sexta-feira, 11 de julho de 2014

Urbanidade e Impossibilidade de Convivência: A Felicidade como Utopia de Crianças




Resumo: O propósito deste trabalho é desmistificar a sublimação dos sentimentos e a ilusão de felicidade arquitetada nas civilizações através das considerações de Sigmund Freud. Para o psicanalista, a civilização vive em um sistema de falsas crenças que, além de sublimar erroneamente a natureza dos indivíduos, também os destituía de sua fruição orgânica. Nesse sentido, o corpus textual estrutura-se em uma seção introdutória, que apresenta o objetivo do estudo; já na segunda seção há a discussão sobre a sublimação dos sentimentos e, na terceira, a incapacidade do ser humano viver em sociedade. Portanto, as civilizações atribuem sua esperança de felicidade a uma utopia de crianças, irrealizável por contrapor-se à realidade de sua constituição humana.

Palavras-chave: Civilização. Sublimação dos sentimentos. Sigmund Freud.

Considerações iniciais
           
 Do homem primitivo às cidades modernas, quais foram as cruciais mudanças? De que maneira pôde ele subjugar a agressividade que lhe fora vital ao ânimo e, por conseguinte, à sua prevalência natural? Atualmente, depois de havermos suplantado o instinto de sobrevivência, o que desejam homens e mulheres para suas vidas? Qual é a máxima significância que procuram para, então, sorrirem ao espelho? Decerto, se perguntássemos às grandes massas o que buscam para suas vidas, ouviríamos, em uníssono, a palavra “felicidade”, ou dela qualquer termo derivado.
Em suma, suas bocas emitiriam a ideia de bem-estar, de paz e repouso. De um conceito próprio e, ao mesmo tempo, impessoal de felicidade: é o que todos diriam, a seu modo. Por essa razão, foi com o propósito de desmistificar a santidade humana, de expurgar das civilizações a ilusão de felicidade, expondo em simultâneo a impossibilidade de sermos o que afirmamos, de convivermos caso não hajam paliativos à nossa consciência, e, sobremodo, a feiúra que nos é inerente e necessária, que Sigmund Freud (1856-1939) escreveu em 1930 o livro O Mal-Estar na Civilização.
O livro que norteia este estudo trata-se, em parte, da continuação do livro O Futuro de Uma Ilusão, de 1927, em que o Pai da Psicanálise ataca duramente as religiões, afirmando-as como um sistema de falsas crenças que, além de sublimar erroneamente a natureza dos indivíduos, também os destituía de sua fruição orgânica. Também, em parte, é admitida pelo próprio Freud a preocupação em não estar sendo demasiado óbvio, por pensar ele que essa desmistificação já fosse conhecida pelos estudiosos. Na verdade, esse questionamento reflete a vontade do autor de que, a altura dos fatos, suas teorias quanto ao “sentimento oceânico” (que largamente é citado no começo do livro e designa um sentimento etéreo, imenso em comparação aos demais e indescritível por nós – que, segundo um amigo de Freud, seria o único vínculo dele com a crença de um deus acima de nós), à artificialidade e fragilidade da civilização humana como um sistema superior à natureza, já estivessem estabelecidas na consciência popular.   

2 Sentimento Oceânico:
           
            Conforme já foi citado, o sentimento oceânico configura, talvez, a emoção mais grandiosa e supérflua do ser humano, pois é a sublimação de mistério insolúvel, de algo que lhes falta e é maior do que as propensões orgânicas do indivíduo. É um sentimento do que é sublime e obscuro, não visível ou compreensível para nós, que preenche lacunas existenciais enquanto forja outras, pois o ser humano não depende da resolução de seus problemas, mas, sim, da esperança de resolvê-los, visto que ao findarmos preocupações, vermo-nos-emos na obrigação de arranjar outras que o sangue efervesça.
            Além disso, conforme o autor, o “sentimento oceânico” é a tradução de nossa carência paterna, o que resultou na invenção de deuses, crenças e superstições que supririam essa falta. É a sublimação em seu grau máximo de uma carência que nos faz ter a impressão que um oceano deságua em nós. A certeza que elegemos como a mais absoluta provém dessa impressão internalizada… dessa carência intrínseca. Nas palavras dele:

A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, ainda está envolto em obscuridade (FREUD, 1930, p. 3).

           
Freud não renega a existência dessa imensurável impressão, ainda que ele mesmo admita não o sentir, como afirma: “não consigo descobrir em mim esse sentimento ‘oceânico’. Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos” (FREUD, 1930, p. 1). No entanto, ele desmistifica a propriedade divinal dessas “aparências oceânicas”. Então, não tendo mais um aporte etéreo, o ser humano busca afirmar sua divindade terrestre num conjunto de regras irrealizável, em convenções de boas aparências que lhe são incompatíveis à natureza. E atribuem sua esperança de felicidade a uma utopia de crianças, irrealizável por contrapor-se à realidade de sua constituição humana. É o que a continuidade deste estudo abordará.

3 A Civilidade como Artifício; a Naturalidade Selvagem do Homem

            Na concepção de Freud, a agressividade primitiva, que deu ânimo ao homem para sobreviver às forças da natureza, ao assédio de outros animais, não foi domesticada e, no máximo das hipóteses, encontra-se latente, agrilhoada às convenções sociais. Ou seja, coexiste com a civilização que criamos a agressividade que nos trouxe até aqui. Aliás, segundo Freud, é essa vontade primitiva o motor de nosso ânimo vital. É por causa dessa ânsia irrefreável, que não reconhece linguagens nem o mundo externo, que nos movimentamos e nos sentimos vivos. Trata-se de uma força interna que somente exige e, quando contrariada, não podendo saciar sua vontade, gera desânimo no indivíduo. Um mal-estar que lhe é indissociável no âmbito social.
            Desse modo, havendo diversas imposições na sociedade, o indivíduo sente-se esmagado por essa força interna e pelas responsabilidades externas. Ademais, Freud aponta a impossibilidade de sermos felizes (e não somente satisfeitos em determinadas ocasiões) a três fatores prejudiciais, o que nos torna mais suscetíveis a perder nossas réstias de felicidade do que mantê-las. Nas palavras de Freud (1930, p. 4): 

[...] nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrime A derivação das necessidades religiosas nto nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.

            Em conclusão às palavras dele, há o mal da incompatibilidade, de diferença entre os indivíduos e de uma insuportabilidade velada de todos para com todos. O filho coibido pelo pai, por exemplo, assume uma ambivalência de amor e ódio para com o progenitor. Deseja ver-se livre da opressão, em razão da força interna que o predispõe a rebelar-se contra quem for, ao mesmo tempo que se vê coagido a obedecer por temer a autoridade dele e, numa idade mais avançada, por temer a própria autoridade.

4 Reflexões finais
           
            Torna-se nítido, depois desse estudo, que a neutralidade do ânimo vital é causadora de um desconforto, pois não representa o que corpo quer e necessita. Então, assume-se a projeção embrutecedora de um “sentimento oceânico” para suprir essa monotonia do sangue, essa falta natural, ao passo que o indivíduo começa a visualizar essa vontade adulterada como algo divinal e precioso, de que ele está em constante busca, reproduzindo o sistema da vida (sobrevivência e caça contínua) à mercê de um sistema falho de crenças e boas aparências… um conforto infantil. 

Referências

SIGMUND, Freud. O mal estar da civilização: volume XXI. [S.l: s.n], 1930. 21 p.

           

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