quinta-feira, 9 de maio de 2013

O Pesadelo Acadêmico...


Eis o pesadelo acadêmico, o horror de grande parte dos estudantes e, atrevo-me a dizer, de muitos professores e profissionais que dependem de tal prática: o escrever!
Por mais incrível que pareça, é frequente e notória a dificuldade de o brasileiro familiarizar-se com o próprio idioma, que, se um por um lado é um tanto complexo, por outro é belíssimo. E beleza é o que tanto faz falta a esta realidade em que vivemos, tão cheia de métodos e tão parca de alma, sendo este um dos motivos pelos quais existe a dificuldade em escrever, como veremos a seguir. Antes, quero esclarecer que não é por causa da complexidade e dos diversos caminhos de nossa língua – nos quais nos perdemos – que a maioria das pessoas tem dificuldade ao expressar-se com palavras ditas ou escritas, mas sim por uma questão bem simples: falta-lhes maior intimidade com a própria mente. Isso mesmo: muitas pessoas não têm intimidade com seus mecanismos mentais, embora jamais parem de pensar.
“Conhece-te a ti mesmo” poderia ser, neste caso, “conheça teus pensamentos, flerte com eles”. Sim, flertar. Para exemplificar melhor, existe o termo flâneur, que provém do francês, e sendo uma derivação do verbo flâner, o qual significa “para passear”, flâneur significa “vadio”, “vagabundo”. E é justamente disso que precisamos – de uma boa vadiagem.

           
“Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade… observando uma lâmina de grama do verão.” Walt Whitman, Canção de Mim Mesmo.


“Mas como tornar-se um vadio pode fazer com que melhoremos na escrita, se nos foi ensinado desde sempre que o esforço é a melhor maneira de se atingir um objetivo? Não nos estagnaríamos com essa atitude e, portanto, além de deixarmos de adquirir novos conhecimentos, ficaríamos mentalmente sedentários, desacostumados à aprendizagem?” Obviamente, perguntas desse gênero devem ter surgido quando afirmei que vadiar é um meio eficaz de aprender e aperfeiçoar a escrita. Mas o caso é que me refiro a outro tipo de vadiagem, a qual possibilitou (e instigou) a Whitman escrever Folhas de Relva (livro de poemas em que mais se encontra vida do que palavras). O mesmo ocorreu com outros escritores grandiosos, que somente puderam compor suas obras com tal nível intelectual e criativo porque, simplesmente, eram uns baita de uns vadios. Aliás, todo escritor que se fez merecedor de tal alcunha era um vadio, mas não na acepção vulgar e trivial da palavra. Não desocupados ou inativos, bem pelo contrário.
 Voltando ao termo flâneur, o poeta Charles Baulaire lhe atribuiu o significado de “andar pela cidade a fim de experimentá-la[1]”. E eis a analogia a respeito do que proponho para que se escreva com mais criatividade e qualidade: flanar (versão para português do verbo flâner) em seus próprios pensamentos a fim de experimentar-se, de aprofundar e estender capacidades, como se estivéssemos a caminhar num jardim mutável, cujas flores, árvores, céus e palácios estão lá e assumem formas e cores por nosso arbítrio.
Quem de nós não tem sonhos? Um senso de beleza que lhe apraz? Uma necessidade de criar menor ou maior em proporção à de assimilar? O crítico norte-americano Harold Bloom afirma que todo bom pensamento depende da memória, e que esta, por sua vez, é dependente da leitura quanto à abrangência e intensidade. De preferência, de livros tidos como clássicos, os quais apresentam a refinada essência de um pensamento que, através de si próprio, pôde aperfeiçoar e recriar-se. Flanar na própria existência. E eis o ponto: pensar bem para escrever bem. Não quero destituir do ato de ler sua importância, mas o caso é que, se não pensarmos antes, durante e, sobretudo, depois de cada leitura, não surtirá efeito nosso esforço; também, se não tivermos exercitado a mente, experimentado-a, dificilmente ela poderá aproximar-se da significância e do prazer de naufragar num bom livro. O mesmo se dá com o ato de escrever, que não é o reflexo de nossos pensamentos, por certo, mas sim o reflexo da importância que damos a eles; pois, se não colocamos no papel o que pensamos por certa inibição ou falta de intimidade, por outro lado deixamos de fazê-lo por não havermos demonstrado vontade. Isso é o mesmo que, tendo nós pernas e braços saudáveis, preferíssemos ficar deitados a vida inteira.
Mas, obviamente, não é uma metáfora perfeita, pois o mover arbitrário do corpo nos é acessível desde as tenras idades – o que não ocorre com o pensamento. Ou, melhor, com a arbitrariedade do pensamento, da criatividade, visto que a mente há de criar e mover-se, com ou sem o nosso comando. Nosso intuito em unir razão e imaginação. Há uma barreira disforme entre o ser e o pensar, ainda que ambos habitem a mesma “casca”. Diminuir a proximidade entre o eu e o pensar é a modo natural de desenvolver a escrita.
E a melhor maneira de fazer isso é pensar fora da esfera das próprias convenções, valendo-se da memória, da recordação, e dos próprios voos, sejam eles desengonçados ou majestosos. Pensar sobre o mundo, sobre a rua em que vivemos, o tempo e o vento, o pátio que já decoramos, sobre política, sobre arte, sobre todas as certezas que temos, as dúvidas que nos escapam, abanando no horizonte, após terem deixado migalhas de pão pelo caminho. Tudo é tema para reflexão e um assunto para se escrever. Logo, formamos uma galeria de opiniões e tanto podemos como devemos transpô-las para o papel. E, então, o idioma que parecia tão complexo e desnecessário, passar a afigurar-se em outro aspecto, pois passamos a valorizar também a maneira de nos expressar.
Passamos a procurar novas formas de expressão, de sintaxe, de semântica, sinônimos, figuras de linguagem e palavras. Palavras cuja existência e uso desconhecíamos ou ignorávamos. Acentuar uma palavra será como compor uma música, e não mera obrigação; e como artistas haveremos de sentir ao adaptar a torrente de ideias, nascidas de voos cada vez mais altos, à linguagem dos livros. Perante nós se descortinarão belezas até então desprezadas. O idioma, outrora tão temível e impenetrável, ressurge como um aliado. E, além de tudo, de um modo ou de outro, será ampliada a aprendizagem em relação às demais áreas, visto que o processo – e não o conteúdo, nesse caso – influirá diretamente. Teremos maior bagagem de mundo – e de introspecção –, mais conhecimentos e autoconhecimentos; sobretudo, teremos diversas fórmulas de como abarcar novas estruturas de ideias e conceitos, sendo este o melhor efeito colateral da arte de criar, de flanar no mundo, em nós mesmos. 

         

Nenhum comentário:

Postar um comentário