela era um exemplo para a humanidade. E teve uma filha, a quem chamava de Pérola (mesmo que seu nome de batismo fosse Maria Rita, para parecer-se com o seu, Maria Carolina).
Pérola foi criada com todo o rigor espiritual que sua mãe sacerdotisa tomava como certo, mas também com todo o carinho e atenção. Sua educação foi a melhor possível; invariavelmente, era a menina recompensada por seus triunfos e, na mesma proporção, repreendida por seus erros. Cresceu aprendendo bem a diferença do que é certo e errado até o ponto de ruptura entre essas duas polaridades. Bebeu o conhecimento de grandes autores e decorou seus pensamentos. Foi obrigada a passar na escola sem jamais repetir um ano ou tirar nota baixa. Foi afastada dos rapazes em seu palácio familiar. Teve noções desde muito cedo sobre família, retidão e amor celestial e sobre prazer, sujeira e banalidade.   
Assim, Pérola começou a se prostituir com quinze anos apenas, apesar de ter perdido sua virgindade muito antes. Sua mãe, por mais que soubesse das inúmeras práticas vergonhosas dela, acreditava que Pérola voltaria a ser a doce menina de quem ela cuidou com o mais puro amor celestial. Mas só pôde manter o rigor de suas lições até a filha completar vinte e um anos – ou seja, sua maioridade definitiva. Pérola estava livre, então… morando em casa de sua mãe, o que fez até seus sessenta anos, jamais tendo trabalhado além da prostituição ou tido reais necessidades.
Quando Pérola envelhecera – e tornara-se uma joia enrugada – sua mãe, que ainda rezava todas as noites para a recuperação moral de sua prole, ficou doente de maneira terminal. Emagreceu absurdamente, indo dos 70 aos 35 quilos em poucos meses. De cama em casa, seca como se fosse um galho caído num inverno que passou, não tendo forças nem para se levantar, foi cuidada por todas as pessoas que conhecia. Todos vieram prestar-lhe ajuda, tal e qual prestariam a Cristo, se ele tivesse existido nos dias atuais. Exceto uma pessoa não ia ao quarto ver Maria Carolina. E essa abstinência já durava três meses.
Sentindo-se morrer cada vez mais, não querendo ir ao hospital para perder tempo, Maria enxergava aquele vulto familiar passando diante da porta, sem deter-se. Nem ao menos olhava para dentro do quarto. Passava rapidamente, como se transtornada por alguma correria. E isso mais machucava a enferma do que a doença poderia fazer. Ao notar os olhos chorosos da mulher que jamais chorou, esforçando-se ela para demonstrar a costumeira serenidade, seus fiéis foram tentar convencer Pérola a ir ver sua mãe e desculpar-se tantas vezes que pensaram que jamais conseguiriam convencer a puta sexagenária.
Mas conseguiram. Foi num domingo pela manhã, tendo-se tornado a casa de Maria Carolina um templo de fé e união para seus fiéis, que eles a convenceram. Pérola tomava café puro, sem açúcar e já frio, girando a xícara para ver o redemoinho que nela se formava, quando todos foram à cozinha falar com ela, praticamente em uníssono. Ela, sem nada responder, nem lhes devolver os olhares duros, pousou a xícara na pia. E de cabeça baixa, como se pesarosa ou resignada, foi ao encontro de sua mãe. Estancou na porta e, durante um milésimo de segundo, Maria Carolina sorriu ao vê-la.
– Por que tu não morres logo, sua diaba do rabo sujo? Por que não te desprendes dessa carcaça podre? Quem te ama que te limpe, cadáver horrendo! – Gritou Maria Rita e deixou o quarto. Jogou fora o café e quebrou a xícara para não ter que lavar. Saiu em uma odisseia orgíaca, regressando uma semana depois. 
Maria Carolina faleceu à tarde, rodeada por seus amigos que fizeram de tudo para consolá-la. Morreu chorando como um bebê manhoso, paralisando sua face nessa carranca infantil, pensando se deveria ou não ter tido outros filhos. Mas isso nunca foi possível para ela, se quisesse conservar suas leis conjugais e espirituais: seu marido, o homem a quem devotou amor eterno, por sorte já era morto antes de Pérola nascer. Um acidente e morte súbita… não por doença e agonia de longas décadas.       

