terça-feira, 2 de julho de 2013

Protestos à Brasileira: Super Heróis do Novo Mundo…

“O Gigante acordou”. “Um dia, você descobre que não era um sobrevivente, mas um guerreiro”. “Desculpem-nos a bagunça, mas estamos mudando o Brasil”. Frases de motivação, de libertação, estampando cartazes nos protestos de 2013. Urram as vozes que antes só resmungavam ocultas. Eram vozes veladas por um silêncio cômodo, pois, nas superfícies das massas, não havia repressão que delas gerasse pensamento mais consistente do que “pô, isso tá errado! Alguém está nos passando a perna.” E, claro, mais contundente do que apenas calcular as negativas da situação, sem apresentar algum esboço de solução ou alguma rebeldia que fosse além das lágrimas e caretas de crianças.
Em época ditatorial, por exemplo, faziam-se críticas melhores quando a penitência era insuportável, ao mesmo tempo em que a liberdade devorava cadáveres. Existiam mais vozes quando todos eram mudos; falavam-se mais quando as palavras eram proibidas. E essas vozes saídas de uma garganta qualquer se calaram na mesma proporção em que ganhavam espaço irrestrito as vozes de agonia. A paz não apenas silenciou, mas também fez adormecer, tornou indolentes à própria dor, as vozes da insurreição. Por isso, tanto suportou o “Gigante” antes de insurgir… contra ele mesmo. Pois não há lados, nem partidos, apenas acordos de poder, de hierarquia, etc. Se os que hoje protestam e condenam houvessem subido ao poder em época anterior à do abuso que neles fermentou a revolta, é provável que os lados teriam se invertido. Em outras palavras, se os governantes, hoje condenados pela opinião pública, não houvessem sido os primeiros exemplos de corrupção, talvez fôssemos nós, os libertadores, os incorruptíveis, a estar com os beiços lambuzados com o melado do povo, enquanto outros jovens, com os mesmos ímpetos que hoje demonstramos, estivessem a buscar nossa derrocada. Portanto, creio que não há diferenças entre as castas, entre as classes sociais, e que tudo é dependente de circunstâncias, do que vemos, do que enfrentamos e vivenciamos, para tecer conceitos. Quantos de nós, tantas vezes, não tivemos de cometer alguma infração a qual contrariava sua lógica de vida, de coexistência, para não perder o emprego, para não reprovar, entre mil etc.? Não devolver o troco errado, não auxiliar quem um dia pode te derrubar, etc., etc., etc.
Sim! Há aqueles que dirão “eu nunca fiz ou faria isso…”, assim como muitos protestantes torcerão o nariz e baterão o pé, pois jamais serão como os políticos, ainda que fossem políticos. Bom, quanto aos primeiros, digo que eles nunca viveram ou viverão em sociedade, o único meio de se resguardar toda essa pureza de espírito; quanto aos agentes e fomentadores do protesto, digo que estão cobertos de razão. Sim! Quem está reivindicando melhorias nunca está errado! Ainda mais, tratando-se do povo de um país tão imenso, uma vez que, coletivamente, ele é somente heroico e virtuoso, ainda que se componha por indivíduos ambíguos, por razões que já citei. Aliás, tudo que eu disse até agora sobre ocasião, conceitos e polaridades não tem a menor importância, pois o Colosso Latino-Americano, de riquezas infindáveis, de maravilhas invejáveis, ergueu-se do abismo pelo simples fato de todos os brasileiros terem se unido. Dizem que a união faz força e deve ser mesmo, embora haja o provérbio: “amarras cinco galinhas umas nas outras e elas não voarão…”. O exemplo numérico podia ser de 1.000 galinhas, 2.000… ou 193 milhões de brasileiros. Mas o Gigante acordou, após anos em sua paz sonolenta, seu sangue roubado por gordos mosquitos, os quais doenças infecciosas lhe transmitem; anos submerso em sua horrenda liberdade, pois sabiam que os mosquitos que não há melhor modo de acalmar o boi do que abrindo a porteira do cercado, mesmo que lá o grande animal permaneça. Além do mais, liberdade é tão assustadora quanto a opressão: e o Gigante ficou paralisado, vendo que podia mover-se livremente, mudo quando lhe tiraram a mordaça, etc. Mas o Gigante acordou, depois de os mosquitos quase terem secado suas veias, para esmagá-los e retomar a liberdade e dormir novamente. E como acordou o boi Gigante? Espreguiçou? Bocejou? Não. Acordou numa explosão de ânimo, debatendo-se, berrando e esperneando, tal como faria uma criança que dormiu pouco.
Milhares, centenas de milhares foram às ruas. Os 20 centavos foram a gota d’água (houve muitas gotas d’água até então, que bem poderiam ter servido para causar uma reação similar há tempos…). Bom, esclareço que sou totalmente contra 199% dos políticos, não pelo fato único de eles serem ladrões, corruptos, mas também pela inépcia dos mesmos. Mais uma vergonha nacional é apresentarmos governantes com tão baixo nível intelectual (não refiro à formação profissional ou curricular, mas sim à formação do discernimento). Ainda que bem intencionados, políticos sem o devido atilamento do intelecto, sem o devido raciocínio e poder de ação ainda constituem uma vergonha. Mas domam o povo com migalhas, então deve ter seu valor como malandros. Ah, o povo!
