domingo, 13 de janeiro de 2013

DA LITETATURA À LITERATURA MARGINAL: UM ESTUDO SOBRE CONCEITOS ARTÍSTICOS E LITERÁRIOS (publicado no II SIMPÓSIO AFROCULTURA, LITERATURA E EDUCAÇÃO: MINORIAS. MARGENS, MOBILIDADES)

Resumo: Este estudo tem por objetivo analisar os conceitos da literatura fora dos padrões sociais– sendo o valor e a fruição artística os únicos critérios em relação às nossas percepções –, antes de os confrontar com o estilo de escritores às margens do reconhecimento acadêmico, para que possamos julgar se os escritos marginais têm ou não significância além da linguagem e dos dramas da periferia. Para abarcar tais conceitos, além de este estudo valer-se da experiência do autor como escritor anônimo, baseia-se na vivência criativa de autores como William Shakespeare e Walt Whitman, e nas considerações do crítico norte-americano Harold Bloom. Mediante tais reflexões, é possível incitar o leitor a aproximar-se da real essência das criações artísticas – incluindo o segmento de minorias, que será comparado por meio de parâmetros individuais, a deixar de lado seus aspectos coletivos – e estabelecer um apuramento mais profundo do que é literatura.


Esventrando conceitos: das percepções à literatura

Analisando as vertentes artísticas segundo suas percepções, as artes visuais possuem arrebatamento de maior instantaneidade do que as auditivas, por serem os olhos os imediatos captadores do mundo externo ao individual. As artes cênicas, por sua vez, abarcam os sentidos da visão e audição, abrangendo um impacto mais dirigível a mentes que não tiveram contato com manifestações similares, já que a ideia que contextua a beleza de tal arte é absorvida e canalizada de duas diferentes formas, facilitando assim tanto o entendimento dos assuntos nela expostos ou ocultos quanto o afloramento das emoções.
Entretanto, a arte de ler não é fecunda aos olhos, tampouco aos ouvidos ou a qualquer outro captador; seu impulso produtivo se manifesta apenas na mente. Por conseguinte, sua percepção requer demasiado tempo e esforço em comparação às demais. Podemos enxergar com clareza cada página, identificar cada letra e sua respectiva simbologia; porém, o desdobrar de uma ideia, o fulgor de um raciocínio, será nulo caso não compreendamos a menor de partícula de significância que o texto apresente ou não possamos juntar seus fragmentos, articulá-los, de modo a obter uma perspectiva central (de onde provêm as demais perspectivas, oriundas de trechos isolados e/ou correlacionados) do que é a obra sem uma noção específica de como defini-la, pois, ao lhe darmos um rosto que tenha algo nos dizer – uma ideia fixa –, perde a literatura a sua fruição, o seu despropósito. Assim como um quadro em cuja abstração perdemos o completo discernimento do que consideramos real, como uma música ou estátua carece de um sentido único ao nos arrebatar por completo, a literatura deve-nos fazer perceber outras esferas de realidade jamais imaginadas, enquanto contorce os conceitos e paradigmas sob cuja influência edificamos nosso caráter, um distinto e, ao mesmo tempo, impessoal modo de pensar, além de nossas mais arbitrárias e pétreas ilusões.
Derrubar os conceitos pelos quais se proliferam as noções “absolutas” do que é beleza artística, esventrando-os a ponto de neles salvar algum aspecto necessário a abertura de uma fruição mais ampla, é a melhor forma de defini-la. Não os valorizar coletivamente, mas pela imaginação e abarcamento de estruturas universais do autor como indivíduo, embora estes modelem e elevem, a seu modo, o pensamento das massas através de uma mútua assimilação. Nas palavras do poeta bronco do Brooklin:


A terra e o mar, os animais peixes e pássaros, o céu do firmamento e os orbes, não são temas pequenos… mas as pessoas esperam que o poeta indique mais do que a beleza e dignidade que sempre se anexam nos objetos reais e mudos… esperam que ele indique o caminho entre a realidade e suas almas. (WHITMAN, 2005, p. 270).