Um Feliz Prenúncio (Conto)

Você vai morrer!” – Disse a vidente, encurvando as sobrancelhas. – Não! Não necessariamente você vai morrer, mas isso depende de qual caminho escolherá. Na verdade você encontrará uma de suas mortes caso não siga minhas instruções, pois, ao contrário do que se pensa, não há um destino certo, mas vários destinos em que estamos propensos a cair. Assim uma pessoa pode ter vários êxitos, várias desgraças e, claro, várias possibilidades de morte antes de morrer. E todas procuram nos atrair para elas, sendo que, se nos desviamos desta ou daquela morte, é justamente por uma boa casualidade quando não se busca o trabalho de profissionais (por isso, sempre recomendo fazer visitas periódicas às videntes, como aos médicos, para saber qual caminho seguir e não morrer ou cair em desgraças). Mas não tema: para sua inacreditável sorte, vou salvar você desta morte, basta que siga minhas instruções. Amanhã a morte da qual te falo virá te procurar na rua. Não saia de casa, nem abra portas ou janelas. Invente uma desculpa para todos, minta para o seu chefe e família, mas em hipótese nenhuma você deve sair de casa amanhã ou abrir janelas e portas, pois a morte a que me refiro te buscará nas ruas ou em sua casa, se ela descobrir onde você mora. Já aconteceu certa vez de ser o oposto, de a pessoa precisar sair para não morrer, pois a morte que prenunciei já sabia onde a vítima morava e havia se alojado por lá, esperando determinado momento; mas não é relevante lembrar-se disso, ainda mais porque a pessoa, ao invés de cumprir o que eu lhe disse, ficou bem sossegada em casa, assistindo filmes e desenhos animados, e, por estar sozinha, uma viúva das mais mal-amadas, veio a morrer de derrame cerebral. Houve o caso de um senhor a quem eu disse para não sair em dias de chuva durante um mês inteiro e, no terceiro dia, ele saiu para comprar remédios num verdadeiro dilúvio e foi pego por um carro que se desgovernou. Também, aconselhei uma moça a não comer doce de leite… e ela comeu e não morreu, mas engravidou, conforme eu tinha previsto. Enfim, nenhum deles seguiu minhas orientações e todos sofreram. E eu, como sou profissional em salvar vidas mais do que são as enfermeiras, não quero que isso aconteça com você. Portanto, lembre-se: amanhã fique escondido em sua casa desde o nascer do sol até o poente, tampando até as brechas das janelas e das portas que dão para a rua. Entendeu? Isso é muito importante. Não deixe nenhum espaço aberto em sua casa e volte-me depois de amanhã, que eu irei prever qual será sua próxima morte. Posso lhe render mais alguns anos ou meses de vida, caso continue vindo ao meu encontro periodicamente. Você está me entendendo? Posso prever quando serão suas mortes e lhe mostrar como evitá-las, contanto que sobreviva a próxima e não deixe de me visitar para novas sessões…  
No dia seguinte, antes de amanhecer, ao levantar depois de uma confortável noite de sono a primeira coisa que fez foi escancarar portas e janelas. E pôs música alta de uma estação de rádio qualquer, não temendo retaliações dos vizinhos. Depois, arrumou-se com sua melhor roupa e saiu de casa, como nunca fez. Saiu para reaver velhos hábitos e achar outros. Olhou para o sol refletido nas folhas das plantas como fazia em sua puerícia, esperando que ali houvesse algo mais. Olhou para as pessoas que nas ruas caminhavam, procurando em seus sorrisos e ações algo mais. Foi às praças, às matas, às favelas, aos rios e autoestradas e nada encontrou. Contornou penhascos; mergulhou em rios sujos; caminhou por onde não devia, aventurou-se de maneira completamente inusitada. Onde estaria? Na seriedade de crianças? Na brincadeira de adultos? Nas rodas de um caminhão? Sob uma pedra, na forma de uma larva? Dentro de um bueiro? Embaixo de uma ponte ou no terraço de um prédio? Em toda a atmosfera, como um mal onipresente? Passou manhã e tarde procurando por algo mais. A morte que a vidente prenunciara e que tanto desejava conhecer.
O dia teve fim e nem um acidente ou tentativa de assassinato. Nenhuma surpresa. De parte alguma brotou a morte que lhe foi prometida. Caiu a noite e nada. Passou em claro a madrugada, já pensando em como se vingar da vidente que lhe deu falsas esperanças. Quando já estava de saída para ir à casa da impostora, percebeu em sua mão uma pequena bolha. Uma feridinha minúscula, mas que já estava formando um halo de inchaço e vermelhidão ao seu redor. Era a picada de um mosquito, provavelmente um transmissor de doença mortal. Ao menos, foi o que indicavam a purulência, as dores fortes e a dificuldade em respirar das próximas horas. Sentiu-se feliz e livre de enganos. Enfim relaxou e pôde dormir.      