Antes de falar das células vivas do Gigante, afirmo que estou contente com os protestos. De verdade; mas não tão contente. Aliás, vejo-os ainda como um simulacro de solução se o escopo é mudar o Brasil, tal como fazem os políticos ao construir uma praça ou criar novas bolsas de qualquer coisa. Em primeiro, digo que foi ótimo que os protestos tenham ocorrido, pois algo deveria ocorrer… qualquer coisa deveria ocorrer, mesmo que todos os protestantes, ao mesmo tempo, fossem defecar na rua. Claro: um péssimo começo ainda é um péssimo começo. Mas ainda é um começo; e, na situação em que nos encontrávamos, nós brasileiros, partículas do Gigante dorminhoco, não vimos opção a não ser começar do único jeito que podíamos e conhecíamos, não com o jeitinho brasileiro, mas com o método que já foi utilizado em todo o mundo e, decerto, foi efetivo em muitas ocasiões. O importante era começar, para depois modelar o erro. Não acertaríamos de primeira, haja vista nossa inexperiência e que recém “acordamos”. Não cagamos no meio das avenidas, mas, certamente, não fizemos muito diferente que isso.
Pintamos rostos, levantamos cartazes com várias frases, lotamos avenidas, entoamos hinos de liberdade. “Um dia, você descobre que não era um sobrevivente, mas um guerreiro” (não imaginei que nos tornássemos guerreiros da noite pro dia). “Desculpem-nos a bagunça, mas estamos mudando o Brasil” (também, nem supus que era tão fácil assim mudar, dessa maneira, um país com problemas tão enraizados culturalmente). Não essa atitude que espero de quem tem maturidade (intelectual e emocional) suficiente para mudar o próprio bairro, quem dirá o país. Fico a imaginar se, então, trata-se de pessoas ingênuas, néscias como políticos a quem estão atacando, que querem fazer\tornar-se a mudança, mas não sabem como; ou se são pessoas insatisfeitas com a própria vida que desejam passar por super heróis. Pessoas que vêem nos protestosuma chance de expurgar suas deficiências, impotências particulares (de não conseguir bater em todos que o ofendem, de ter perdido Mary Jane pro Duende Verde, etc., etc.), vindo a fazer parte de algo grandioso, vitorioso e, principalmente, correto. Pois eu lhes digo: se, de fato, fossem heróis, a última coisa que sentiriam é orgulho de si mesmos. A última coisa que fariam é jactar, como crianças orgulhosas, de seus feitos.
Antes que me condenem por lhes tirar sua recente fonte de júbilo, de superioridade, etc., afirmo que não sou aquele que tenciona dar fim aos protestos. Mas, sim, contribuir. Vou me explicar: quem é que realmente pode ser chamado de herói? Quem jogou na Copa do Mundo e venceu? Quem, nos filmes, matou mais de mil vilões? Quem salva vidas em sua profissão? Ou quem conseguiu mudar a história de uma sociedade, lutando por direitos e obtendo-os a duras penas? Se são considerados heróis os salvadores de vidas (e com isso concordo plenamente), tais como médicos, bombeiros, policiais (ainda que muitos deles cometam descasos e atrocidades), não creio que eles proclamem seu heroísmo aos quatro ventos, não pelo fato de não merecerem, mas, sim, porque pagam um alto preço por serem heróis. Quantos pacientes já perdeu o médico? Com quantas mortes ele se abalou? Quantos mortes e lágrimas já presenciou o bombeiro? Quantas vezes ele sentiu pânico ao realizar resgates e culpou-se pela impotência de não poder salvar a todos? E o policial? Que perdeu colegas, que viu outros endossando os negócios do crime em razão de outra impotência? Que não sabe se voltará para casa? Um policial também tem família e, por mais absurdo que possa aparecer, ele tem receio de perdê-la ao livrar-nos de algum perigo urbano. O que sente o policial quando tem de coagir pessoas por ideologia que lhe são favoráveis? É provável que nenhum deles se ufana por ser um herói.
E quanto aos que mudarão a história? Orgulham-se? Estampam sorrisos ao lembrar-se de como foi bom e instrutivo derrubar forças maiores do que eles? Quem foi capturado na Ditadura Militar e torturado até dizer chegar (e não ser ouvido) por defender uma ideologia libertadora? Aqueles em cujos corpos foram penetrados com cabos de vassoura, que foram açoitados até o sangue escorrer igual a uma torrente? Orgulham-se como se orgulham nossos novos heróis? E quem esteve na guerra, em qualquer guerra? Orgulha-se por terem matado humanos como se tivesse passado no vestibular? Humanos que também lutavam por suas vidas e por um ideário que também consideravam correto? Os mutilados, física e psiquicamente, que sobreviveram quando queriam morrer?