            Em Whitman (2005), se substituirmos o termo “poeta”por “escritor”, obteremos a função primordial da literatura (como também de todas as expressões artísticas, se podemos atribuir-lhes um sentido de utilidade): edificar-nos tanto uma interioridade mais profunda quanto os condutos a ela. O alcance de nossa visão interior, assim como a intimidade que temos para com a mesma, provém da internalização de “almas” cujas imensidões se espraiam e enraízam em intelectos compatíveis. No entanto, ao que percebo não mais há fluidez de ideias, e essa compatibilidade, que em sua natureza desponta de um impacto subcutâneo, da ruptura de preceitos, há muito já nasce pasteurizada em nossas superfícies.
O mundo globalizado, cujos habitantes quase em totalidade têm acesso à informação e não mais vivem em pleno obscurantismo, é constituído não só por países e cidades de culturas isoladas e “monocromáticas” funções, mas por ideias e opiniões que cada vez mais se aglutinam formando algo similar a um revolto enxame de abelhas. Pois todos, hoje em dia,têm algo a dizer de suas assimilações e reflexões, gerando uma concha de retalhos viva, repleta de incompatibilidades intelectuais de cujo atrito prolifera-se outras e outras… e, assim, torna-se o pensamento coletivo um pandemônio sem definição. Mas será que há valor em tantas vozes? Como saber?
E eis a maior questão para os críticos e literários: toda a criatividade pode ser considerada uma expressão artística ou apenas uma fecundação defeituosa, sendo a literatura uma abstração impalpável, uma forma indizível? Todavia, a diferença entre a opinião do povo e a arte é que nesta há um propósito maior que dá esteio a todos os seus despropósitos (abordá-lo-emos na continuidade deste artigo), que magnificamente a justifica como disforme invenção de um moderno Prometeu, pois rompe os padrões conhecidos, tornando-se, a um só tempo, aberração e divindade aos olhos mais preparados. Então, ao olharmos os vultos que tentam erguer-se das margens da sociedade, carregando em mãos seus escritos, contrapondo-se ao mundo e aos cânones com as almas que de suas vontades eclodiram, devemos ter em mente uma definição mais apurada do que é literatura, do porquê de gostarmos de ler o que nos arrebenta por completo… nos recria e transcende. Claro que realizar tal apuração é o mesmo que tentar reter com as mãos as correntezas de um rio caudaloso – é mais fácil nos afogarmos do que desvendá-los, bebê-las em goles pequenos –, mas, para poder abordar, com mais consistência, um estudo sobre a literatura marginal (porquanto, na condição de escritor autodidata, me incluo aos autores “sem lei”), tentarei transmitir uma definição do que é arte e literatura (e da importância de ambas), de como é identificável um artista legítimo, segundo os critérios meus e de especialistas em cuja opinião a minha se espelha, para situar-nos do que deve ser levado em conta ao apreciarmos o trabalho de escritores marginais. Pois o bom escritor não está associado a gêneros e movimentos culturais, ou mesmo a revoluções de qualquer espécie… mas sim é quem arremessa com força de gigantes uma pedra naquele enxame de abelhas.
Para tal pretensiosa definição, valho-me das opiniões do crítico norte-americano Harold Bloom, que, além de irem de encontro por vezes ao que penso, não devem ser levadas em conta por estarem arraigadas a tradições, mas, sim, pela enormíssima experiência literária nelas contida.Defensor da ideia de que a formação dos conceitos literários deve submeter-se aos cânones, não vejo Bloom como polêmico, pois, em suas ácidas considerações, ele se retrata à máxima literatura e à maneira que a devemos usufruir. Sendo, indubitavelmente, um dos maiores leitores deste e do século passado, aponta-nos os escritores imunes à ação degradante do tempo (os que, através de suas obras, converteram esse veneno que é intrínseco a toda as formas de existência em uma atemporalidade maior do que a própria vida) e mostra-nos o modo que devemos ler, de quais intentos devemos nos imbuir ao nos depararmos com uma obra literária. A exemplo disso, no livro de Bloom (2005, p. 33) “Shakespeare: A Invenção do Humano”,lemos que “[ . . . ] o procedimento mais sensato é deixar-se levar pelo texto e pelos personagens, e permitir uma recepção do que é lido, ouvido ou visto, de maneira a incluir quaisquer contextos relevantes”. Ademais, sou da opinião de Bloom (2005) que a arte não é democrática, e que, portanto, não está associada a estilos, gêneros ou condições sociais, e sim a um talento congênito ou empírico. Mas como diferenciar as criações oriundas de um talento sem limites daquelas que, em decorrência de um amadurecimento emocional que pode ou não ocorrer em seus leitores, cedo ou tarde hão de perder seu impacto?
Para chegarmos a uma resposta mais genuína do que é literatura, poremos sua importância em primeiro lugar, de acordo com uma breve interpretação de sua origem. No começo dos tempos, como bem se sabe, com o acúmulo de experiências e assimilações, o homem aos poucos edificou o que podemos chamar de interioridade e passou a fundamentar o que lhe era necessário à sobrevivência, enquanto desenvolvia um senso de beleza, de magnitude. Através dele, pôde o homem situar-se quanto à sua criatividade, ter maior intimidade com seus pensamentos até uma espécie de controle, podendo utilizar a percepção dessa nova linguagem para codificar a natureza e desenvolvê-la a seu favor. Podemos dizer que não falaríamos ou construiríamos o império em que hoje habitamos (sequer pensaríamos) se um ímpeto irrefreável de criar não nos tivesse movido. Depreende-se, então, que a natureza humana, em seus aspectos mais naturais, é uma invenção artística a dar embasamento a outras. Porquanto, tudo que já foi criado e bem conhecemos não nos causa impacto. Obviamente, um bom escritor há de ser impessoal, fazendo com que suas obras ecoem além de nossas básicas percepções para descontruir fronteiras. Lendo um livro grandioso, deixamos de existir ao mesmo tempo em que nos vemos nu diante dele, atônitos e embaraçados. E nos maravilhamos na estranha satisfação deste “choque térmico”.
Seguidamente,afirma Bloom (2005) que Shakespeare nos lê de um modo muito mais completo do que podemos lê-lo para evidenciar o diferencial do dramaturgo que, antes de obter reconhecimento, foi um homem “comum” – um sujeito às margens, o qual, se analisarmos por uma lógica segundo os padrões técnicos, não poderia ter escrito suas obras devido à falta de formação necessária para tais empresas, assim como Whitman e tantos outros (já chegaremos nesse ponto).Mas, todavia, o artista não é somente quem se abebera do mundo; a arte além da arte muito tem a ver com o contexto e a estética da obra. Não é simplesmente um perfeito retrato do que é e não é o homem, mas sim é uma junção transformadora de tudo o que conhecemos e desconhecemos, dita de forma que também inspire subversão dos sentidos. É quem, em maior ou menor escala, de um jeito ou de outro, muda o curso das águas a arrastar o pensamento coletivo, que pode ser considerado um artista, um escritor. Nas palavras de Whitman: “A prova de um poeta é seu país tê-lo absorvido tão afetuosamente quanto ele o absorveu” (WHITMAN, 2005, p. 43).Não somente passar a enxergar a olho nu novos panoramas como também a continuá-los é o que a literatura tem a nos ensinar, os quais não serão percebidos (ou sequer existirão) sem o impulso produtivo inerente à arte de ler que mencionei. Um bom autor é aquele que transforma seus leitores em autores durante e depois da leitura, sendo a profusão de pensamentos subterrâneos a característica que distingue um texto literário de um meramente informativo.
Entretanto, o que se gerou desta desconstrução de preceitos que propus foi uma visão mais delineada do cerne do âmbito literário. Ainda é preciso escavar mais definições até chegarmos às periferias, tais como gêneros, épocas e estilos. Mas é ao alcançarmos esse raciocínio que nos surge uma dúvida: tendo linguagens que transcendem a informação, contextos que não podem ser abarcados numa única interpretação, como poderíamos definir o que é literatura sem transmutar em pedra, com uma visão de Medusa, o que é puramente artístico? Como definir o que é arte sem tal visão?