A Alma do Natal (conto bonitinho)

Caminhando sem querer acordá-la, mas esboçando certa despreocupação quanto a seus passos, foi ao quarto dela e, na impossibilidade de lhe deixar um beijo, lhe deixou moedas sobre a cômoda. Era a maneira que encontrou de pagar as dívidas que seu nascimento causara e de amparar, nessa nova amargura cuja ação ainda não foi cometida, o semelhante a quem mais amou. Fechou a porta com delicadeza e se foi, planejando não mais voltar…
Que realidade ou simbolismo apresenta-nos o Natal? É meramente uma data com desígnios comerciais ou possui algo, em sua essência, que transcende qualquer trama publicitária, engodo capitalista ou felicidade material? Para Pedro, um rapaz de mente febril, que tudo quer saber, tudo pondera e investiga, o Natal já era passado. Após tantos anos à espera de alguma manifestação do espírito natalino na sua vida e na de seus familiares, passou a crê-lo como uma ilusão. Tinha apenas oito anos quando se viu convicto de tal desengano, pois residia em barraco lastimável, num bairro muito pobre de Gravataí, com seus quatro irmãos e Carla, sua mãe batalhadora. Estando ela desempregada há meses e sendo ele o mais velho das crianças, impossibilitado de ajudá-la, viam-se em condições precárias, vivendo basicamente com o auxílio governamental e com dinheiro que Carla, eventualmente, ganhava com faxinas. Mas isso não era o bastante para que vivessem dignamente… nem perto disso.
            Tantas vezes pediu, com fervor, em Natais anteriores, que algo de bom lhes acontecesse e que sua situação se estabilizasse permanentemente. Porém, ao que parecia, foi uma espera em vão. Em decorrência dessas frustrações, nesse ano decidiu fazer diferente: pôs em sua mochila velha as poucas roupas que tinha, reuniu os trocados que conseguira com a venda de latinhas e, com o intento de não mais voltar, foi a Porto Alegre. Não mais queria ser um peso à sua família, assim como desejava fazer sua própria sorte… fugir de uma esperança incerta. Ao desembarcar na Capital, na véspera de Natal, viu-se com poucos centavos no bolso e faminto. Não importava: já sabia como proceder para garantir o seu sustento. Ao menos, para essa noite de gala, proporcionaria uma ceia. Escolheu um mercado movimentado; observou-o bem para ver como poderia roubá-lo; foi à ação. Num momento de distração de todos, encheu a mochila com guloseimas, colocando algumas por debaixo da camisa. De fininho, dirigiu-se à saída. Mas, antes de concluir o crime perfeito, ao que cruzava a porta, foi pego pelo dono do mercado, um senhor gordo, alto, e mal-encarado. Vociferando, ele pediu ao menino que esvaziasse a mochila. Pedro negou-se. O homem então lhe tirou a mochila e verificou por conta própria, achando nela vários produtos caros. Quando foi dar uma surra no menino encolhido num canto do estabelecimento (o que sempre fazia com os trombadinhas), de pronto, parou, ao ver-lhe as empoeiradas roupas, convertendo o cenho fechado e opressor em uma expressão mansa e amigável. Depois, abaixou-se e perguntou-lhe o nome. Pedro não respondeu, mal o encarava, em parte por medo, em parte por arrependimento. O dono do mercado não se importou com o desrespeito do menino; disse-lhe que poderia levar as mercadorias, acrescentando um panetone, e desejou-lhe um feliz Natal. Pedro saiu do estabelecimento sem responder ou encará-lo. Sentou-se numa praça, e pôs-se a degustar a iguaria natalina com sofreguidão, como se nunca o tivesse feito. De fato, nunca o fizera. Lambia os beiços: era delicioso demais… como um sonho macio de sabores e aromas. Foi o um presente e tanto de quem esperava repreensão. Isso, ele teve que admitir.