Entre outros exemplos de heroísmo, não há orgulho inflamado. Não estou extraindo deles o mérito, pelo contrário. Pois fizeram o que as circunstâncias lhes impeliram a fazer e eles sofreram por isso, não tendo como orgulhar-se posteriormente. Ou, ao menos, mantiveram uma espécie de orgulho e remorso. E fizeram o que deveria ser feito: quebraram a oposição com o próprio sangue, com a própria dor. Morreram ou parte deles morreu. Um bom exemplo é o caso que originou aquela data patética (penso que feriados mais ferem do que prestigiam a importância de uma conquista histórica em razão de que nem todos entenderam o real sentido daquele dia e vão se vangloriar sem saber, sem ter sofrido ou sequer desconfiar de como foi sofrer o que os heróis sofreram): 8 de Março, Dia da Mulher. Mulheres morreram queimadas numa fábrica para que o 8 de Março fosse lembrado tal como é, e muitas meninas e mulheres-meninas se acham poderosas, invencíveis, nesse dia e, por isso, a meu ver é esta uma terrível ofensa (obs: qualquer semelhança com a conduta de muitas protestantes – senão todos – não é mera coincidência… é o mesmo oportunismo…). Há quem diga que o 8 de Março representa as conquistas da mulher e que, enquanto houver mulheres sofrendo estupros e discriminação, haverá luta. Em primeiro lugar (feministas, perdoai-me, mas o exemplo é ótimo), as mulheres já conquistaram mais espaço do que o homem nas mídias, nos trabalhos, etc. O que mais desejam? Em segundo, vale para o estupro o que vale para o assassinato: é crime de âmbito humano, não apenas feminino. E, desde que o mundo é mundo, matar é errado e ainda é uma ação perpetrada largamente, diariamente. Não foram as campanhas contra o homicídio que impedirão um indivíduo propenso a matar, quando este se vir em ânimos e circunstâncias, de realizar o crime. Então, considerando que a função do feminismo está concluída nestas plagas, por que não rumar para o oriente, a fim de acabar com horrores como a circuncisão feminina? Acabar com os ditames milenares que sobrepujam mulheres, que as maltratam, mutilam e humilham?
Ah, sim, perdão! Me esqueço de que, no oriente, com tal atitude, senão implica em morte, ao menos é passível de assombrosas penitências. E, claro, não é legal ser herói quando morremos ou somos feridos. Quando nos traumatizamos… e justamente foi o que houve com os heróis das ditaduras, das guerras, etc. Por que eles não se vangloriam, afinal estão desperdiçando a oportunidade? Ser um herói, um guerreiro é não se saber que é um herói. O guerreiro, se realmente viveu alguma guerra, dela não se orgulha.
Protestantes devem fazer o que é preciso fazer, o que é correto de acordo com as circunstâncias, não o que eles querem que seja louvável. Aliás, quanto mais louvável, menos eles saberão que é louvável. E, ademais, não estão fazendo o que é correto, se bem for bem analisado.
Eles foram às ruas apenas para entupi-las até que suas exigências sejam acatadas. E só isso? Como dar credibilidade a uma turba, uma horda, que não tem sequer representantes? Por mais democráticos que sejam os protestos, alguém deve falar por eles. Aliás, a democracia é extremamente falha por dois motivos: qualquer um tem voz e merece ser ouvido, mesmo que não saiba falar. E de uma montanha de gente, muitas vezes não sai uma opinião, um pensamento que se valha alguma coisa. Não é por que milhões, bilhões estão nas ruas que podemos dizer que nação tem força. “Amarras cinco galinhas umas nas outras e elas não voarão”. Para que haja legítima efetividade, hão de as multidões se organizarem e decidirem quem está apto a ter ir ao campo dos políticos – que é a política, ora – travar a verdadeira guerra, não porque precisa dizer alguma coisa, mas porque sabe o que deve ser dito. Deve o povo escolher seus representantes, cujos conhecimentos e discernimento são o bastante para confrontar representantes políticos e expor as mudanças necessárias, segundo o pensamento dos protestantes. Não apenas baixar a tarifa dos ônibus, impedir a implantação de leis absurdas, mas de tudo quanto nos é injusto. E essa reunião com políticas não deve ser privada, mas transmitida para todo o Brasil, pois é um acordo que queremos propor. Senão é de se pensar que pretendemos exercer opressão em vez de evitá-la.
Todos os brasileiros estariam vendo seus representantes de ambas as classes, dialogando; e poderiam opinar os que tivessem melhor opinião, maior atilamento intelectual. A democracia só é válida quando não vira festa de todos.
Mas, até agora, não vi ninguém propor uma reunião com o governo, pondo representantes do povo frente a frente com presidente, deputados, etc. Nem sequer sonharam com isso, ao que me consta. Mas, é claro: muitos hão de insistir que a voz de todos brasileiros é uníssona, que é a voz de Deus (que heresia!), e que não há como dissociá-las (é até poético!). Mas, assim como esperamos que os políticos tenham formação e discernimento o bastante para governar, há de o eleitorado, o povo, estar a par do que lhe ocorre, ter similar formação e raciocínio. Pois fomos nós, em nosso obscurantismo, que permitimos esse crescimento tão odioso da corrupção. Deixamos nas mãos de nossos governantes a total liberdade de decidir o que é melhor para nós. Como bebês que esperam ser limpos pelos adultos, os quais podem decidir deixá-los cagados ou mal lavados. Que farão as crianças de bunda suja que não sabem falar, nem sequer caminhar? Chorar, abrir o berreiro, obviamente… protestar…
            Vivemos num país democrático em que os políticos dão as cartas. Pensamos, portanto, dentro dos termos que eles estipulam, sem exercer a tal democracia a não ser quando, para nos distrair ou ceder alguma importância, nos dão opções para decidir alguma coisa (certamente descartável para eles, como, por exemplo, quem presidirá o Brasil, pois, há vários anos, quem o faz não é quem está no assento presidencial). E é esse o outro grande erro da democracia, que a torna tão falha, pois dela não participamos. Comemos as pizzas que vêm nos rodízio; e, daí, independente sabor. Se nos trouxerem uma fatia crua e outra queimada, teremos apenas estas duas opções para comer, pelo fato de não sabermos fazer pizza, nem sequer vistoriar as que estão sendo feitas. Preparadas com todo o amor e carinho (que cut-cut!), com os temperos certos para não gostarmos demais nem de menos. Aliás, nem é o nosso apreço que importa a eles (nem a nós mesmos), contanto que não ponhamos a mão na massa. Eles fazem tudo: preparar a massa, rechear, pôr no forno e servir. E, obviamente, não podemos recusar todas as fatias. Um pedaço da bandeja, pelo menos, nós devemos escolher, obrigatoriamente.
