sábado, 25 de maio de 2013

Antropologia Cultural: um Estudo sobre Origens, Diferenças e Igualdades

"A natureza dos homens é sempre a mesma; seus hábitos são o que os diferenciam." Confúcio 

Um indivíduo é um universo; o microcosmo é um espelho do macrocosmo em que está inserido, pois este impõe condições e influências àquele, ainda que indiretamente e sem reconhecimento de ambas as partes. O contrário também ocorre, havendo indivíduos que não somente influenciam culturas, como igualmente as criam; mas essa repercussão é gerada de modo mais lento, porquanto é mais fácil o indivíduo ser assimilado pelas massas, na maioria das vezes, do que este converter a opinião de todos à força de sua opinião, criações e conceitos. Ainda que, à maneira de planetoides que se alinhamem órbita do astro que mais lhes chamou atenção, as pessoas se deixem absorver por tipo ou tipos de cultura, percebe-se similaridades em ambas as partes, ainda que não se igualem em proporções absolutas; e a inconsciente resistência de cada pessoa em manter sua individualidade, embora haja o intuito de incorporar-se aos grupos e gêneros culturais, como será visto no decorrer deste estudo.
Tal como a maior, a menor partícula cria e estabelece convenções a fim de prover, a si mesmo, meios de conduta, de alívio e sobrevivência. Pois, cada ser humano tem uma cultura própria, ainda que esta seja um apanhado de diversas outras culturas, o que acontece em maior escala também, visto que costumes, crenças e tradições surgiram a partir de outros costumes, crenças, etc. Sendo, então, o indivíduo um universo movendo-se entre universos, assimilando e criando, já é perceptível que são incontáveis as culturas estabelecidas pela humanidade, e não há estudos, por mais extensos e atenciosos que sejam, que possam abarcar as especificidades de tantas ramificações. Porém, neles são encontráveis traços em comum relacionados à origem, à fundamentação de estilos e hábitos, à comunicação entre elas (explícita ou não). E esses traços possibilitam um estudo filosófico e científico (metódico, talvez) da cultura como um todo, mas não de todas as culturas em si. 
Para termos uma melhor noção de como o mundo está variegado de culturas, basta olharmos em voltacom maior atenção. Não há local habitado sem resquícios de cultura e variações culturais. Se olhássemos a rua em que vivemos a fim de analisar suas peculiaridades e, logo depois, enquanto a impressão ainda estiver nítida, fizéssemos o mesmo com outras ruas, decerto encontraríamos diferenças entre elas. Diferenças de costume, de cultura, entre famílias ou grupos de famílias. Mais perceptíveis a “olho nu” são as nuances entre bairros, cidades, Estados, países, etc. Em empresas, geralmente, também é notória a diversidade entre suas políticas, como há diferenças em outras classes de grupos. E, menos evidentes, estão suas igualdades, ainda que estas se figurem em aspectos diferentes, como veremos mais a seguir.
A palavra “cultura” provém do latim “colere”, que primariamente significa cultivar, e tem por variações habitar, proteger, honrar com veneração. Mas, em seu sentido mais amplo, abarca toda a reminiscência das criações e hábitos humanos e os estabelece como uma espécie de instinto que, de certo modo, se adapta aos instintos originais, com os quais nascemos. O fato de usarmos roupas, morarmos em casas, nos alimentarmos com pratos e talheres, de nos comunicarmos em uma linguagem que edificamos, provêm de uma formação cultural. Também, a ciência de sabermos não somente cultivar plantações, a fim de obtermos o alimento desejado, mas também toda sorte de conhecimentos e tradições. Em suma,a cultura é tudo que os homens criaram e a que se condicionaram para estabelecer melhor coexistência com os demais seres da terra e consigo mesmos. Para viverem melhor. Engloba costumes, leis, artes, crenças e hábitos. Tudo o que foi criado e estabeleceu-se no coletivo.
A noção global de cultura é efetiva em razão de o ser humano não precisar reinventar conhecimentos para a melhoria de sua subsistência (lembrando que, neste caso, o termo “reinventar” refere-se à prática de trazer conhecimentos à nossa linguagem, e não de os criar essencialmente). Os conceitos da agricultura são milenares, por exemplo, e sofreram remodelagens no decorrer do tempo. Portanto, supõe-se que nunca foi preciso desenvolver, a cada geração extinta, todas as noções de agricultura novamente. Tal pressuposto serve de analogia para tudo quantoé proveniente das civilizações humanas; e, quanto a isso, é de se considerar as culturas ainda praticadas (como no caso da agricultura), as que são apenas rememoradas (mitologias, etc.) e outras tantas que se perderam na história do mundo.
Enfim, é esta a definição em maior escala, pois há vários gêneros de cultura, tendo estes um valor de utilidade, de fruição ou superstição.
Os gêneros do primeiro grupo têm função evidente na sociedade como a conhecemos. Seu propósito é a preservação de hábitos, juntamente ao uso de artefatos, essenciais aos homens de costumes que nos tornamos. A exemplo disso, temos o dinheiro, que, se por um lado não passa de papel impresso, por outro representa um método de troca mais prático em comparação àquele que era utilizado na antiguidade. E, embora o saibamos como uma convenção que acarreta diversos malefícios, se decidíssemosrenunciar a esse sistema, teríamos de sofrer uma severa readaptação, como ocorreria quanto às roupas, no caso de também as havermos renegado. Estranharíamos nossa própria nudez, ainda que levássemos menos tempo para nos acostumar a ela do que levamos para inventar as roupas e estabelecê-las como parte fundamental da sociedade como a conhecemos.O mesmo se dá com tantos outros exemplos, pois as sociedades estão arraigadas a paradigmas de cultura que nos parecem naturais por sua ilusória imprescindibilidade.   
Quanto à fruição, consideramos a literatura, a música, a pintura, entre outras artes, que têm a função de entreter, de aprofundar o que denominamos “alma”, mas por satisfação, não por imposição. Assim como as culturas de utilidade, de ordem, as culturas artísticas não são necessárias à vida, à existência do homem, da natureza, etc., mas sim à estabilidade do que nos tornamos quando tocados pelas artes. Tornamo-nos dependentes delas, como o uso de dinheiro e roupas nos tornou dependentes, pelo nível de pensamento, da expansão e articulação mental que a descoberta de tais criações nos proporcionou. Do enlevo que nos causa suas repetições. Mas, apesar de vir a tornar-se relativamente indispensável – e novamente dispensável, à força do costume e abstinência –, não é essencial à formação humana a cultura artística. Largamente, é citada a frase de Nietzsche “sem a música, a vida seria um erro”, com a qual, fora do contexto em que foi originada, concordo sob o viés de que nós também criamos a importância que lhe atribuímos. Pois, se não existisse música, pintura, etc., nem saberíamos o que são essas coisas e, portanto, delas não sentiríamos falta.
Por fim, ao grupo das superstições compete a tudo o que fazemos por uma “vontade em anexo” e não ao que o corpo realmente necessita para manter-se vivo ou, em muitos casos, a uma legítima fruição da mente. Isso vai desde os gestosmaquinais, os cumprimentos – o famoso aperto de mão –, até as tradições e crenças mais fervorosas.

“… Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Plácida, quando conversava não poder ver um sapato voltado para o ar.
– Que tem isso? perguntava-lhe eu.
– Faz mal, era a sua resposta.
Isto somente, esta única resposta, que valia para ela o livro dos sete selos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação, e ela contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia mesma cousa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.” Brás Cubas, Machado de Assis.

Não querendo incorrer em discordância com opiniões, mas sim exemplificar, cogito que a personalidade não é algo que já existe ao nascermos, que não provém de uma origem congênita ou espiritual. Suponho que as nossascaracterísticas pessoais se formem em parte por uma adequação – ou tentativa de adequação – às pessoas, eventos e ambientes que nos circundam, em parte por uma predisposição orgânica para certos hábitos e humores, em correspondência à estrutura metabólica de cada um. Enfim, há a hipótese de que nossa personalidaderepresente uma zona de conforto, talvez a maior que exista, da qual não podemos nos desvencilhar sem descambar em outra zona de conforto, independentemente se formos do tímido ao bravio ou vice-versa;é um posicionamentointerno em que nos firmamos para não expor o fluxo desordenado de nossos pensamentos e vontades e, sobretudo, para que coexistamos até com nós mesmos, pois, do contrário, não haveria entendimento. Seríamos polipolares e convicções não fariam sentido. Mas, de fato,isso não interessa a este estudo a não ser pela comparação.
De mesmo modo, as culturas de superstição têm por objetivo– ainda que nelas isso não seja notado– nos situar em relação ao lugar e condições em que vivemos e, sobretudo, às nossas próprias mentes. Considerando o desconhecimento dos homens quanto às verdades absolutas – não a sua inexistência –, ou, ao menos, a incapacidade de estes comprovarem um fato absoluto, e considerando também que nos movemos – ou procuramos nos mover – através do que sabemos, é necessário tomarmos para nósrelativas verdades para podermos caminhar, viver em meio a incógnitas sob o peso de razões. O mesmo se dá com certos hábitos que assumimos, como apertar as mãos ou desejar bom dia. Necessitamosde verdades, de exemplos, pontos de referência. Por consequência,tornam-se essenciais algumas práticas. Assim, quando cumprimos um acordo social, cultural, vemo-nos como parte de algo que funciona, e nos imbuímos da certeza de estarmos seguindo as regras, queimando o carvão da locomotiva do mundo; de estarmos nos integrando à normalidade da espécie e tendo aceitação. Como na hipótese da personalidade, éuma zona de conforto tais convenções, o jeito de percebermos algum chão onde pisar; e, também, representam boa parte de nossas alegrias, já que as tradições, geralmente, comportamesperanças e memórias agradáveis, ainda que se cumpra detalhadamente o mesmo ritual todos os anos, de modo a extrair o ineditismo e a mais completa naturalidade. Por estarmos agrilhoados a convenções, acostumados a sentir, a fruir através delas – porque aos nossos olhos só é proveitoso o que é planejado –, para a maioria o interessante é o roteiro, a “simpatia para dar sorte”. Homens e mulheres enchem-se de expectativasno Réveillon; de mesma feita, crianças exultam às vésperas de seu aniversário. 