              Absorto em sua refeição, Pedro não notou que, num banco do outro lado da praça, havia uma mulher com duas crianças pequenas em seus braços, acompanhadas por um vira-lata mirrado. Todos estavam vestidos humildemente, e pareciam tão desanimados. O único que se mantinha em alerta, faceiro, era o animal, que lambia as faces daquela pobre gente e depois apontava com focinho a várias direções, como se dissesse: “Ei, levantem! Temos que reagir! Há muita comida em toda a parte! Eu vi! Há estalagens abarrotadas de alimentos ao nosso redor! O que esperamos?” O cão seguia as leis de seu instinto; a família, as convenções de uma sociedade desumana. Ele bem poderia caçar para sustentar-se; a família, desprovida de recursos financeiros, de “instinto humano”, só podia esperar caridade. Mas todos passavam por eles sem dar a mínima, preocupados em dar presentes a quem, talvez, não fariam falta. Por isso, os três perderam a esperança; devido à sua miséria, não eram amados, nem dignos de amor. A felicidade só vem para quem já a tem – assim pensavam. Como estivesse a olhar para um espelho de sua existência, de seus dramas insolúveis, Pedro sentiu os bocados do panetone travarem em sua garganta. Não podia comer vendo-os ali desamparados. Pegou sua mochila e foi-se embora. Cinco minutos, retornou àquela praça, encontrando-os no mesmo banco, com as mesmas expressões. Sem dizer palavra alguma, deu-lhes sua mochila com todo seu conteúdo, inclusive seus centavos e roupas, visto que os menininhos mal tinham o que vestir. Era pouco, quase nada, mas estava convicto de que lhes seria um importante alento. Ainda quieto, Pedro saiu dali, ouvindo os efusivos agradecimentos de todos. Acabara de desfazer-se de sua única esperança e não se sentia triste. Muito pelo contrário: estava estranhamente feliz.
Já era noite. Ciente de que cometera um erro ao ter deixado sua família, e que pagaria caro por isso, embora nada ele pudesse pagar, acomodou-se como pôde em paralelepípedos debaixo de um viaduto e se pôs a dormir. Todavia, logo foi acordado por uma algazarra próxima a ele: era uma turma de mendigos. Dançavam e gargalhavam loucamente em trajes imundos. Sobre uma tabua velha, improvisaram um banquete de restos e caridades, com direito a espumante barato. Pedro, presenciando tamanha espirituosidade, aproximou-se deles, timidamente, e indagou: “por que estão felizes em condição tão miserável?” A resposta veio num sorriso, em uníssono: “É Natal! Isso já nos basta!” Por toda a noite, Pedro dançou, riu, brincou e brindou com aquela enorme e alegre família. Pela manhã, eles o colocaram num ônibus, usando as poucas moedas que dispunham, e Pedro pôde voltar para casa. Quando avistou sua mãe, em prantos desfeita, fortemente a abraçou, pedindo-lhe perdão. Sem pensar em castigá-lo, Carla só desejava abraçá-lo. Nesse momento, Pedro deu a ela o mesmo presente que os mendigos lhe deram: a verdadeira felicidade, a esperança intrínseca e infindável… a Alma do Natal.