            Destarte, no mínimo é burrice dizer que temos opinião em um sistema democrático como esse… que temos poder. Sobretudo, que estamos mudando alguma coisa. Há cerca de dois anos (ou mais), noutro texto, expus a ideia de que as eleições não deveriam estar abertas a todos os cidadãos, que o certo, em minha concepção momentânea (posso vir a achar que não há efetividade nesse método, assim como não nunca deu certo nosso sistema democrático imperialista e ninguém vê isso – aliás, muitas coisas não são vistas pela parcela da população que deseja mudar o Brasil/mundo e logo entraremos nesse assunto), algo que alcunhei de “democracia seletiva”. Sim, eu sei que tal denominação é absurda e contraditória, visto que a democracia não deve ser seletiva… mas é absurda e contraditória dentro do padrão que desenvolvemos e solidificamos como um dogma (como as tais fatias de pizza, das quais não podemos escolher outro sabor, textura, etc.). Ou seja: nos apaixonamospor um conceito, utopia, estado de espírito, ascensão de consciência, por um autorretrato que passamos a considerar mais bonito em razão de uma perspectiva comum (algo que também nos foi empurrado goela abaixo), e não pela efetividade de nossa procedência. Novamente, nos apaixonamos pela imagem do heróico, a fama de super herói que insistimos em perseguir, e não pelos ganhos de uma ação que, silenciosamente, sem estardalhaços, rompantes publicitários (pois o povo, ainda que fale mal das mídias, fervorosa e desesperadamente adora nelas estampar sua imagem de politicamente correto – ainda chegaremos nesse assunto), beneficiará a todos. Não, precisamos colocar a cueca sobre a calçar e dar a entender a todos que sabemos voar e quebrar paredes, etc. Enfim, só dizemos que a democracia é bela porque desejamos ser bondosos, justos, etc., e permitir que todos deem sua opinião. Aliás, democracia não passa de uma ferramenta destituída de polaridade. Pode ser ótima se bem utilizada e, logicamente, péssima se ocorrer o oposto. Assim como uma martelo é ótimo, se soubermos usar e não acertarmos os próprios dedos.
            Enfim, a tal democracia seletiva que proponho consiste em formar o eleitor assim como se deve formar o político (neste caso, de acordo com a sua hierarquia – a graduação variaria de acordo com o posto ocupado). Desse modo, haveria exigência curricular para entrar na política (o que deveria ter-se estabelecido há tempos), já que, em outras profissões de menor âmbito – as que não são responsáveis por cidades, Estados e países como um todo –, é o diploma que determina quem ganhará a vaga. Então por que não há tal obrigatoriedade, se, nos dias de hoje, até para se administrar um boteco é necessário curso superior? Aliás, tratando-se de uma função tão vasta… tão nobre… e, sobretudo, tão determinante, deveriam os governadores rivalizar, em nível de instrução e raciocínio, com os melhores estudiosos, filósofos, professores, etc., e serem peritos em áreas, humanas, administrativas, etc., etc., possuindo larga abrangência literária e de outros conhecimentos que ora me escapam à ideia e à reminiscência. Na condição de escritor e, quem sabe, formador de opiniões (não simpatizo com essa alcunha), me preocupo em ter algo a transmitir a outros escritores e formadores de opiniões por uma espécie de obrigação à minha carreira. Ou seja: se eu não disser o que jamais foi pensado àqueles que também se autodenominam pensantes, meu valor como escritor será nulo, assim como suponho que, igualmente, eles tenham tal preocupação, pois, do contrário, não há porque chamá-los de escritores, pensadores, revolucionários, idem, idem, idem. Mas o mesmo, evidentemente, não ocorre com os “profissionais” que têm poder sobre os escritores, pensadores e revolucionários. Não ficam ruborizados, constrangidos, com a vergonha de apresentarem um nível intelectual menor do que uma considerável parcela de seus eleitores intelectuais (que, a bem dizer, não precisam ser grande coisa para superar a maioria de seus governantes), sendo que eles deveriam estar nos pináculos da intelectualidade coletiva, não deixando a peteca cair em hipótese alguma. Ao invés disso, são palhaços que riem das próprias travessuras e meninices, e ficam brabos senão rirmos também. Adulterando (mas não tanto) frase de Voltaire, “são comediantes a atuar para uma platéia demasiado assustada para rir”.
             Contudo, essa situação estúpida gerou-se de nossa negligência, pois não há quem lhes impinja a necessidade de erudição. Tornar-se-iam sábios para quem? Contra qual tipo de cidadãos eles precisam deitar conhecimentos e raciocínios? Por que fazer mais do que já fazem, por que seriam mais do que já são, se isso serviria tão somente para engasgar o povo? Se as turbas que denominamos Brasil preferem arroz com feijão (porque se acostumaram por conta própria ou foram acostumadas a isso: já não interessa mais), por que deviam servir-lhes lagosta? De certo modo, estão certos nossos políticos burros, velhacos e bonachões. São a carinha do Brasil! Do que o Gigante parece gostar e merecer!
