quinta-feira, 18 de abril de 2013

A Função Humanizadora da Violência na Literatura



Nos primeiros relatos da humanidade a que se tem acesso encontra-se marcas severas de violência, que são intrínsecas a qualquer conduta de sobrevivência em áreas selvagens. Pode-se dizer que a violência está arraigada à necessidade de vida, visto que nos diversos âmbitos da natureza, a todo instante, o subsistir de um indivíduo contrapõe-se ao de outro. O mesmo se dá com espécies inteiras, de cujo atrito gera-se o “equilíbrio” natural que diagnosticamos ao constatar, observando-a em seus nichos mais alheios ao homem, que a própria natureza dispõe de recursos para manter-se e proliferar-se, de maneira descomedida por certo, mas nunca retrogadamente. Ou seja, é através da agressividade, de uma guerra original e constante, de nascimentos desmedidos contrapondo-se a mortes desmedidas, que a natureza se estabelece, cresce e se recompõe. No entanto, com o advento da razão, pôde o homem desvencilhar-se de tal ciclo, ainda que não fisicamente, desenvolvendo-se em populações superabundantes ao que conseguiu criar seus próprios meios de conduta para a sobrevivência coletiva, aos quais ainda estava enraizada a agressão, a violência.
Tendo, por consequência, a função de retratar noções da realidade – do que é denominado realidade –, desde a sua formulação mais antiga a literatura tem calcados, em sua constituição, atos sangrentos e impropérios de todos os tipos, sejam eles reais (presenciados ou sabidos pelo autor) ou tão somente idealizados para a obra e contexto em que se encontram. No primeiro caso, há o ímpeto de relatar, através de um rearranjo artístico ou prescindindo de tal recurso, um painel da dor, de conflitos, de imobilidade e revolta; no segundo, há a tentativa de atingir os limites do absurdo, muitas vezes alargando as impressões de verossimilhança instituídas pelo ideário comum, na tenção de aprofundar a maturidade emocional do receptor, de melhor o preparar ao impacto brutal que a convivência e a necessidade de vida podem acarretar.
Assim, ao que se rompe a inocência com relação à selvageria do mundo, a mesma inocência criada por nossa civilidade (um efeito colateral de havermos nos assinalado por nossas capacidades racionais e, por conseguinte, edificado ambientes e condições que nos são extremamente favoráveis, sem termos acesso, a não ser que queiramos ou procuremos por isso, às formas de brutalidade que estão fora da zona de conforto humana, compreendida por todo o território ocupado pelos homens, inclusive por favelas e lugares com condições precárias de subsistência, onde ainda se pode encontrar um respaldo de tolerância, e não somente a “crueldade” imposta às demais formas de vida, excetuando, além de nós, os animais domésticos e em cativeiro), o indivíduo passa a ver-se, a um só tempo, como vítima e praticante da ação violenta, e sente-se opresso pela carga emocional de ambos os casos. Num primeiro momento, pomo-nos no lugar de quem está sofrendo a agressão ou barbárie; não estamos a presenciar o horror, mas a vivê-lo, pois é ao dar-nos conta de que poderíamos estar naquela situação desumana na condição gratuita de sentenciados e não verdugos, ou de que pessoas de nosso convívio e afeição, por uma trágica casualidade, também poderiam tornar-se vítimas, é que passamos a ver o outro, a entendermos que o outro há de sofrer o que ninguém deseja racional ou irracionalmente, se não fizermos caso do impacto de nossas ações mais cruéis, dos malefícios decorrentes dos instintos mais básicos em conluio à deterioração da razão humana, em carne e pele que não nos pertencem.
A diversão que há na violência dispersa-se de imediato, quando assumimos a hipótese de sermos o agressor, o contraventor, o assassino. Desse modo, exceto nos casos em que há uma predisposição patológica para o crime (tendência a qual, provavelmente, há de manifestar-se no indivíduo com ou sem a influência da explicitação de certos problemas da sociedade na literatura, visto que a realidade, de um modo ou de outro, pela constância da pobreza ou riqueza ou fatores diversos, encarregar-se-á de oprimi-lo e forçá-lo ao crime, independente do estágio social a que ele se vê condicionado), passamos a ver uma ação que nos era alheia ou distante como algo próximo, temível. Sofremos um trauma que antecede o ato e quebra-nos a inocência para os atos horrendos, em maior e menor escala, que são suscetíveis a quem desconhece, na prática, na crueza das teorias, seu efeito. Não é provável, mas suscetível a ocorrer, devido à força instintiva de sobrevivência e às circunstâncias a que se veem atreladas determinadas pessoas de distintas personalidades. A transformação humanizadora que alguns autores propõem é antecipar a ação do crime antes que ela aconteça, de modo que a sociedade mantenha-se a par dos atos violentos, do que há em seus intestinos, em nível de não banalizá-los, mas sim de deixar-lhe uma cicatriz traumática. Pois, apesar de as obras que expõem parâmetros da violência possuírem artisticamente algum desígnio de enlevo como, por exemplo, as tragédias o têm, o autor também procura exumar nossas entranhas para devolver-nas em aspectos mutados e, talvez, mais atrozes.
Expurgar do ser humano a ingenuidade que agride e mata por múltiplas consequências, à guisa da destilação de antídotos mediante o veneno, e, desse modo, criticar enfaticamente a banalidade da violência, seu usufruto impassível e descabido por parte de muitos sujeitos que passaram a vê-la como normal e salutar às suas necessidades, é a função civilizadora da literatura quanto à desordem nas urbes, apenas desempenhada por ela, pois outras mídias não apresentam um rearranjo de significâncias equivalente, tampouco podem valer-se de uma aproximação tão bem psicologicamente detalhada, tão opressora e atemorizante. A literatura mostra-nos o que somos e fazemos em nossas entranhas. E o que a razão fez-nos ignorar. 