PT e meus Professores – Ou Avante Licenciaturas (a Todo Custo)!

Uma vez vi um historiador comentar, quando perguntado sobre o que ele pensava que ocorreria em determinado conflito no mundo – tanto faz qual era – e o cara respondeu algo assim: “um historiador estuda o passado. Portanto, sabe tanto do futuro quanto qualquer pessoa”. Se levarmos em consideração que a história do mundo é cíclica – constituída por repetições –, é claro que um estudioso desse porte deveria ter, ao menos, noções do que poderia acontecer, tal como alguns autores literários que previram “fatos” (leia-se tendências) através de seu talento quanto à observação social. Enfim, o que vale aqui é a exemplificação. Meu foco é outro… meus inestimáveis ídolos: os professores, os verdadeiros detentores do conhecimento. Refiro-me aos professores de todas as matérias que não se viram caindo numa armadilha estúpida (logo revelarei qual é essa armadilha, embora eu já tenha dado “spoiler” a respeito no título), mas resguardo alguns comentários especiais para os de português e literatura, como será visto ao longo do texto.
Pelo que pude observar, ao menos nas instituições em que estudo/leciono, os professores em maioria estavam encantados pelas propostas educacionais do PT, como se fossem nelas residisse uma espécie de Terra Prometida. Alguns deles incitavam fervorosamente que os alunos votassem no PT e ficaram aliviados quando Dilma venceu porque, com sua reeleição, programas como PIBID não estariam ameaçados. Comecemos então: em primeiríssimo lugar, professores de gramáticos e comedores de grama, viram quem é o emblema máximo da política brasileira? Viram quem era Lula e Dilma e sua linguagem perfeita, sua coerência incontestável? Sim, devem ter visto. Vocês passam semestres inteiros tentando ensinar seus alunos a escrever e falar corretamente, a se expressar com coesão e nexo, para entregar tão faceiramente seu voto as duas mulas como essas? No Google, são facilmente encontráveis pérolas grotescas (em nível de pérolas do Enem) dessas duas entidades politicas… mesmo assim, elas puderam convencer-vos, caríssimos professores? Só olhais para o passado (leia-se o próprio rabo) e não vedes mais nada?
Já vi pós-doutores de literatura apoiando esses irremediáveis jumentos. O que adianta tanta formação se, na hora de pôr em prática o que aprenderam, de refletir bem sobre a situação, fazem besteira? Ah, sim, as propostas… uma das características mais comuns na política brasileira – em especial, no partido em questão – é criar simulacros de solução. Parecem solução, mas não tem a efetividade duradoura de uma solução real. São tiros com balas de festim; fogos de artificio que fazem o céu relampejar num instante – e pessoas vibrarem de emoção – e somem logo em seguida. Pois, ao que tenho acompanhado (o pouco que tenho – sou meio alienado e gosto de ser assim… perde-se tempo demais acompanhando o mundo e suas birras e “velhas novidades”), vejo que nada a situação dos professores continua precária em mais de 12 anos de PT (e a Dilma ainda consegue facilmente os votos dos professores). O professor ainda é desvalorizado e ainda será por muito tempo ao que posso prever… deduzir. O FIES, até onde sei e até onde ele me ajuda, posso dizer que sim, foi algo bom, ótimo, que deveria ter acontecido antes; no entanto, valoriza-se muito em terras tupiniquins a quantidade e não a qualidade. Preocupam-se mais com quantos estão frequentando escola e faculdade e acabam por esquecerem-se da qualidade do ensino, pois, se todos tiverem educação, vendo que há tantos professores despreparados por aí e tantos outros serão formados às pressas para acatar a crescente demanda, o nível do ensino decairá mais ainda, como tem ocorrido nas últimas décadas. Por isso, aliás, que o governo, as instituições querem arrastar todo mundo para as licenciaturas. E quem entra num curso de licenciatura, dificilmente consegue trocar de curso (tipo filme de terror, tipo tentar cancelar plano da operadora). Assim, o governo não precisa valorizar os professores – como suponho, não precisará enquanto não houver real necessidade disso (a falta de professores é uma necessidade contornável para o governo, como se pode ver).
A utopia em que serão valorizados como reis que os professores esperam como se fosse a “Arrebatação” prevista por algumas igrejas nunca acontecerá, ao que prevejo, e devíamos, eles deviam saber lidar com isso ou saber requisitar isso com mais inteligência (e dignidade). Deste modo, foram os professores enganados por tantas promessas, por tanta ignorância, a despeito de suas formações, ideologias, sabedoria, etc. Provavelmente, serão outras vezes… e, aparentemente, por qualquer mula. Interessante que os mesmos professores que estavam apoiando Dilma no ano passado ficaram felizes quando sua polaridade caiu. Isso só evidencia como são obtusos muitos de nossos “educadores”. E facilmente compráveis, pois qual diferença há entre os nordestinos de quem tanto reclamamos, comprados por um saco de cimento ou um quilo de arroz, e os professores, comprados por qualquer proposta? Qualquer projetinho que lhes dê mais lucro? Pensam no bem-estar de todos e não somente no próprio bolso ao votar em mulas que lhes prometem meia dúzia de baboseiras? Veem a sociedade como um todo pensando exclusivamente em suas vantagens imaginárias?
Para encerrar, declaro que não apoio nenhum partido ou político. Sendo assim a ideia principal desse texto não é atacar um partido isolado, mas pôr em xeque todos igualmente, incluindo os professores e demais profissionais. Pois diploma não é prova de sabedoria – e nem atesta condições de exercer o direito/dever de votar.

            

O Patriotismo Literário Brasileiro – A Burrice que Restringe!