            Sei que, neste exato momento, há pessoas balançando a cabeça negativamente, afirmando para si mesmas que não são assim e que estou equivocado e sou um completo imbecil. De fato. Enfim, para as pessoas com mentalidade normal, que perceberam que eu não restringi os brasileiros com esse julgamento, que não me refiro a todos, mas sim à parcela de população que só está “em anexo” em nosso país, prosseguirei.
Que o Brasil precisa de mais investimentos, mais qualidade na educação, já é de senso (e consenso) público; mas ninguém comenta que o país necessita de uma reformulação cultural. Creio que os países europeus, por exemplo, não nos superam em qualidade de vida, sofisticação, status, e cinco mil etc., pelo fato de serem mais inteligentes/sábios ou tão mais inteligentes/sábios. Aliás, se compararmos as massas do mundo inteiro, o grosso do povo, não identificaremos peculiaridades maiores do que hábitos, formas mecânicas de procedência, que impelem o governo a agir de um modo condizente. Talvez, tenha sido o governo desses países os quais utilizamos como exemplo de “mundo perfeito” que, em épocas remotas, condicionou sua nação a essa “educada” conduta. Isso também não interessa; o importante é saber que existe uma espécie de acordo entre ambas as partes (mesmo que este não seja percebido por ambas as partes). Também, vale ressaltar que todos os países que nos servem de paradigma enfrentaram grandes conflitos até que pudessem moldar esse acordo “invisível”. Por isso, um dos pontos que considero mais criticáveis dos manifestantes é o desejo incontrolável (quase uma volúpia) de provar a Deus e ao mundo que são pacíficos (heróis do bem), ao mesmo tempo em que desejam provar que não dependem de líderes ou partidos. Quanto ao segundo item, é até um critério razoável – indifere se há ou não coligações, títulos e outras nomenclaturas –, mas, quanto ao primeiro, é totalmente absurdo e demonstra a inexperiência brasileira quanto ao organizar-se. Como querem chegar a algum lugar sem uma espécie de organização? Como querem sequer ser levados a sério, se não há quem responde por eles, em nome de todos, conforme o ideário de todos? Quem argumente contra os políticos e deixe-os em xeque-mate? Serão ouvidos os berros de uma turba que apenas ocupa espaço, grita e levanta cartazes? Ha ha ha ha ha   
Nada mais fácil do que lidar com exército disperso, ainda que este faça barulho, ainda que seja agitado e numeroso… como uma festa rave. Em primeiro lugar (antes que me condenem ao exílio perpétuo, senão à morte por overdose de TV aberta – 30 minutos já são o suficiente para matar 20 elefantes), repito que concordo com os protestos e afirmo que os mesmos deveriam ocorrer. Como disse, algo deveria ocorrer e ótimo que essa tomada de atitude mobilizou milhões, zilhões. Talvez, os 193 milhões que citei no começo desse texto. Ou as cinco galinhas; ainda tenho essa dúvida. Pois estamos comemorando por vitórias fáceis demais, pela desaprovação de projetos que nasceram mortos, os quais não passavam de manobras evasivas por parte dos políticos. Ao menos, não quero crer que eles tenham realmente pensado na aprovação e exercício de tais idéias, por mais imbecis que sejam. Mais me soa como “bombas de efeito dispersivo”, pois fazem com que as pessoas corram às ruas para protestar. E, obviamente, somando a força de infinitas vozes à incoerência do projeto, acaba-se por conseguir anular em tais bobagens. Matamos o morto; ressuscitamos o vivo. É como pedir algo em tom de piada: se ganhamos o que queremos, ótimo; do contrário, era apenas uma piada, que fez os brasileiros rirem… perdão, protestar. Claro que medidas devem ser tomadas contra essas leis em forma de aberrações, mas não se deve esquecer que o “inferno” é mais baixo, e que não é apenas remediando as novas cagadas (as quais eu ainda penso tratarem-se de “jogadas ensaiadas”) que iremos “mudar o mundo” (de fato, adorei esse grito de guerra, pois bastava ir às ruas com bandeiras e caras pintadas, para que um novo mundo se descortinasse, onde os pássaros cantariam a todo momento, as flores celestes brotariam do asfalto e, ainda que fosse noite, o sol deitaria sobre nós sua luminosidade, rompendo as trevas para sempre… hahahahaha) que iremos mudar alguma coisa. Assim como não é afirmando-se pacifistas que iremos mudar alguma coisa, nem representar melhor postura. Pois, como a história mundial nos comprova, não foi com paz nem com flores que se mudou o mundo. A boa e velha chinelada na bunda, infelizmente (e esse infelizmente é meu presentinho para todos os humanistas, os que a amam a paz sobre todas as coisas), é o que impera e sempre vai imperar, pois, quando há bondade de um lado, geralmente (eis outro presente!), o outro há de aproveitar-se da boa vontade. Mas não quero pender ninguém ao uso da violência, muito pelo contrário, porquanto é incabível e realça nossa imagem de “rebeldes sem calça”. No entanto, também recrimino nosso zelo em afirmarmos “amiguinhos da paz”. Que nossas propostas falem por nós, e seja através de nossa procedência que possamos mostrar que somos pacíficos (se temos essa obrigação) e não por meio de uma contínua autoafirmação.
