quinta-feira, 18 de abril de 2013

Palavras, palavras, palavras!*

            Das linguagens por nós conhecidas – que se nos apresentam em aspectos diversos –, originadas no decorrer das transformações naturais, a que fundamentou a humanidade é, ao que suponho, a única capaz de enxergar a si mesma enquanto é desenvolvida em uma comunicação e guardar, com palpável nitidez, a relembrança de imagens e outras captações sensoriais. Compõe-se por palavras, cada qual detentora de um significado… a representação de algo que existe ou passa a existir quando são elas pronunciadas. De fato, terão significância as coisas às quais atribuirmos um sentido de valor, de existência. Pois os animais se comunicam sem o saber, sendo algo natural e dependente do momento, assim como todos os fenômenos da natureza, que ocorrem desconhecendo a si mesmos. Não afirmo que os animais não tenham memória, já que, vezes tantas, prova-se que, adequando seu instinto,eles mantêm lembranças vivas de pessoas e situações que lhes foram marcantes… mas, por uma questão de sobrevivência, o que se dá até com a mais doméstica das criaturas, excetuando o homem.
            No caso dele, esse ganho, essa construção de consciência muito lhe acresceu. A subsistência passou a afigurar-se-lhe como um ciclo confortável, ao que ele pôde ver-se enquanto caminhava e, sobretudo, assimilar o mundo de maneira que o mesmo jamais poderia fazer, tratando-se de uma linguagem codificada. Construiu a humanidade seus domínios através das palavras, suas culturas e memórias através do reconhecimento daqueles sons tão harmônicos e singulares. De pronto, ao ouvirmos uma palavra que já ouvimos e usamos algumas vezes, a reconhecemos e a incluímos no contexto da conversa, pois esse mecanismo nos foi inculcado desde sempre. Obviamente, tendo as palavras um sentido que a elas foi atrelado quando passaram a ser palavras mediante nossas percepções e intelectualidades, podem ter uma conotação própria para cada escritor e leitor. Proust (2004) descreveu no livro “Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann”, que, ao provar um bolinho chamado Madeleine com uma taça de chá, sente um sabor diferente, maravilhoso e inefável, a cuja origem ele não tinha acesso – sequer a conhecia. Depois de muito a rastrear, vasculhando “edifício imenso da lembrança”, encontra-se com o sabor que lhe “mordeu”: sua tia, de Combray, servia os mesmos bolinhos para ele em sua meninice… e, então, avolumando-se e ganhando cores e formas, vinham-lhe em tropéis as lembranças. “Tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidades e jardins, de minha taça de chá.” (PROUST, 2004, p.51). O mesmo decorre com as palavras, que contêm cargas semânticas que subjazem ao seu significado original, dependendo de quem as professa e quem as escuta. Há outras dimensões que as palavras ocultam, imagens sublimadas do passado, como a infância que de nós se afasta, bastando apenas um aceno, um beijo distante, uma expressão… e toda a herança imagética, sonora e sensorial do passado que perdemos nos retorna, como um corpóreo fantasma.
Por isso é, ironicamente, indizível a valia dos idiomas, da fluência e prazer armazenados em cada átomo de expressão linguística. Afirmou Nietzsche (apud BLOOM, 2008) “que só conseguimos encontrar palavras para o que já está morto no nosso coração” – o que não é uma afirmação absurda, em decorrência de as palavras e a realidade de nossas emoções e sensações nem sempre estarem associadas, já que elas não necessitam de um embasamento real para existirem – e vice-versa. Escritores ficcionais bem o sabem; no entanto, a poetisa americana Emily Dickinson (2004) relata em seu poema: “Uma palavra morre / quando é dita. – / Dir-se-ia. – / Pois eu digo / que ela nasce / nesse dia”. Não morrem as palavras, mas permanecem no aguardo de que as utilizemos – e da melhor maneira que acharmos, na habitualidade dos dias, em casa ou no trabalho, como seres humanos mais evoluídos, sendo este o significado que a todas perpassa –, em sua falsa inexistência (um idioma morto, ainda que não lembrado, mantém-se vivo na natureza que ele codificou, esperando que o ressuscitemos em nossa memória e convívio). Coligindo as propostas de ambas as frases, depreende-se que as palavras assumem a vida que lhes demos e existem em esferas particulares, mundos paralelos. Respiram, nos observando. Colhemo-las de sua eternidade para usá-las, revivê-las, dar nomes aos nossos mais abstratos e recônditos pensamentos… à realidade que nos circunda e assedia. Ou seria o oposto: as nossas criações, as palavras a nos resgatar da mortalidade a que nos condicionamos?



* Fala sarcástica de Hamlet em resposta a Polônio, quando este lhe pergunta o que ele está lendo. (SHAKESPEARE, 1988, p.52).

Nenhum comentário:

Postar um comentário