No tempo em que tenho cursado faculdade de Letras – essa baita gincana por publicações – venho percebendo uma realidade que, se não afeta a todos, afeta a uma grande parte de pseudoliterários: o “brasilianismo absoluto”. Só estudam a literatura brasileira por acharem que estão conhecendo as raízes literárias do país, não se dando conta de que elas são, na verdade, cosmopolitas. Pois nossos melhores autores são cosmopolitas – leram grandes autores de todas as épocas que os antecederam, de todas as nacionalidades, não mantendo preconceitos para com nenhuma senão apenas no que tange à sua qualidade. Ou seja, foda-se se a nacionalidade da literatura ou sua temporalidade – assim como foda-se o seu contexto social e tudo que lhe é adereço e não essência humana. Importa se é atual – se mesmo nos dias de hoje causa-nos impacto – e se figura como uma obra cuja leitura nos é imprescindível. Como tratar de certos assuntos sem perguntarmos a Dostoievski, a Shakespeare, a Proust, a Oscar Wilde, entre outros, o que eles pensam sobre? Falar sobre violência, por exemplo, sem pagar uma vodca pro Dosto? Ou uma garrafa de xerez pro Shakes? Queremos realmente chegar a algum lugar ou brincar de “Ciranda-cirandinha”?
          Óbvio que Freud entendia mais sobre a marginalidade brasileira sem nunca tê-la estudado. Óbvio que Nietzsche entendia mais sobre sexualidade – sendo quase cabaço – do que qualquer puta. Ser vítima de um mal não significa entendê-lo melhor do que quem somente observa; e experiência quer dizer nada também. Pois, então, todas as putas do mundo seriam sexólogas – e boas de cama. Xamanismo é o que faz o gênio… um poder de observação e de criação (imitação da essência de homens e mulheres sob suas vestes sociais) semidivinos. Sim… alguém pode estudar a vida inteira e não tornar-se gênio de coisa alguma – é o que mais ocorre, por sinal – e outro tornar-se gênio tropeçando em pedras na rua (ao contrário do que a democracia nojentona de hoje afirma – e nossos amados doutores bem-feitores que só leem literatura brasileira e perdem não só o deleite de outros autores, outros universos, mas também deixam de aprender maravilhas… ah, sim, claro… eles amam o conhecimento! Lindões eles! Mimosos!).
          Em verdade, não me preocupo com os professores e leitores manés que só se interessam por literatura brasileira – que vão para o diabo! –, mas sim com a ditadura cultural que eles propõem. Em faculdades, entre autores e leitores de araque, só se aborda e estuda esse brasilianismo absoluto. E alunos, leitores ou autores com grande potencial acabam por padecer desse fanatismo sem nexo, sendo que Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo, eram grandes leitores do mundo. Esses jumentos que impõem ditadura patriótica devem entender que antes de ler suas raízes, de pintar as cores de sua tribo, deve-se antes ler e pintar o mundo. Deve-se conhecer o homem, a mulher, por debaixo da carne, não apenas sobre suas vestes, senão seremos como muitos professores de literatura – xérox da wikipedia sem fluência de pensamentos –, que só leem análises e não os livros analisados. Sim, são esses “gênios” que não somente querem nos ensinar sobre literatura, não lendo livros mas críticas e análises que ficam devendo à obra original – quando não falam bobagens sobre ela –, como também impor a ditatura da análise, da crítica sem conteúdo. Ademais, não compõem um verso de um poema ou um parágrafo de um texto literário para justificarem a escolha de sua carreira. Professores de literatura ultra patrióticos que não leem nem escrevem literatura… me parece metáfora do novo mundo.  

Spoilers… o que têm a ver?

Muita gente que contar detalhes da trama estraga o filme, o livro, etc., e eu ficando imaginando o quão expectadores de telenovelas eles são. Pois somente telenovelas ficam dependentes de surpresas na trama para sem “boas”. Obviamente, é interessante sermos pegos de surpresa em determinados momentos da trama, mas é claro que, se porventura do bom destino nos chegarem informações do enredo antes de termos visto o filme ou lido o livro, esses “spoilers” não desmerecem a obra. Pois, a exemplo da literatura, o leitor não lê bons livros, mas se apresenta a eles… começa a trava amizade e convívio com Hamlet, Folhas de Relva, Urizen, e por aí vai, sendo o prazer ampliado a cada releitura, porque essas obras não dependem de suas tramas, mas de mil outros elementos para prolongarem sua vida útil. Se uma obra é estragada por esses “estragadores” é porque essa obra em si era porcaria e, seus fãs, inconscientemente, telespectadores de novelas mexicanas.
O mesmo vale para os que querem saber demais da trama e dos personagens após ter terminado o livro, o filme. “ah, será que fulano e ciclano se casaram?”, “O Harry Potter fez depois de destruir Voldemort?”, etc., etc. A obra precisa ter o seu vazio – sua parte não escrita é essencial para sua qualidade. O mistério deve ser melhor que sua revelação… isso é o que compõem a grandeza da literatura. E não o prazer dos telenoveleiros, que querem saber tudo como se estivessem lendo revista de fofocas. E ficam brabinhos se o autor não revela mais e mais (não querem comer merda também, para ver gosto tem?). E sobre os que amam finais felizes, querendo apenas finais feizes, ficando tristes chateados com finais tristes, não darei uma palavra. Aí é falar demais sobre a escrotidão de adultos mal crescidos.

Gente que Deveria Ler Menos e Calar-se Mais!