Evidentemente, essa luxúria em querer provar a todo custo que somos pacíficos entra no padrão do super-herói perfeito. Queremos assumir essa característica em razão de caprichos, em vez de nos centrarmos na procura de uma solução comum. Aliás, até queremos essa tal solução, mas que venha de graça (sem que precisemos pensar muito) e mediante caminho de glórias… o mais sensacionalista possível. Muito ouvi dizerem que, daqui a vinte anos, mais ou menos, estaremos nos livros de história. Como diriam as bruxas de Macbeth, “o belo é podre; e o podre, belo sabe ser…”
            Enfim, retornando à democracia seletiva, proponho que, além de os governantes precisarem de um diploma específico para exercer o cargo, os eleitores também dependam de especialização para poder votar. Exatamente! Será revogado o voto obrigatório (essa ofensa à razão!) e só poderão votar aqueles que tiverem formação para isso, podendo não aceitar qualquer fatia queimada de pizza. Assim, a um só tempo, nos livraríamos da opinião do peso morto do povo (as massas manipuláveis) e obrigaríamos os políticos a ir além das próprias formações, visto que eles seriam forçados a ter colhões para encarar seu eleitorado, pois ninguém os poderia derrubar na argumentação e raciocínio, não havendo espaço para falhas, para meias-respostas. A meu ver, somente nesse caso haverá política e democracia, quando houver o reflexo dos eleitores em seus governantes e vice-versa. Na verdade, já existe semelhança entre povo e políticos… é por essa razão (defeituosa) que as coisas chegaram a um patamar tão ridículo e detestável.  
            Deveis estar pensando, amantes da democracia, que não será democrático se todos os microorganismos que formam a população não votarem. E, ainda, complementarão: “és um fomentador da opressão, querendo calar as vozes do Brasil!”
            Nesse caso, entramos de novo na questão de se pensar nos métodos em vez dos resultados… uma preocupação estética… não mais que outra peça do uniforme de super-herói. Pois, se apenas 50, 10 brasileiros votarem, mas bem o fizerem, escolherem bem de acordo com uma criticidade mais apurada, a democracia terá feito o seu papel.
            Por certo, um empresário, ao decidir o caminho que tomará sua empresa, considerará as opiniões de economistas do mesmo modo que considerará as dos metalúrgicos, serventes de obra, etc., só porque eles têm uma opinião. E, claro, nessa situação a opinião de um economista tem valor 1 (pois trata-se de uma pessoa apenas), que é o mesmo valor da opinião da secretária, do padeiro, da faxineiro, e assim por diante. O que conta é a quantidade, jamais a qualidade? Ainda que eu tenha excelente formação e excelência em minhas noções e pensamentos sobre o assunto, minha opinião terá o mesmo valor de quem nunca se dignou a refletir sobre? E, se o fez, não atingiu a mesma profundidade que uma mente mais experimentada? Isso é democracia? É justiça? Coesão? Civilidade? Humanidade? Ou a mais genuína burrice? “Uma só lei para o leão e o boi é só opressão”. A frase de William de Blake (presente no livro “O Casamento do Céu e do Inferno”) deveria ser o primeiro dos mandamentos. Não que eu pense que o “leão” deva ter mais direitos, e sim mais consideração. Senão, por que ele haveria de ser mais que os outros? Para ser sepultado na vala comum? E tanto se fala em educação, em como é importante pensar, ir além dos conceitos que já existem, blá blá blá… para quê? Para funcionar no sistema como qualquer outro, para ganhar dinheiro como qualquer outro, para comer gente como qualquer outro? Para legislar como qualquer outro? Protestar como qualquer outro? Atuar como qualquer outro, sendo que, em determinadas funções, ele poderia vencer uma guerra inteira, enquanto outras lhe nulificariam por completo as capacidades? Ah, sim… não existem mais leões…
            Mas, enfim, admito tratar-se de uma ingenuidade minha. Sim, essa história de democracia seletiva nunca dará certo. Ao menos, enquanto os políticos ainda decidirem quem fica e quem permanece, assim como ele podem decidir o próprio salário. Não creio que, por mais imbecis que sejam, será tarefa simples destroná-los. O mesmo se daria com qualquer um, se estivesse em cargo de privilégios, sendo patrão de si mesmo. Quem poderá convencê-los a saírem? Quem nos convenceria? E quanto a baixar os salários?  Acho muito bom que estejam os brasileiros, em maioria, estejam rejeitando a vinda da copa do mundo por diversos prejuízos e transtornos que com isso sobrevirão… mas os brasileiros ainda a rejeitariam se o governo se comprometesse a arcar com os custos, sem cobrar-lhes a mais nos impostos, utilizando dinheiro que poderiam ir para outros fins? Digamos que hipoteticamente (uma versão onírica dos fatos, que somente no mundo dos sonhos poderia ocorrer – no mundo dos sonhos às avessas…), os deputados e senadores resolvessem pagar do próprio bolso a copa (sim… nem no mundo do “faz de conta” isso é concebível), notaríamos os transtornos ou comemoraríamos a honra de dar a festa? Deixo claro que não estou condenando ninguém – se for o caso de haver alguém que se ofenda com tais especulações –, mas, sim, afirmando que não será fácil desbancá-los, pois, se fôssemos nós no lugar deles, não nos deixaríamos cair tão facilmente. Lutaríamos com as garras, como primatas furiosos, tal como eles vão fazer. Não é para salientar que seríamos eles, numa outra realidade, mas para passemos a pensar em modos de dar-lhes xeque-mate. Pois não se captura o rei, tampouco ele é suscetível a ser morto em batalha. Vencê-lo é deixá-lo sem saídas. As regras são as mesmas, visto que ele só cairá se não tiver para onde ir, modos de salvar-se de uma situação horrenda. Em outras palavras, se ele quiser.