Palavras, palavras, palavras!*

            Das linguagens por nós conhecidas – que se nos apresentam em aspectos diversos –, originadas no decorrer das transformações naturais, a que fundamentou a humanidade é, ao que suponho, a única capaz de enxergar a si mesma enquanto é desenvolvida em uma comunicação e guardar, com palpável nitidez, a relembrança de imagens e outras captações sensoriais. Compõe-se por palavras, cada qual detentora de um significado… a representação de algo que existe ou passa a existir quando são elas pronunciadas. De fato, terão significância as coisas às quais atribuirmos um sentido de valor, de existência. Pois os animais se comunicam sem o saber, sendo algo natural e dependente do momento, assim como todos os fenômenos da natureza, que ocorrem desconhecendo a si mesmos. Não afirmo que os animais não tenham memória, já que, vezes tantas, prova-se que, adequando seu instinto,eles mantêm lembranças vivas de pessoas e situações que lhes foram marcantes… mas, por uma questão de sobrevivência, o que se dá até com a mais doméstica das criaturas, excetuando o homem.
            No caso dele, esse ganho, essa construção de consciência muito lhe acresceu. A subsistência passou a afigurar-se-lhe como um ciclo confortável, ao que ele pôde ver-se enquanto caminhava e, sobretudo, assimilar o mundo de maneira que o mesmo jamais poderia fazer, tratando-se de uma linguagem codificada. Construiu a humanidade seus domínios através das palavras, suas culturas e memórias através do reconhecimento daqueles sons tão harmônicos e singulares. De pronto, ao ouvirmos uma palavra que já ouvimos e usamos algumas vezes, a reconhecemos e a incluímos no contexto da conversa, pois esse mecanismo nos foi inculcado desde sempre. Obviamente, tendo as palavras um sentido que a elas foi atrelado quando passaram a ser palavras mediante nossas percepções e intelectualidades, podem ter uma conotação própria para cada escritor e leitor. Proust (2004) descreveu no livro “Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann”, que, ao provar um bolinho chamado Madeleine com uma taça de chá, sente um sabor diferente, maravilhoso e inefável, a cuja origem ele não tinha acesso – sequer a conhecia. Depois de muito a rastrear, vasculhando “edifício imenso da lembrança”, encontra-se com o sabor que lhe “mordeu”: sua tia, de Combray, servia os mesmos bolinhos para ele em sua meninice… e, então, avolumando-se e ganhando cores e formas, vinham-lhe em tropéis as lembranças. “Tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidades e jardins, de minha taça de chá.” (PROUST, 2004, p.51). O mesmo decorre com as palavras, que contêm cargas semânticas que subjazem ao seu significado original, dependendo de quem as professa e quem as escuta. Há outras dimensões que as palavras ocultam, imagens sublimadas do passado, como a infância que de nós se afasta, bastando apenas um aceno, um beijo distante, uma expressão… e toda a herança imagética, sonora e sensorial do passado que perdemos nos retorna, como um corpóreo fantasma.
Por isso é, ironicamente, indizível a valia dos idiomas, da fluência e prazer armazenados em cada átomo de expressão linguística. Afirmou Nietzsche (apud BLOOM, 2008) “que só conseguimos encontrar palavras para o que já está morto no nosso coração” – o que não é uma afirmação absurda, em decorrência de as palavras e a realidade de nossas emoções e sensações nem sempre estarem associadas, já que elas não necessitam de um embasamento real para existirem – e vice-versa. Escritores ficcionais bem o sabem; no entanto, a poetisa americana Emily Dickinson (2004) relata em seu poema: “Uma palavra morre / quando é dita. – / Dir-se-ia. – / Pois eu digo / que ela nasce / nesse dia”. Não morrem as palavras, mas permanecem no aguardo de que as utilizemos – e da melhor maneira que acharmos, na habitualidade dos dias, em casa ou no trabalho, como seres humanos mais evoluídos, sendo este o significado que a todas perpassa –, em sua falsa inexistência (um idioma morto, ainda que não lembrado, mantém-se vivo na natureza que ele codificou, esperando que o ressuscitemos em nossa memória e convívio). Coligindo as propostas de ambas as frases, depreende-se que as palavras assumem a vida que lhes demos e existem em esferas particulares, mundos paralelos. Respiram, nos observando. Colhemo-las de sua eternidade para usá-las, revivê-las, dar nomes aos nossos mais abstratos e recônditos pensamentos… à realidade que nos circunda e assedia. Ou seria o oposto: as nossas criações, as palavras a nos resgatar da mortalidade a que nos condicionamos?



* Fala sarcástica de Hamlet em resposta a Polônio, quando este lhe pergunta o que ele está lendo. (SHAKESPEARE, 1988, p.52).