2 Transpondo definições: do cerne às periferias

Desde a antiguidade, a fim de ter-se um embasamento maior do que estava sendo criado na literatura, são definidos os textos de tal área em gêneros e subgêneros, dos quais se imagina obter noções históricas e estilísticas de uma época e de um determinado número de autores pertencentes às revoluções culturais da mesma. Obviamente, é um estudo valioso para a historicidade e para nos situarmos quanto às divergências ou correlações entre escritores; mas esse estudo coletivo e minuciado pode afastar o leitor de uma espécie de leitura mais aprofundada – preconizada por Harold Bloom (2005) e que serviu tanto para os críticos formularem suas teses mais sagazes e estabelecerem seus padrões de excelência como para outros autores alcançarem um nível artístico mais profundo e denso – assim como o inibe de ver o autor como um universo intocado, pois já é de conhecimento público a que gênero e a que ideias o senso criativo de determinado artista está condicionado.
A meu ver, definir de maneira categórica um escritor literário por gêneros e caráteres meramente sociais, incluindo-o numa “vala comum” sem ver-lhe as singularidades e inovações dentro do seu estilo e de toda a literatura, é dissecá-lo e jogar aos porcos (como se fosse ração e lavagem) sua força estética e contextual. Por isso, creio que não haja meios fiáveis de separar um autor por vieses sociais, éticos, moralistas ou humanos, como somos condicionados a pensar, a “empalhar” os escritos (e empalar os escritores), quando nos defrontamos com alguma obra monumental – a não ser que tenhamos por objetivo nela encontrar alguma partícula de moralidade –, pois é difícil para quem se habituou a um mundo de regras conceber que o que é denominado literatura está além das diretrizes que outros criaram.
Em decorrência do pragmatismo a que nos acostumamos desde muito jovens, fazer a “autópsia” de um autor (ou dos escritos dele), separar os pedaços em recipientes e nestes colocar rótulos como “moralidade”, “sociologia” “pedagogia”, entre outros, é um recurso tão mais fácil para se definir autores como é simples a qualquer aluno pesquisar por informações na internet e não em livros, prescindindo dos bons efeitos colaterais de uma pesquisa mais contundente. Decerto é possível extrair contextos da obra para determinados estudos; definir tão rigidamente um escritor é o mesmo que encarcerá-lo juntos às carcaças mal digeridas de seus livros. Tentando preservar seu tempo e as revoluções de seu tempo,acabamos por matar sua eternidade. Nas palavras de Bloom à revista Veja:


Há 25 anos venho denunciando esse pessoal [os acadêmicos anglo-americanos]. O ensino de literatura no mundo de língua inglesa foi para o inferno. É dominado por ideólogos, por integrantes daquilo que eu chamo de "escola do ressentimento". É gente comprometida com assuntos extraliterários, com mania de desconstruir e relativizar tudo. Eles não se importam com o valor estético. É o politicamente correto que interessa a eles. Por isso, não estou nem aí, nem leio as críticas. Se você tenta ser independente, se não adere a nenhum tipo de moda, se fala honestamente e emite opiniões próprias, se recusa ideologias, inevitavelmente será atacado. (BLOOM, 2001)


Nessa mesma avidez em querer empalhar, com visões analíticas, até os pássaros nas árvores é, por vezes, cometido o erro de agrilhoar o autor a tal gênero e neste diluir suas capacidades criativas. Sei bem como é isso porque a quase todos a quem mostrei meus trabalhos fui prontamente associado a algum gênero – pela linguagem rebuscada,temática sombria e opressiva dos mesmos, carrego na cabeça as chagas do Mal do Século.Em verdade, não me aborreço com tais comparações porque a partir delas conheci autores fascinantes (alguns dos quais nunca havia ouvido falar – a exemplo de Cruz e Souza, com cujos trabalhos foi comparada minha poesia Perfeição) e, tampouco, os vejo como culpados, pois é natural de os alunos serem incitados, em maioria, a ver os autores por denominações,tal como um técnico em programação passa a ver tudo quanto é imagem de computador em números e gráficos.
Analisar os autores apenas com os olhos de Medusa (através de concepções pré-prontas) dá-nos a impressão de estarmos nos aproximando da integral compreensão de seus intentos ao desenvolverem suas obras, além de que, como já disse, é à força de um erro cultural que os gênios são retalhados e moídos por veementes (e precipitados) estudiosos. É claro que não me oponho (e sim fomento) a profusão de estudos sobre determinado autor até que, talvez, tenhamo-lo mapeado por completo (o que não deve ser um objetivo e sim uma consequência). Mas que isso ocorra da maneira correta, como o autor gostaria que fosse desvelada sua criatividade. Me lembro que, quando era oficineiro de literatura, conversava com uma professora de tal disciplina. Disse-me que sempre ao iniciar o desbravamento de um livro, corria para arranjar como leitura de apoio textos que relatassem como foi a vida do autor e dessem-lhe informações da época em que ele viveu, pois, segundo a mesma, a época exerce crucial influência em suas obras,comentário que muito me inquietou. Falávamos à ocasião de Dostoievski, quem, por coincidência, é um ótimo exemplo de que a grandiosidade de um gênio não tem relação direta com a civilização ou o tempo em que o mesmo arquitetou suas obras. Ao que sei, todos os seus romances se passam na Rússia e, em várias passagens, Dostoievski denota uma natureza contraditória de patriotismo (que é uma de suas formas de rir da “própria barba”); mas a força contextual que ele apresenta em seus escritos não pode ser contida em uma Rússia do passado… nem um décimo do que produziu é passível de tal restrição, tendo ele engendrado livros atemporais, de argumentos que falam por si só e dispensam qualquer referência histórica, causando o mesmo impacto estrondoso em qualquer lugar do mundo, em quaisquer nações, culturas e épocas.
Outro exemplo bom é William Shakespeare – me perdoem invocá-lo outra vez onde jamais se imaginaria vê-lo, mas isso se faz necessário –que fez obras relativas a localidades e acontecimentos de diferentes épocas com perícia quase sobrenatural – o que manda às favas o conceito de que um autor deve obrigatoriamente pintar apenas sua aldeia –, além de que suas peças teatrais e versos ganham mais vivacidade à medida que “evoluímos” como civilização. Ressalto que não sou contra a utilização de tais definições, cujo valor histórico é inegável, contanto que não seja restringida (ou mutilada) a vastidão de um autor em tal processo. A nomenclatura dos estilos em voga de cada época e região, a cronologia das mudanças estéticas e temáticas são importantes a título de informação no que condiz à trajetória da criatividade humana e, em certos casos, para situar o leitor de alguma expressão não mais usual; mas nunca para encerrar o póstumo caminhar de um escritor, pois, se o pudermos abarcá-lo através de evocações de seu tempo e vida, não podem ser denominados como literatura seus livros; e, cedo ou tarde, se a humanidade não conspurcar mais ainda as noções que edificou acerca do que é a arte legítima, o tempo haverá de apagá-lo… retê-lo nos anos que lhe roubaram a eternidade. Portanto, deve-se ver o gênio antes do gênero, assim como é falho tentar decifrar as grandes obras através das vivências de seus autores, pois, mesmo que o identifiquemos nas páginas por ele criadas, ainda não será possível abranger toda a sua intelectualidade. Sempre digo que escrever bem não é desabafar; entretanto, há autores que o fazem maravilhosamente, valendo-se de traumas pessoais para criar literatura, não apenas relatando-os, mas os convertendo em puro deleite estético e contextual. E, além do mais, como saber quem é verdadeiro Whitman em Folhas de Relvas (2008), se nele é encontrável, segundo os críticos e “autores-fãs” do poeta, mais de dez almas? Procurar o autor em suas obras, tencionando desvendar o mistério sem fruí-lo, também é não saber ler. 
           