Todavia, além das restrições que certezas supersticiosas podem acarretar ao raciocínio, em muitas culturas é “natural” que elas causem deformações, mutilações e, dependendo do caso, morte a seus adeptos. Ou, melhor, que elas incitem seus adeptos a se autoflagelarem e, em situações extremas, a destruir quem não entrou na brincadeira. Há incontáveis exemplos de deformações corporais que são impostas pela cultura. Deles, cito as mulheres-girafas da Tailândia, da que, ao completar 5 anos, colocam o primeiro aro de cobre no pescoço, sendo que outros vão sendo adicionados à medida que a mulher se desenvolve, podendo ela carregar, na maturidade, um peso de 10 a 20 kg. Ao contrário do que se imagina, esse processo não encomprida o pescoço, mas são os ombros que descem. Usam argolas também nos punhos e tornozelos no intuito de afiná-los. Há várias explicações quanto à origem dessa cultura, que, entre explicações espirituais, está o fato de os homens as terem tornado feias para que não fossem estupradas ou raptadas. Contraditoriamente, para tais homens, a beleza da mulher passou a ser medida pelo tamanho do pescoço. Segundo a reportagem do site “Vírus da Arte e Cia[1]”, quando se pergunta a qualquer uma das mulheres-girafas sobre o uso dos aros, obtém-se a seguinte resposta: “Uso todos estes aros, assim como minha mãe, minha avó e minha bisavó usavam, simplesmente para ficar mais bonita”. Enfim, atualmente há quem se recuse a tornar-se “girafa” e tal decisão é bem aceita, já que os homens têm demonstrado interesse por mulheres de pescoço normal por considerá-las modernas,enquanto a injunção do uso só ocorre por parte de algumas mães que se preocupam com o futuro das filhas, sendo o pescoço comprido para elas uma forma de ganhar dinheiro e comprar comida.
Nas Mauritânia, por outro lado, há a imposição cultural do ganho estético entre as mulheres, pois, num país onde a pobreza predomina, são mais atraentes as que têm mais peso. Quanto mais obesa for, melhor. Elas tornam-se incapacitadas de até caminhar e contraem toda sorte de doenças referentes à obesidade (hipertensão, diabetes, etc.), porque só assim poderão arranjar marido. É uma prova de amor entre os habitantes de Mauritânia e um sinal de que a família da futura esposa tem dinheiro. Apesar de haver meninas que se recusam a engordar pelo medo de ficarem incapacitadas, são obrigadas pelas mães e demais mulheres.
Os exemplos são inúmeros de modificações corpóreas em razão de convenções. Nossos hábitos de utilidade também inferem em nossos organismos, mesmo que não percebamos essa mudança e desconheçamos sua origem. O corpo humano sofre e gera impulsos, como qualquer organismo vivo gera, os quais, quando refreados por algum acordo social, acarretam alguma espécie de efeito colateral, de acomodação. O corpo conhece apenas a linguagem do “sim”; e, quando não atinge o objeto de seu desejo, deságua-se de outra forma, não debela-se. Obviamente, não faço apologia a uma entrega incondicional ao instinto, mas apenas procuro demonstrar que os hábitos sociais que já nos são inerentes também causam-nos consequências quase do mesmo modo que as argolas das mulheres-girafas.
Para todas as mudanças culturais, o corpo encontra resposta; mas, obviamente, não para a morte. E muitas são as culturas que causaram mortes por causa de convenções, de superstições, como punição para “crimes” que são naturais – ainda são naturais – e, portanto, comuns em toda a natureza e seu “assimétrico equilíbrio”. Evidências são abundantes, como podemos perceber em algumas culturas orientais, em que se condena à morte o adultério, o homossexualismo, etc., por exemplo. Na antiguidade, era passível de ser morto quem não acreditasse que Poseidon movia as ondas marítimas. E é de se espantar que, na atualidade, ainda há práticas similares. É como se há 3 mil anos tivesse sido estipulado que, ao se encontrarem, amigos dariam as mãos para simbolizar sua amizade… e 3 mil anos depois, guerras e genocídios estariam ocorrendo porque alguém não concedeu um aperto de mão quando deveria. Logicamente, não há diferença em iniciar uma guerra por causa de um aperto de mão ou dos ditames de Poseidon. E os motivos pelos quais os homens destroem uns aos outros ainda são mais ridículos quando há o conceito “Grêmio e Inter”. O Etnocentrismo.

