domingo, 27 de julho de 2014

Escritores Masturbadores: a Era da Literatura e Educação sem Prazer!


Olhai melhor! Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é vivo, o que ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que não existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma ideia. Dostoievski. Memórias do Subsolo. (Trad. Boris Schnaiderman)

            Atualmente, o mundo lê mais. O mundo escreve mais. E que prejuízo para nossas mentes! Porque ler demais pode significar não ler nada, em absoluto, considerando que uma leitura apurada, uma leitura verdadeira é mais orgânica do que intelectual. Porque o ato de ler deve referir-se à forma com que movimentamos o que lemos e não à quantidade de textos que decoramos. Às horas que, tediosamente, ficamos a passar os olhos sobre palavras que serão inexpressivas senão as fizermos caminhar.
Obviamente, não me refiro à necessidade de concretizar o que lemos nos textos porque, além de muitas filosofias serem inaplicáveis para a sociedade politicamente correta de hoje, realizar o quer que seja não é uma obrigação. Mas, se nos afirmamos leitores, se nos gabamos de ler muito, temos de pensar condizentemente às leituras que fazemos.
É claro que há diferença entre ler bons e maus livros, por mais que o sistema politicamente correto de ensino diga o oposto, sendo que para qualquer educador toda obra tem sua intenção e sua fruição, salientando que mesmo as obras comerciais e supérfluas têm a utilidade de conduzir os neoleitores aos clássicos. Pois bem, digo que tais obras não tem utilidade nenhuma a não ser fazer com que esses leitores que odeiam ler achem um motivo para arrogar-se desse hábito, tal como se dá, na maioria das vezes, com os leitores mais experimentados, os que leem com uma fome de fama os clássicos, sobretudo, os acadêmicos, que se arrogam de conhecerem cada frase marcante, cada passo de um autor em suas obras, e pensam como animais erroneamente domesticados. Eles, assim como os neoleitores, perderam a chance de ver telenovelas.
Pois ler, em sua mais alta significância, não é decorar (significando muitas vezes esquecer), não é dissecar obras e autores, não é saber sobre épocas, escolas e estilos literários, sobre representações sociais e toda essa baboseira que não condiz nem com a literatura nem com a sociedade, mas sim internalizar uma nova consciência. E é justamente o que não ocorre na grande maioria dos casos, pois os tais grandiosos leitores, supremos apreciadores de arte, continuam a pensar como se nunca tivessem lido nada. E escrevem, pedante e rebuscadamente, com ares de novidade o que é dito e qualquer cartilha pedagógica, pois esses pseudo-leitores, pseudo-estudiosos, querem ter reconhecimento como “salvadores” do mundo, não como pensadores do que é novo para uma sociedade tão enfraquecida intelectualmente. Organicamente.
Então, preferível seria que lessem apenas poucas obras e as digerissem bem, não as decorando necessariamente, mas incorporando a consciência do livro e a complementando, dia após dia. Lemos um livro grandioso e, como ocorre com qualquer leitor experiente a confrontar qualquer escritor poderosíssimo, deixamos escapar toneladas de conteúdo, as quais passaremos o resto da vida a resgatar ao relermos a obra. Pois nunca lemos um livro bom, mas iniciamos contato com ele, com uma vida orgânica que se desenvolve com o tempo (assim como nos desenvolvemos para melhor entendê-la), mais do que fazemos com uma pessoa, pois estamos lidando com a criatividade e a potência intelectual de um gênio, de alguém que fez o mesmo tipo de leitura a que me refiro e a converteu em literatura, através da máxima capacidade de seu talento.
Desse modo, ler é perder toneladas (o que é muito válido: perder para ganhar, esquecer para reconstruir), mas também é corporificar o que conseguimos colher dos livros como se corporificássemos a nós mesmos (de um jeito ou de outro, é isso o que fazemos ao ler como se deve) e, principalmente, continuar a escrevê-los enquanto nos movimentamos. Transfigurá-los. O mesmo se dá com a arte de escrever e os escritores masturbadores. Ou nas palavras de Schoupenhauer, gastadores de tinta. Um escritor, para justificar sua utilidade nos dias de hoje, visto que tanto já foi publicado e tantas obras essenciais, tem de prover um material de ideias que sejam o mais original possível, cujas