domingo, 13 de janeiro de 2013

Fragilidade humana: seria a fidelidade a maior das traições?


“Fragilidade, teu nome é mulher!”
Hamlet, Ato I, Cena II.

            Embora eu não concorde com o feminismo infantil e sem propósito da atualidade, não desejo incorrer em machismo (outra babaquice) com a citação acima, pois nela incluo ambos os sexos, sendo que as necessidades “originalmente” femininas – que se estabeleceram através de uma imposição de hábitos e não por natureza – de casar ou não ficar só também foi assumida pelos “guerreiros modernos” (aliás, cada vez mais estão mescladas as características, os “draminhas” de homens e mulheres). Não acho que isso não deva acontecer, já que tudo é cultural: não há comportamento certo ou errado, contanto que não criemos regras sociais para talhar os impulsos de quaisquer comportamentos. Mas há de se ter no mínimo, por uma questão de saber a que valores estamos sujeitos, uma visão literária dos fatos. E assim chegamos ao ponto que me fez escrever esse texto.
            Escolhi tal citação, pois ela representa a avidez de Gertrudes, rainha da Dinamarca, em casar com o irmão do falecido rei, apenas dois meses após a morte dele – e uma das maiores fraquezas humanas. Crescemos com a fábula de que quando se ama é para sempre e não se tem desejo por outros. Claro que, em nossas mentes, é pura verdade, tal como as chances de alcançarmos a paz mundial se pensarmos positivo; mas como o corpo desconhece a razão, é impossível dizer se manteremos ou não até o fim da vida nossas convicções, já que há esse atrito entre o desejo que nasce em um instante e o que pensamos ser naturalmente correto. Esse naturalmente correto, a meu ver, é que o problema, porque crescemos com a ideia de que a maior virtude é a fidelidade, assim como a honra, etc., etc. Mas esquecemos (ou nunca chegamos a descobrir) que tudo isso é um acordo que fizemos – que fizeram há séculos para nós, já que nascemos inseridos nesse maravilhoso turbilhão de regras e tolices –, e que a honra é só uma imagem, uma postura, e não representa necessariamente a vida. O personagem Falstaff, criado por Shakepeare (uma de suas maiores criações) nos mostra, com ênfase, a nulidade da honra, sendo ele, gordo, ladrão e cheio de vícios, a maciça (literalmente) representação da vida natural.
            Deixo claro que não sou contra relacionamentos monogâmicos e duradouros (cada um faz o que achar melhor, estando ciente ou não das influências culturais – e não naturais); mas, em comparação ao aforismo de Wilde de que não devemos julgar as pessoas por serem boas ou más, mas charmosas ou não charmosas, creio que, sob um viés literário (e nos livrando de um moralismo imposto de certou ou errado), talvez devêssemos pensar se o ato da traição torna mais interessante a relação… a pessoa que o pratica.
            Sei que neste ponto muitos já devem estar querendo me condenar em prol do amor, da família e do ciúme. Por isso, ressalto que estou apenas levantando a dúvida, me eximindo (tentando ao menos) de expor alguma certeza. Assim, fico a pensar se não seria mais atraente alguém que não somente se restringisse a mim e tivesse uma criatividade tão vasta que, além de recriar nossas situações, não pudesse nelas ser contida? Que nem é Hamlet, cujas capacidades intelectuais nos fazem considerá-lo “inapto” para amar e devotar seu tempo à obrigação que constituir família – como se Deus onipotente se restringisse a esse fim apenas. Nem Ofélia nem nenhuma mulher lhe faz par, como fica evidente no trecho:
          
  “Que obra prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e bem-feito em formas e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, para mim, é apenas a quintessência do pó. O homem não me satisfaz; não, nem a mulher, se sorri por causa disso.” Ato II, Cena II.