       Noutros países, é cultural que um político, quando descobertas seus atos de corrupção, renuncie (ou se mate de uma vez). Nossos governantes são imunes a esse remorso. Mas, talvez, seja algo que neles possamos inculcar. De que modo? Vencendo-os em seu âmbito, mostrando-lhes incoerências no sistema e solicitando participação, ao passo que os cidadãos começarem a ter condições de participar. Um bom começo é exigir que saibamos o quanto de imposto embutido iremos pagar por cada produto (constaria nas informações da embalagem), além de exigir a máxima transparência quanto ao destino de todos os impostos. Ou seja: saberíamos o quanto pagaríamos de impostos por cada produto, por cada serviço público, além de que poderíamos ver quanto foi aplicado e no que foi aplicado, sendo que a menor diferença seria dívida do Estado para com a população. Piada, não é mesmo? O Estado dever dinheiro a seu povo é tão impossível quanto cidadãos legislarem. Pois eu nunca soube de alguém que, não tendo vínculo político, dignou-se a criar um projeto de lei e apresentá-la aos legisladores oficiais, para que estes a endossassem ou não. Quero crer que já houve alguém que fez tal “blasfêmia”, mas, ao menos, eu nunca soube. Então, supõe-se que, para ombrearmos com o governo, requerer dele o que desejamos de igual para igual (pois um governo não pode dever para outro, mas não há problema nenhum em dever para seu povo), temos que estabelecer uma aproximação e nos acercar dos assuntos, das artimanhas deles, de modo a poder desmoralizá-los quando não cumprirem seu dever ou desrespeitar nossa razão, nosso acordo social. Além do mais, nós querendo ou não, se os tiramos do poder, todos eles, quem assumirá em seu lugar? Porquanto, se cortamos uma cabeça da Hidra, nasce outra de igual valor. Ao cortarmos dez cabeças, dez semelhantes hão de nascer enquanto comemoramos. E assim continuará a ocorrer, sucessivamente. O jeito é criar armadilha para que, depois que tenhamos decepado uma cabeça, nasça morta a que lhe suceder e for réplica de todas as cabeças que arrancamos do monstro. A armadilha é nossa inteiração não apenas com os assuntos das políticas, mas com todos os assuntos humanos. Devem voltar os gênios poetas e matemáticos, filósofos e cientistas… devem retornar aqueles que podem vencer em argumentos, perante todo o país, aqueles que não são mais do que palhaços sorridentes, cujo uniforme não mais são as roupa coloridas, narizes de borracha e peruca, mas o terno e gravata (no final das contas, é tudo uniforme e isso não faz diferença).
            Se queremos protestar de modo que os atinja diretamente e obtenhamos resultados mais efetiva e rapidamente, sugiro que nos recusemos a pagar impostos, enquanto os mesmo não sejam baixados ou, até mesmo, abolidos dependendo do caso. Que poderão fazer se a maioria dos brasileiros se recusar a pagar impostos, que é provável que seja a maior fonte de renda dos políticos? Prenderão a todos? Darão brindes a quem pagar? E se deixarmos de assistir televisão (o que não deve ser um suplício, já que a programação que a mesma oferece é bestial)? Deixarmos de dar ibope às emissoras? Hão de prender-nos? E se exigíssemos uma programação com mais cultura, com mais nível? “Ah, mas daí vai ficar chato demais!” – deve ser o pensamento de muitos, entre os quais se vê manifestantes. Estamos mudando o Brasil…
            E, quem sabe, ao invés de boicotarmos apenas a copa do mundo (porque ela nos custará caro e a seleção está jogando pessimamente, não porque nos importávamos com os efeitos que a mesma causaria…), mas sim todos os campeonatos de futebol no Brasil? Deixar de assistir a eles na TV, de comparecer nos jogos, de sequer usar as camisetas correspondentes? Sim, fui cruel e exagerei. Pois o único prazer do brasileiro é o futebol e a mídia bem o sabe. Podemos viver sem TV, mas, sem futebol, definhamos mais rapidamente do que em tempos de seca e pobreza. Me perdoem, então, e voltemos aos banderaços, aos gritinhos, ao Carnaval de rua fora de época.