reflexões teçam caminhos inesgotáveis ou, no mínimo das hipóteses, extemporâneas ou contrárias às reflexões que estão em voga em seu tempo (não desconsiderando as que o antecedem), pois a função do escritor é continuar ou opor-se ao que está sendo dito, senão por qual razão ele deveria escrever? Para corroborar com o que já existe? Então, neste caso, o trabalho dele limitar-se-ia, se houvesse justiça da parte do escritor para com seus leitores, a apenas indicar obras definitivas sobre aquele assunto. Ou compor uma obra definitiva sobre o assunto se quer realmente escrever para ser lido por grandes leitores. Para gerar mero entretenimento comercial? Então, qual a diferença das obras desses escritores para os programas televisivos, essas hediondas criações da mais infame estultice? São melhores que as teorias altruístas da modernidade, que envenenam o cérebro sem nada acrescentar? Qual é a sua essencialidade em uma geração de acomodados, que se nutrem somente de baboseiras em seu conforto orgânico e intelectual? 
Uma obra essencial deve ser aquela que nos extermina. Em outras palavras, que destroça a consciência de seus leitores para que neles uma nova interioridade possa nascer. E somente obras essenciais deveriam existir, pois as demais não passam de fiapos de raciocínio perto delas. Contudo, na era da igualdade, do nojentamente correto, é natural impelir a todos para a escrita. E querem que todos sejam lidos! O mel[1] estragado que regurgitam deve ser consumido por todos!
“Somente o impublicável torna-se público[2]”. Críticos literários têm-se debruçado durante décadas sobre as obras de grandes escritores, e em seus melhores comentários, suas melhores análises, não fizeram mais do que compor pés de página. Obviamente, nos melhores casos são pés de página interessantíssimos, mas os críticos não chegam nem perto do vigor original da obra a que se propuseram estudar. Nos casos piores ou medíocres, ler é só desperdício de tempo. O máximo que uma obra literária produz, tratando-se de herança artística e cognitiva, é outra obra literária de qualidade equivalente ou superior; o máximo que um autor grandioso produz são outros autores grandiosos, não estudiosos de coisa nenhuma. Um mundo que produz outros que lhe são distintos, em todos os quais vida existe.   
No entanto, cada vez mais, publicam-se estudos horrorosos sobre literatura, os quais, de modo fascista, são repassados aos alunos para que estes os leiam como um livro sagrado. E são textos horríveis e maçantes! Pois como querem delinear o que fora criado para não ter forma? Interpretar, petrificar o que é plurissignificativo? Empalhar o que nasceu para ser tão vivo quanto uma baleia? Então geram-se textos sem a menor fruição artística, embora falem também sobre arte; sem inventos de linguagem, embora também queiram ensinar sobre como ser criativos. Utopias fantasiosas que mostram o que não existe nem na literatura nem na realidade do mundo! Um idioma próprio e engessado, alheio a tudo que é vivo e fluído: eis o saber acadêmico. E todos têm de aprendê-lo para ser alguém na vida, pagando caro por isso (referindo-me a tempo, a dinheiro, a ânimo, etc.), tornando-se um ser humano funcional. Homens e mulheres mortos.
Pois, como também não surgiu nenhuma verdadeira na política moderna (apenas simulacros), nenhuma solução social foi criada na literatura (e deveria?), apesar de lhe terem essa função restritiva. Pelo contrário, quanto mais “soluções” aparecem, agrava-se qualquer situação (quase o ditado popular “quanto mais rezo…”). Ao que me parece, é quando se desenvolve uma solução que se deve temer o pior. Igualmente, não tendo-se o que dizer na obrigatoriedade de dizer alguma coisa, muitos teóricos optam por expor, em termos academicamente rebuscados, o que é ridiculamente óbvio. Linguistas sabem o que estou dizendo ou deveriam saber. Aliás, muitos profissionais das áreas humanas deveriam saber disso e, se houvesse justiça ou decência no mundo (e não apenas guerra lodosa e sobrevivência dos mais fascistas e corruptíveis), rasgar seus diplomas. Muitos doutores não sabem ler, pensando e comportando-se como uma infantilidade que, de tão estúpida e grosseira, em muitos jovens não se encontra. Vivem em sua disputa imbecil, adulam quem lhes convém, e esquivam-se de qualquer argumento que os possa desbancar: eis no que consiste sua pétrea supremacia.