Literatura & Literaturas: A marginalidade canônica!

Depois de eu haver empalhado uma baleia azul, chegamos ao ápice do artigo: a literatura das minorias, produzida pelos excluídos da sociedade. No mínimo das hipóteses, suponho, devem ter achado estranho o fato de eu ter citado apenas escritores de renome, cuja associação aos indivíduos que ainda não conquistaram seu “lugar ao sol” representa um opróbrio para ambas as partes.Conscientemente eu os citei porque, a bem dizer, todos eles se enquadram na denominação marginal… todos eles estiveram às margens dos padrões que a sociedade estabelecera.
            Todo grandioso escritor pôde criar uma vertente onde enfiar-se, onde ele pudesse caber parcial ou inteiramente, pela qual tantos outros artistas o seguiram e criaram suas próprias vertentes estilísticas, todos eles causando algum tipo de impacto na colmeia daquele enxame, desconstruindo-o direta ou indiretamente. Sinceramente, não sei de onde provém o termo “Literatura Marginal” por não saber desassociá-lo de todos os autores tidos como cânone. Ao ler “Shakespeare: A Invenção do Humano” (BLOOM, 2005), percebi indistintos resquícios de humanidade no autor considerado artisticamente onipotente pelos tropéis de letrados que os seguiram,porquanto ele também passara por um processo de aperfeiçoamento – e cometeu falhas, ao contrário do que se espera de um cânone –,e essa evolução não lhe ocorreu despercebidamente. Assim como os seus personagens, ele ouvia a si próprio enquanto pensava e caminhava em seus escritos, característica que lhe permitiu uma reconstrução literária de proporções jamais vistas – até por isso, houve quem tachou de barbarismo o jeito de escrever que Shakespeare desenvolveu, a exemplo de Voltaire.
Também se cogita devido à formação precária de Shakespeare que não tenha sido ele quem as escreveu (hipótese abertamente refutada pelos críticos mais versados nas obras dele), o que consiste uma resistência de certos intelectuais em separar em duas classes os autores, de acordo com a sua condição social e não pelo seu nível artístico, pois lhes é inconcebível que exista um cânone cujo dom não tenha sido grassado no meio acadêmico. Do mesmo modo é que enxergo a literatura marginal, pois, cada qual a seu modo, todos os escritores grandiosos por sua excelência (e não pelo seu status social ou pela precariedade do mesmo) foram marginais, pois, como já evidenciei, o artista se faz pelas suas criações e não pelas suas conquistas pessoais.Não que eu afirme que os meios acadêmicos não são ideais para o desenvolvimento do brilhantismo de alguém, mas que se deve aceitar que houve quem se tornou “pai de si mesmo”; e que todo gênio transcenderá as atmosferas que lhe servirem de aprendizado, seja a roça ou a escola. Por isso, como uma represa que desmorona, um intelecto superior há de romper, de um modo ou de outro, os padrões que o contêm; e, por isso, toda a literatura é marginal.
Outro bom exemplo de “marginalidade canonizada” é Machado de Assis, que, sendo mulato num período em que o preconceito às castas de ascendência indígena e africana ainda imperava como uma vívida verdade, de origem pobre, acabou por ser alfabetizado tardiamente, o que não lhe absteve de tornar-se por unanimidade o Cânone brasileiro, cujo prestígio literário à sua nação se rivaliza com o dos italianos para com Dante Alighieri (que, por sinal, produziu sua obra mais extensa e sublime em ocasião de seu exílio que ele não pôde anular em vida. Seria esse outro exemplo de marginalidade canônica? Ou o oposto disso?).
Também, inclui-se à lista dos grandes marginais literários (que é maior do que se supõe) um poeta de quem já fiz citações neste artigo: Walt Whitman, que viveu, assim como tantos outros, sem receber um décimo do reconhecimento que viria a ter postumamente. Aliás, houve muito repúdio quanto à sua originalidade demasiado modernista para os moldes daquele tempo, apresentando uma poesia sem métricas com teores de “homoerotismo e fantasia masturbatórias se misturavam com imagens sexuais e um culto quase religioso ao corpo e às ‘pessoas comuns’, [além de] sua linguagem ‘grossa’ e seus temas indigestos” (LOPES, 2008apud WHITMAN, 2005, p. 218). Graças a tais atributos, o livro Folhas de Relvas, no lançamento de sua primeira edição em 1855, rendeu a Walt Whitman os piores comentários possíveis de jornais da época, tal como o do Boston Post: “a expressão de uma besta”, ou o do Intelligencer “o autor deveria ser corrido a pontapés de qualquer sociedade decente, por pertencer a um nível inferior aos das bestas” (LOPES, 2008apud WHITMAN, 2005, p. 273). Whitman era um letrado marginal, de quem as “pessoas de bem” se escondiam por repulsá-lo fervorosamente; no entanto, foi salvo da execração perpétua por ninguém menos que Ralph Waldo Emerson, que lhe enviara uma carta expressando sua efusiva satisfação, o que pode ser encarado como um Cânone dando vida pública a outro, ambos distantes dos ditames sociais:

Não estou cego quanto ao valor da dádiva maravilhosa de Folhas de Relva. Acho-o a mais extraordinária peça de sabedoria que a América já produziu. Sinto-me feliz ao lê-la, assim como uma grande força nos deixa felizes.[ . . . ].Fico feliz com seu pensamento livre e corajoso. Sinto muito prazer dentro dele. Encontro coisas incomparáveis ditas de maneira incomparavelmente boas, como devem ser. Encontro a coragem de tratamento que tanto nos delicia, & que somente uma ampla percepção é capaz de inspirar.Eu o saúdo no começo de uma grande carreira, que, no entanto, deve ter tido um longo plano inicial em algum lugar, para tamanha estreia. Esfreguei meus olhos um pouco para ver se o raio de sol não era ilusão; mas o sentido sólido do livro é uma certeza sóbria. Tenha os melhores méritos, a saber: os de fortalecer e os encorajar. (EMERSON, 1985apud WHITMAN, 2005, p. 274).


Decerto, Whitman não foi o único a ser “excomungado” por apresentar uma genialidade extemporânea; e, tampouco, o último marginal que teve reconhecimento das universidades. De fato, é válida a voz da periferia, dos pobres e excluídos, daqueles que não mais podem enquadrar-se nas minorias, por uma questão cultural e histórica; mas não é razão suficiente para inseri-los na denominação “literatura” sob a ótica artística. Sua situação e revolta podem-lhes servir de inspiração, mas não justificaram a inépcia imaginativa, pois havemos de convir que a arte não é esmola dada ao povo: todas as classes podem-na criar, contanto que estas lhe tenham domínio. E nisso sou de opinião suicida, porque se eu não puder atingir a arte conforme os desígnios que aqui mencionei, creio não merecer notoriedade.  

Considerações Finais

Por certo, na realidade em que vivemos, marcada pelo embrutecimento coletivo decorrente das mídias e de uma necrosada teia de erros culturais, é de notar-se que as minorias não mais se constituem pelas massas ignaras, mas por aqueles que buscam impregnar-se de conhecimento… os tais tidos como cultos. Em razão dessa revolução às avessas, pode-se dizer o marginal de hoje é o letrado e não o ignorante, a cujas vontades, cada vez mais, se dobram a literatura, o cinema, e toda a “indústria” artística.Mas, como o embasamento deste estudo são os conceitos do que são legítimas criações literárias segundo o apuramento de nossas percepções e sua consequente quebra de realidades, o que mais é válido no universo dos livros é a reconstrução causada em nossa interioridade, a qual se avolumará cada vez mais. Tal impacto não está condicionado a épocas, movimentos literários ou algum status social. A nacionalidades também não (por isso, não me detive em autores brasileiros e “evoquei” os que me pareceram mais condizentes à proposta do estudo).
Portanto, pertencer à sociedade marginalizada não faz do escritor um exímio artista; contudo, a habilidade de recriar linguagens e contextos o torna um bárbaro… um marginal para o mundo que irá absorvê-lo e moldar-se a ele. Em seu nível mais alto, fora das convenções didáticas, não há literaturas e sim a Literatura; assim como, a meu ver, não há Cânone (no singular), mas aqueles cujo talento deve servir de referência a outros, independente do tema sobre o qual escrevam, e que não estão dentro de um número que condiz à obrigatoriedade da existência de escritores literários por região habitada.
No entanto, há um detalhe que deve ser levado em consideração quanto às expressões artísticas que emergem das periferias: assim como a repressão da Ditadura fomentou a criação de obras subjetivas, ricas em significados, a imposição das agruras sociais pode dar forma a textos brilhantes – o que obviamente não é uma regra –, contanto que alguém que esteja na plateia ou no palco dos acontecimentos tenha, além de bem afloradas as percepções, uma criatividade transformadora. Essa força oriunda do confronto, da escassez de liberdades, encontra-se estancada nos dias de hoje, quando tudo já foi conquistado e todos têm direitos semelhantes.Parece-me que, com o ganho de liberdade, aumentaram nossas restrições ao nos expressarmos: perdeu-se a vontade de criar, de vislumbrar novos céus. E a literatura sempre é desafio, um esforço do autor para lançar o mais longe possível sua rede de conhecimentos e criações, a fim de expandir suas capacidades intelectuais em simultâneo às de outros. Uma infindável superação… uma constante insatisfação.