“Li dez livros neste mês”. “Por minha vez, eu li vinte livros”. “E eu, duzentos livros só hoje”. “Tá, mas qual é a diferença?” Acho interessante como existem pessoas que gabam-se de ler ou ter lido muitos livros – nem perceberam que a moda de gabar-se por leituras realizadas já acabou ou está prestes a acabar (vão por mim, gente fucking leitora: as pessoas estão interessadas em outras formas de “ostentação”… recomendo escolherem outro hábito com o qual blasonar sua importância social) –, na maioria das vezes, nada diz que corresponda ao número e densidade de suas leituras. Já vi muita gente dizer-se leitora e, de fato, atestar que leu esse e aquele clássico da literatura, e continuar sendo um jegue ao falar sobre qualquer assunto. Pessoas que devoram livros e, quando lhes sobrevém alguma situação sobre a qual devem comentar, não dizem nada que se aproveitem. Escrevem horrivelmente em suas análises pomposas, sendo o oco que ecoa no vazio. Isso quando não resolvem transformar em “ursinho carinhoso” algum autor (transformá-lo a todo custo em uma criatura fofinha e humanizadora). Então, eu pergunto: para que ler tanto, se nada absorvem ou conseguem articular? Por que não vão ver telenovelas em vez de perderem horas e horas lendo? Ou, se querem ostentar cultura literária, façam como doutores de literatura que conheci, que nada leem e buscam resumos e análises na internet. Mas não abram a boca em hipótese alguma que não sejam para dizer li esse ou li aquele.
Outra gente que me irrita profundamente é o pessoal que adotou como alcunha de religião o termo “literatura fantástica”. E esses fantásticos leitores só querem saber desse gênero de literatura. Lindo, não? A meu ver, concordando com Wilde, existe literatura com ou sem qualidade… e acaba por aí a importância das nomenclaturas. Quem somente lê (e defende como religião) literatura fantástica, não sabe o que está perdendo na “literatura normal”, assim como as pessoas que não gostam de literatura fantástica podem estar perdendo ótimas obras, dependendo de como foram idealizadas e não de seu gênero. Pensam que são taxados por infantis por gostarem de literatura fantástica, mas, na realidade, é seu fanatismo que os torna infantis – e não somente os fazem parecer. 
Meu última crítica vai para os críticos de cinema modernos e amadores (imagino que os verdadeiramente profissionais não se enquadrem nessa crítica… espero que não), os quais têm por habitats redes sociais, sites de crítica cinematográfica e plagas onde o bom senso artístico mostra-se ausente em muitos casos. Desta vez, vou recomendar o oposto do que está no título desse texto: leiam, leiam muito. Leiam como se não houvesse amanhã. Pois pode-se dizer que o cinema deriva quase que completamente da literatura (até o Rambo veio dos livros). Ademais, tendo-se contato com a matéria-prima de muitas obras cinematográficas, aprofundando-se em leituras fortes, pode-se comentar os filmes com mais criatividade e perspicácia e não da forma que tenho visto. Pois críticos amadores têm me levado a pensar, por seus comentários rasos e expectativas infantis, que gostam de telenovelas e não de filmes. Ainda estão na infância da crítica e não em seu zênite, ponto de começo para quem leva a arte a sério. 

Intertextualidade – Descoberta Moderna de Merda Nenhuma!

Muito se fala em intertextualidade como se fosse a descoberta do milênio! E cria-se até matérias para estudar a intertextualidade, como a Literatura Comparada. Pelo amor de Satã! Será que ninguém percebeu que não há literatura sem intertextualidade, pois um texto grandioso carrega consigo estigmas da literatura, da arte que o antecede. Pode-se em obras de autores consagrados respostas às obras de outros autores, às ideias de outros; e, talvez, até um “plágio de homenagem” – comum na literatura, por mais que os acadêmicos cristãos e humanizados – que não leem livros, só análises – digam o oposto. Só para constar, o que chamo de “plágio de homenagem” é quando um autor traz à sua obra uma ideia de outro, pois quer desenvolvê-la também… como amigos que conversam sobre o mesmo assunto.
Enfim, os doutores e professores dessa nova safra ­– de quem a praga dos estudos imbecil consumiu o cérebro, pois, ao contrário do que se pensa, nem todo conhecimento é válido – estão com os olhos brilhando com a descoberta da intertextualidade… sendo que ela sempre existiu e é onipresente na literatura (não nos textos sociais). Regra geral: todo autor digno de ser dito literário foi inspirado por um conjunto de autores… e essa inspiração, essa aquarela de inspirações não somente aparece em sua arte, como também deve aparecer. Um artista é visão de vários artistas, além de sua própria: a arte é uma só, tapeçaria que todos os grandes tecem. Os menores, os vermes da terra, pisam em cima do chão alfombrado, baixam as calças e cagam sobre, imaginando descobrir um mundo novo assim.