MOTH - Pois então, senhor, estudar é tão difícil assim? Aí está como estudamos o três em menos tempo do que o necessário para piscardes três vezes. O cavalo que dança vos dirá como é fácil juntar "anos" à palavra "três" e estudar três anos em duas palavras.
ARMADO - Bonita imagem!
MOTH (à parte) - Que a zero vos reduz. 
(Shakespeare. Trabalhos de Amor Perdidos. Trad. de Carlos Alberto Nunes.)

Já disse em outros textos que os argumentos devem ser avaliados pelo que significam e não pela importância (social, meramente simbólica) de quem os disse, não dependendo de títulos um argumento para ser levado em consideração ou repudiado. No entanto, é um pensamento um tanto utópico de minha parte, pois o que acontece é bem o oposto disso: válidos são os argumentos que têm um diploma e anulados os que não têm. Então, há tantos “pensadores” diplomados que cagam pela boca e uma nação de alunos que devem comer com gosto toda essa bosta que chamam de estudos literários. Penso que, em boa parte dos casos, a única diferença entre aluno e professor é que este já enfrentou aspérrimas provações (que, como já expliquei, não o levaram a nada) e, agora, deve impô-las a seus alunos para que sofram o mesmo, seja por rancor, por imposição do sistema em que são “generais” ou por mero prazer de superioridade. É uma batata quente que se passa pros outros, não conhecimento. São como alunos que sofreram trote quando eram calouros na faculdade e, agora como veteranos, não desperdiçam a chance de fazer a chance de fazer o mesmo.    
São como os escritores masturbadores, que escrevem apenas para que outros vejam sua masturbação, mesmo não havendo prazer algum nisso. Pois a escrita como um processo masturbatório não traz prazer senão para quem a realiza (em muitos casos, nem para seu autor tal escrita é prazerosa). Cada vez há mais livros de literatura sem fluidez e fruição, nascidos com o único propósito de alçar quem os fez; cada vez mais há estudiosos a escrever asneiras que não deveriam existir. O mundo lê mais. O mundo escreve mais. E nunca as palavras que encerram o livro Memórias do Subsolo, de Dostoievski, nunca tiveram tanta ênfase.
            Para concluir, algumas explicações: não me refiro às áreas exatas, mas às humanas, as que se propõem a nos elevar a consciência, a visão artística, a ética pessoal, blá blá blá. Não digo que não se deve escrever. Deve-se escrever muito, aliás, para se chegar a ser um grande escritor. Penso que se deve publicar o mínimo possível. Porquanto, sem dúvida, menos de 0,01 % do que foi e é publicado no mundo tem utilidade. O que é fundamental já existe e há muito já deveríamos ter parado de desperdiçar fôlego intelectual com masturbações que são inúteis e não geram prazer algum. Mas gostamos do que não gera prazer. Do que nos petrifica e destrói. Por isso, criamos tantos estudos humanos; por isso, gostamos de nos masturbar, apesar da nossa impotência como pensadores livres e seres vivos.        




[1] É justamente por saber que o mel não estraga que o pus nessa metáfora.
[2] Oscar Wilde.

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