Fragilidade humana: seria a fidelidade a maior das traições?


“Fragilidade, teu nome é mulher!”
Hamlet, Ato I, Cena II.

            Embora eu não concorde com o feminismo infantil e sem propósito da atualidade, não desejo incorrer em machismo (outra babaquice) com a citação acima, pois nela incluo ambos os sexos, sendo que as necessidades “originalmente” femininas – que se estabeleceram através de uma imposição de hábitos e não por natureza – de casar ou não ficar só também foi assumida pelos “guerreiros modernos” (aliás, cada vez mais estão mescladas as características, os “draminhas” de homens e mulheres). Não acho que isso não deva acontecer, já que tudo é cultural: não há comportamento certo ou errado, contanto que não criemos regras sociais para talhar os impulsos de quaisquer comportamentos. Mas há de se ter no mínimo, por uma questão de saber a que valores estamos sujeitos, uma visão literária dos fatos. E assim chegamos ao ponto que me fez escrever esse texto.
            Escolhi tal citação, pois ela representa a avidez de Gertrudes, rainha da Dinamarca, em casar com o irmão do falecido rei, apenas dois meses após a morte dele – e uma das maiores fraquezas humanas. Crescemos com a fábula de que quando se ama é para sempre e não se tem desejo por outros. Claro que, em nossas mentes, é pura verdade, tal como as chances de alcançarmos a paz mundial se pensarmos positivo; mas como o corpo desconhece a razão, é impossível dizer se manteremos ou não até o fim da vida nossas convicções, já que há esse atrito entre o desejo que nasce em um instante e o que pensamos ser naturalmente correto. Esse naturalmente correto, a meu ver, é que o problema, porque crescemos com a ideia de que a maior virtude é a fidelidade, assim como a honra, etc., etc. Mas esquecemos (ou nunca chegamos a descobrir) que tudo isso é um acordo que fizemos – que fizeram há séculos para nós, já que nascemos inseridos nesse maravilhoso turbilhão de regras e tolices –, e que a honra é só uma imagem, uma postura, e não representa necessariamente a vida. O personagem Falstaff, criado por Shakepeare (uma de suas maiores criações) nos mostra, com ênfase, a nulidade da honra, sendo ele, gordo, ladrão e cheio de vícios, a maciça (literalmente) representação da vida natural.
            Deixo claro que não sou contra relacionamentos monogâmicos e duradouros (cada um faz o que achar melhor, estando ciente ou não das influências culturais – e não naturais); mas, em comparação ao aforismo de Wilde de que não devemos julgar as pessoas por serem boas ou más, mas charmosas ou não charmosas, creio que, sob um viés literário (e nos livrando de um moralismo imposto de certou ou errado), talvez devêssemos pensar se o ato da traição torna mais interessante a relação… a pessoa que o pratica.
            Sei que neste ponto muitos já devem estar querendo me condenar em prol do amor, da família e do ciúme. Por isso, ressalto que estou apenas levantando a dúvida, me eximindo (tentando ao menos) de expor alguma certeza. Assim, fico a pensar se não seria mais atraente alguém que não somente se restringisse a mim e tivesse uma criatividade tão vasta que, além de recriar nossas situações, não pudesse nelas ser contida? Que nem é Hamlet, cujas capacidades intelectuais nos fazem considerá-lo “inapto” para amar e devotar seu tempo à obrigação que constituir família – como se Deus onipotente se restringisse a esse fim apenas. Nem Ofélia nem nenhuma mulher lhe faz par, como fica evidente no trecho:
          
  “Que obra prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e bem-feito em formas e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, para mim, é apenas a quintessência do pó. O homem não me satisfaz; não, nem a mulher, se sorri por causa disso.” Ato II, Cena II.