Por acaso, sabem apontar a diferença do vermelho para o azul? Pois bem, eu não. Também não sei a diferença entre países, cidades e estádios de futebol. Se eu houvesse nascido na Inglaterra, seria um inglês convicto; na Bolívia, um boliviano convicto, etc., etc…”

Etnocentrismo, segundo Everaldo Rocha, “é uma visão do mundo em que o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nosso modelos, nossas definições do que é existência” (ROCHA, p.7, 1994). Em outra definição do autor, “o grupo do ‘eu’ faz, então, da sua visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor,a natural, a superior, a certa. O grupo do ‘outro’ fica, nessa lógica, como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível.” (idem, p. 9). Pensar que nossos hábitos, preferências, jeito de se vestir, nossas fruições e superstições, são superiores, únicos, é pensar como uma criança que, até certa idade, vê a si mesma como o centro do universo. O mundo e todas as coisas existem porque esta criança existe, mesmo que esta não tenha apresentado motivos legítimos (aqueles que não podemos provar com a racionalidade) para ser o “escolhido” e existam tantas outras criança semelhantes. Tudo gira ao redor dessa criança e todas as coisas boas e títulos de grandeza já lhe pertencem, assim como todos os olhares de adoração; eis a ilusão máxima de nossas infâncias. E comparo um coletivo inteiro – todos eles, aliás – com uma criança, um indivíduo, pois, como foi dito no começo deste estudo, não há diferenças ou igualdades entre eles: ambos se compõem por características, as quais têm as mesmas finalidades. Porém, sendo os grupos uma junção de opiniões provindas de outras opiniões, e outras opiniões… e outras, e outras; e, sendo que nossos pensamentos sofrem uma redução a serem guardados, transcritos, ao serem transpostos para o coletivo passam por outra redução. É como brincar de telefone sem fim com centenas de surdos: o que é dito no começo passa por severa redução até que o último se pronuncie. E, mesmo que se acrescente opiniões ao caldo principal, ainda assim tratam-se de outras reduções. Por isso, há a inconsciente resistência de nos integrarmos a grupos, pois, de fato, nunca pertenceremos a um conjunto, a uma cultura, como queremos ou imaginamos pertencer.  
E, quanto a ser absurda a ideia de comparar um gigante (o coletivo) com uma de suas células (o indivíduo) e dizer que esta é mais autêntica do que aquele, é mesmo que comparar um ser humano com uma mosca e descobrir que ambos possuem características, algumas mais fortes e internalizadas do que outras; e que se é para estabelecer comparação, é preciso saber que a mosca é biologicamente mais evoluída do que o homem. Muito mais evoluída, assim como diversos outros insetos (senão todos eles). Então, sendo as culturas separadas por características e atreladas por finalidades, tendo elas importâncias relativas – nada tem valor contanto que não lhe atribuamos valor, nem a beleza, como foi visto no caso das mulheres-girafas –, onde enfim está a superioridade entre elas? No final das contas, é tudo Grêmio e Inter.



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