            Somente alguém cuja consciência encontra-se vegetando poderia dizer que uma pessoa de magnitude não é interessante por ser infiel ou por não desejar constituir família e seguir os mandamentos sociais. Além do mais, é possível que fiquemos, em sentido literário, mais interessantes ao trairmos, como mostrou Machado de Assis em Brás Cubas, pois, além de nos renovarmos de uma rotina que assumimos por valores culturais (na natureza, quase não existe monogamia – os casos que existem, suponho eu, têm um fundamento bem mais válido do que o nosso por serem causados pelo instinto, que é, em outras palavra, a genuína necessidade de sobrvivência. No nosso caso, prezamos a “pureza” da relação, como se o ser humano, por si só, já não fosse tão sujo e devorador quanto qualquer outro animal), aprendemos a melhor recriar nossos personagens, trazendo algo novo a quem nos circunda.  
            Os grandes personagens de Shakespeare eram, em maioria, destituídos das virtudes que não lhe convinham, pois assim podiam mutar-se e ouvir-se num intuito de construir sua interioridade (seja ela boa ou má – literariamente, isso não interessa). Não afirmo, evidentemente, que devamos ser maus para sermos interessantes, mas sim que possamos trazer a nossas decisões elementos além das virtudes… pintar-nos a nosso bel-prazer. O mesmo Oscar Wilde que disse que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” e “o mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror”, também disse, em O Retrato do Dorian Gray, quando a seguinte frase é remetida a Lorde Henry: “Tão falso e adorável! Visite-nos sempre!”. Creio que não precisarei descrever esse personagem fantástico, que é uma redução de Falstaff, quem nos ensina que a honra é balela e a vida é prazer para os “eleitos”, assim como Dom Quixote nos prova que “verdade” é uma palavra vulgar, recriando o mundo conforme nele se desloca (eis o Cavaleiro Andante).
            Mas há o amor e há o ciúme… a meu ver, na ausência do segundo, não teríamos problemas com o primeiro – bem pelo contrário – se caso não houvesse o segundo, o qual se deriva da monogamia, do direito e obrigação de termos uma só pessoa conosco, o que nos inspira um direito de posse e fraquezas psicológicas (creio que toda a depressão moderna se embasa nisso). Se não houvesse o “juntos e felizes para sempre”, creio que não existiria a orientação de que temos direito sobre alguém e, consequentemente, não haveria ciúme. Mas, é claro, que estaríamos sujeitos a outros vícios culturais e superstições (a razão sempre urdirá tais besteiras…). Enfim, sendo o corpo mais filósofo que a mente – e não há convicção que o refreie sem fazê-lo adoecer, de certo modo – já observei casos em que a pessoa incitou o cônjuge à traição, embora ela abominasse a ideia (é o corpo falando… e a consciência baixando as orelhas). Era sutil ao fazê-lo, sem prescindir de sua “rigidez de caráter”, criando situações que o tentariam ao adultério – como propor visitas à ex dele, por quem ele anda é apaixonado, para convertê-la à sua religião. Em minha análise, não imagino que ela queira inconscientemente ser traída tão somente pelo um desejo de vantagem – de tê-lo em suas mãos –, mas, também, pelo fato de que alguém fiel, sempre carinhoso, não era o que requeria seu corpo. Assim, penso que se explica esse comportamento “anormal”.
            Me lembro do ótimo filme “Beleza Americana” (“America Beauty”, de 1999), em que o protagonista Lester Burnham (Kevin Spacey), que vive um casamento de fachada, onde não há mais o menor entendimento com a mulher Carolyn (Annete Bening), e há tempos não fazem sexo. Ao ver a amiga de escola de sua filha, a líder de torcida Angela Haies (Mena Suvari), por ela se apaixona de súbito, tornando-se patético num primeiro momento (o monstro que Hamlet relata à Ofélia quando este a desdenha). Quando ele escuta por de trás da porta a opinião de Angela de que deveria malhar para mais ficar mais sexy, acata o desejo da princesa de seus sonhos e, extrapolando, dá uma guinada em todos os sentidos de sua vida estúpida, demitindo-se, por exemplo, de seu emprego e arrumando outro numa lanchonete (fazer coisas sem motivo, como se fosse diversão). Quando descobre a traição da mulher com o seu concorrente – que a deixou toda molhada quando expôs seu pensamento de que a aparência do sucesso leva ao sucesso –, age quase que apaticamente, sem se importar. No ápice da história, quando enfim ele tem em suas mãos a sua musa inspiradora para gozá-la, Angela revela ser virgem e a cenas subsequentes, quando Lester prefere abdicar de sua vontade e tratá-la como uma filha, mostram a complacência de um homem que percebeu que sua mudança foi causada por uma mentirinha. Uma sublimação negativa dos fatos, segundo a minha interpretação, a que nos vemos atrelados muitas vezes. Não raro, vivemos por mentirinhas sem cabimento… nos tornamos alguma coisa em razão delas.
            Mas, qual será a verdadeira mentira? O amor duradouro, o sexo despretensioso? Quem sabe, tornarmo-nos prisioneiros de nossas convicções e idolatrias constitua a maior das traições... 

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