            Somente alguém cuja consciência encontra-se vegetando poderia dizer que uma pessoa de magnitude não é interessante por ser infiel ou por não desejar constituir família e seguir os mandamentos sociais. Além do mais, é possível que fiquemos, em sentido literário, mais interessantes ao trairmos, como mostrou Machado de Assis em Brás Cubas, pois, além de nos renovarmos de uma rotina que assumimos por valores culturais (na natureza, quase não existe monogamia – os casos que existem, suponho eu, têm um fundamento bem mais válido do que o nosso por serem causados pelo instinto, que é, em outras palavra, a genuína necessidade de sobrvivência. No nosso caso, prezamos a “pureza” da relação, como se o ser humano, por si só, já não fosse tão sujo e devorador quanto qualquer outro animal), aprendemos a melhor recriar nossos personagens, trazendo algo novo a quem nos circunda.  
            Os grandes personagens de Shakespeare eram, em maioria, destituídos das virtudes que não lhe convinham, pois assim podiam mutar-se e ouvir-se num intuito de construir sua interioridade (seja ela boa ou má – literariamente, isso não interessa). Não afirmo, evidentemente, que devamos ser maus para sermos interessantes, mas sim que possamos trazer a nossas decisões elementos além das virtudes… pintar-nos a nosso bel-prazer. O mesmo Oscar Wilde que disse que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” e “o mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror”, também disse, em O Retrato do Dorian Gray, quando a seguinte frase é remetida a Lorde Henry: “Tão falso e adorável! Visite-nos sempre!”. Creio que não precisarei descrever esse personagem fantástico, que é uma redução de Falstaff, quem nos ensina que a honra é balela e a vida é prazer para os “eleitos”, assim como Dom Quixote nos prova que “verdade” é uma palavra vulgar, recriando o mundo conforme nele se desloca (eis o Cavaleiro Andante).
            Mas há o amor e há o ciúme… a meu ver, na ausência do segundo, não teríamos problemas com o primeiro – bem pelo contrário – se caso não houvesse o segundo, o qual se deriva da monogamia, do direito e obrigação de termos uma só pessoa conosco, o que nos inspira um direito de posse e fraquezas psicológicas (creio que toda a depressão moderna se embasa nisso). Se não houvesse o “juntos e felizes para sempre”, creio que não existiria a orientação de que temos direito sobre alguém e, consequentemente, não haveria ciúme. Mas, é claro, que estaríamos sujeitos a outros vícios culturais e superstições (a razão sempre urdirá tais besteiras…). Enfim, sendo o corpo mais filósofo que a mente – e não há convicção que o refreie sem fazê-lo adoecer, de certo modo – já observei casos em que a pessoa incitou o cônjuge à traição, embora ela abominasse a ideia (é o corpo falando… e a consciência baixando as orelhas). Era sutil ao fazê-lo, sem prescindir de sua “rigidez de caráter”, criando situações que o tentariam ao adultério – como propor visitas à ex dele, por quem ele anda é apaixonado, para convertê-la à sua religião. Em minha análise, não imagino que ela queira inconscientemente ser traída tão somente pelo um desejo de vantagem – de tê-lo em suas mãos –, mas, também, pelo fato de que alguém fiel, sempre carinhoso, não era o que requeria seu corpo. Assim, penso que se explica esse comportamento “anormal”.
            Me lembro do ótimo filme “Beleza Americana” (“America Beauty”, de 1999), em que o protagonista Lester Burnham (Kevin Spacey), que vive um casamento de fachada, onde não há mais o menor entendimento com a mulher Carolyn (Annete Bening), e há tempos não fazem sexo. Ao ver a amiga de escola de sua filha, a líder de torcida Angela Haies (Mena Suvari), por ela se apaixona de súbito, tornando-se patético num primeiro momento (o monstro que Hamlet relata à Ofélia quando este a desdenha). Quando ele escuta por de trás da porta a opinião de Angela de que deveria malhar para mais ficar mais sexy, acata o desejo da princesa de seus sonhos e, extrapolando, dá uma guinada em todos os sentidos de sua vida estúpida, demitindo-se, por exemplo, de seu emprego e arrumando outro numa lanchonete (fazer coisas sem motivo, como se fosse diversão). Quando descobre a traição da mulher com o seu concorrente – que a deixou toda molhada quando expôs seu pensamento de que a aparência do sucesso leva ao sucesso –, age quase que apaticamente, sem se importar. No ápice da história, quando enfim ele tem em suas mãos a sua musa inspiradora para gozá-la, Angela revela ser virgem e a cenas subsequentes, quando Lester prefere abdicar de sua vontade e tratá-la como uma filha, mostram a complacência de um homem que percebeu que sua mudança foi causada por uma mentirinha. Uma sublimação negativa dos fatos, segundo a minha interpretação, a que nos vemos atrelados muitas vezes. Não raro, vivemos por mentirinhas sem cabimento… nos tornamos alguma coisa em razão delas.
            Mas, qual será a verdadeira mentira? O amor duradouro, o sexo despretensioso? Quem sabe, tornarmo-nos prisioneiros de nossas convicções e idolatrias constitua a maior das traições...