A Desigualdade e sua Imprescindibilidade Social

Texto curtíssimo sobre assunto que pedia mais, mas só quero tecer um comentário aqui. De novo, professores, doutores, reis do mundo. Os mesmos atribuem tudo o que há de ruim na desigualdade social… e o capitalismo é sinônimo de satanismo, o que é uma abordagem extremamente ingênua (senão falaciosa). Em primeiro lugar, uma realidade em que não existe desigualdade social e tudo funciona maravilhosamente só existe naquela besteira de livro chamado The Secret (O Segredo), cuja filosofia é que, se todos desejarem até se borrarem, terão tudo do que necessitam. Sim… não havendo lixeiros – pois tornaram-se magnatas, porque ninguém sonha em ser pobre –, o lixo recolher-se-ia sozinho, as casas se faxinariam sozinhos, os carros se montariam sozinhos… e um bilhão de exemplos. O mesmo se dá com a sociedade: sempre haverá quem vai fazer o trabalho sujo e sofrer desigualdade/injustiças. Acostumar-se a isso é essencial para sobreviver e desenvolver um pingo de consciência sobre a realidade social.
O que devem fazer essas antas diplomadas é, antes de tudo, exigir igualdade de tratamento para todos – como suponho que ocorre em países civilizados – e salários justos. Desigualdade sempre haverá, pois a sociedade humana necessita disso. E o capitalismo, satã do mundo, pois mais horrível que seja, foi o que possibilitou o desenvolvimento de mil áreas – entre elas, a indústria que, vejam só!, melhorou a situação dos pobres, antes quase sempre fadados à eterna pobreza. E, caramba!, possibilitou também o desenvolvimento da Educação… graças à selvageria comercial, doutores tem sua barriguinha bem cheia para falar da selva que habitam e lhes favorece.
Além de que, em maioria, doutores odeiam ajudar pobres – como odeiam estudar. Só usam uma roupagem de humanitarismo… aliás, já vi casos de doutores que não são com quem os circunda… e falam de humanização o tempo todo! E caímos na descrição do homem ridículo de Dostoievski (do conto “O Sonho de um Homem Ridículo”) para uma sociedade que se corrompeu: “como eram maus, deram em falar de bondade; como eram injustos, deram por falar em justiça”. 

Contexto Social?

Que papo é esse de contexto social? Que isso tem a ver essencialmente com a literatura? Obviamente, o autor precisa embasar-se em alguma realidade social para criar suas obras, o que não quer dizer que o contexto maior – a filosofia que subjaz à trama – seja dependente de tal realidade. Por exemplo, o livro O Jogador, de Dostoievski, poderia ser ambientado em qualquer lugar do mundo onde exista cassinos ou simulacros deles (obviamente, não se pode contar a história de um jogador numa tribo de índios, mas penso que me fiz entender), o que não acarretaria perdas consideráveis nas ideias principais do livro – as quais são atemporais e universais. Refiro-me, neste caso, ao indivíduo que é arrastado a uma vida terrível, desprezível – que não estava em seus planos – e passa a gostar dela… transforma-se num jogador sem querer. Muitos de nós (quase todos, senão todos) nos tornamos jogadores sem querer… é uma ideia universal. Literatura é formada por ideias.
Claro que a literatura não surge do nada. Não vemos uma paisagem e, emocionados, escrevemos obras-primas. Dante viu a paisagem que mais o impressionou – a tal da Beatriz – e escreveu o maior poema de amor – entre outras coisas maiores que isso – não inspirado somente por sua musa, mas por autores que vieram antes dele e lhe apresentaram ideias fora do espaço e do tempo. Ou seja, autores grandiosos aprendem com autores que são extemporâneos e souberam criar uma filosofia poderosíssima sob a casca que chamamos de contexto social (e tantos autores modernos e tantos doutores de araque escrevendo sobre crítica social… por que não vão fazer aviõezinhos e, assim, gastar menos papel com algo mais produtivo? Ou nas palavras de Coriolano, do Titio Balanlança, “ide enforcar-vos!”).
Dizem os mais antiquados estudiosos que a sociedade precisa da literatura para enxergar a si mesma… lindo conceito e ultra datado! Hoje existem novelas e jornais que já cumprem bem a função de mostrar nossa rasa modernidade a si mesma. Além do que, a literatura de crítica social não tem feito mais do que conseguir publicações para seus autores – a mágica palavra “currículo” – e ser lido por acadêmicos (só acadêmicos), não atingindo seu público-alvo (os oprimidos, as minorias, etc.), nem fazendo por eles mais do que os políticos. Aliás, perto dos autores e estudiosos de textos diversos sobre a crítica social, os políticos são os maiores bem feitores da Terra, pois, bem ou mal, pouco ou muito, eles já efetivamente ajudaram alguém (só para constar, acho que em maioria os políticos brasileiros constituem a grande decadência da razão – e há quem está abaixo deles, mesmo tendo infinitamente mais formação). Enquanto isso, o que Shakespeare escreveu sobre Veneza, sobre Dinamarca, sobre a própria Inglaterra, faz sua réplica por todos os continentes sem que seus habitantes precisem ter lido Shakespeare (porque este nos lê com mais facilidade do que nós podemos lê-lo, segundo o crítico Harold Bloom). E mesmo se homens e mulheres forem habitar a lua, Marte ou outra galáxia distante, ainda prevalecerá o que disse Shakespeare, Dostoiévski e outros gênios, em suas obras desvencilhadas de tempo e contextos superficiais.
Então pra que contexto social? Sim… para mulas sem alma terem o que dizer.