            … e estamos mudando o Brasil…     
Devemos ser certeiros ao se impor, não heróicos, nem crianças birrentas. Um dos efeitos colaterais desses protestos é que, provavelmente, o povo irá fazer protestos por qualquer coisa (pois descobriu que isso é possível e é tão legal!) e, cedo ou tarde, há de perder toda a credibilidade e tornar-se tão ignóbil quanto os seus “inimigos”. Já vi protestarem contra a proibição da venda de bebidas alcoólicas numa universidade! Também, deixemos de pensar que os policiais têm por obrigação juntar-se aos protestos, contrariando o vínculo que assumiram com Estado, primeiramente (pois é o Estado quem lhes paga, contrata ou demite). Se os policiais, por serem cidadãos também, resolverem aderir à causa dos manifestantes (e há quem diga que é melhor não possuir organização nos protestos), pondo em risco suas carreiras literalmente por 20 centavos (pois há quem vai recuperar esses 20 centavos e sossegar o rabo), tudo bem. Senão o fizerem, também tudo bem. Idem, se acaso se oporem aos protestos. A procedência dos não deve depender da liberdade de fazermos baderna, mas sim de falarmos o que devemos falar para quem achamos que deve nos ouvir, sem que prevaleça o panelaço, a gritaria cacofônica. Ou legitimaremos o que Voltaire escreveu: “quando o povo se põe a refletir, tudo está perdido…”
           
“Who watches the watchmen?[1]

            Não se pode saber se uma nova democracia resolverá todas as situações. Não sei se quem for avaliar os candidatos a eleitores, quem for lhes conceder habilitação, estará apto a ensinar valores e fundamentos para a construção de uma nova sociedade, mais próspera, mais viva e pensante, uma vez que nem as faculdades têm obtido êxito nesse quesito (ao que me parece, preocupam-se mais em podar as capacidades intelectuais de alunos com certos talentos do que moldá-los conforme seus talentos). Colaboram com o sistema, e não com um futuro que supere a realidade atual. Mas ainda abordarei o fascismo educacional em outro texto, pois o erro crucial também provém de quem está lutando contra o governo em favor da educação. São os mesmos, aliás, mas com uma roupagem mais nobre.
            Por fim, sugiro que incluam nos protestos (entre tantos outros itens) a redução drástica no preço do pão, já que o mesmo subiu drasticamente quando passou a ser vendido por quilo[2]; e que revejam a mudança ortográfica (notem que escrevi esse texto de acordo com a regra anterior como forma de protesto… hehe), pois, a meu ver, não foi mais do que mutilação desnecessária, como se nós, brasileiros, nós, contemporâneos, nós, terráqueos, mamíferos acéfalos dessa nova geração, já não mutilássemos o suficiente nossa língua e desprezássemos qualquer traço de genialidade, como fazem a maioria de nossos professores e “eruditos”, que amam a fama que dos gênios provém, não amando do que deles se gerou porque a modernidade é mais direta e simples. Ah, praticidade! Simplicidade! Afirmar que apenas o básico é necessário e que somente o simples é maravilhoso é detestar o que se ama! Mudar nossa língua a fim de sintetizá-la, prescindindo do estilo e arte, de nossa própria alma, é a forma mais rápida de matarmos o fulcro de nossa cultura, cujas raízes já se desfazem em nossas carcaças. E, depois de a língua ter apodrecido em nossas bocas, só nos resta descer o abismo da ignorância, da demência, num tobogã…
            Enfim… muito obrigado, libertadores da América! Heróis da geração coca-cola com mentos! Em razão de seus protestos sem organização ou representantes, sem idéias, apenas reclamações do que lhes é óbvio reclamar, vejo como o mundo pode ser belo e perfeito! Crianças no chiqueirinho não teriam agido tão bem em face à ausência de mamadeiras! Só espero que não recaíam na mesma falha de seus governantes: depois de anos olhando para frente, para frente, para frente, somente para frente, ao conseguir virar a cabeça para um lado, o torcicolo os impede de voltar-se para o outro.





[1] “Quem vigia os vigilantes”. Citação que consta em Watchmen. Graphic Novel de Alan Moore.

sábado, 25 de maio de 2013

Antropologia Cultural: um Estudo sobre Origens, Diferenças e Igualdades

"A natureza dos homens é sempre a mesma; seus hábitos são o que os diferenciam." Confúcio 

Um indivíduo é um universo; o microcosmo é um espelho do macrocosmo em que está inserido, pois este impõe condições e influências àquele, ainda que indiretamente e sem reconhecimento de ambas as partes. O contrário também ocorre, havendo indivíduos que não somente influenciam culturas, como igualmente as criam; mas essa repercussão é gerada de modo mais lento, porquanto é mais fácil o indivíduo ser assimilado pelas massas, na maioria das vezes, do que este converter a opinião de todos à força de sua opinião, criações e conceitos. Ainda que, à maneira de planetoides que se alinhamem órbita do astro que mais lhes chamou atenção, as pessoas se deixem absorver por tipo ou tipos de cultura, percebe-se similaridades em ambas as partes, ainda que não se igualem em proporções absolutas; e a inconsciente resistência de cada pessoa em manter sua individualidade, embora haja o intuito de incorporar-se aos grupos e gêneros culturais, como será visto no decorrer deste estudo.
Tal como a maior, a menor partícula cria e estabelece convenções a fim de prover, a si mesmo, meios de conduta, de alívio e sobrevivência. Pois, cada ser humano tem uma cultura própria, ainda que esta seja um apanhado de diversas outras culturas, o que acontece em maior escala também, visto que costumes, crenças e tradições surgiram a partir de outros costumes, crenças, etc. Sendo, então, o indivíduo um universo movendo-se entre universos, assimilando e criando, já é perceptível que são incontáveis as culturas estabelecidas pela humanidade, e não há estudos, por mais extensos e atenciosos que sejam, que possam abarcar as especificidades de tantas ramificações. Porém, neles são encontráveis traços em comum relacionados à origem, à fundamentação de estilos e hábitos, à comunicação entre elas (explícita ou não). E esses traços possibilitam um estudo filosófico e científico (metódico, talvez) da cultura como um todo, mas não de todas as culturas em si. 
Para termos uma melhor noção de como o mundo está variegado de culturas, basta olharmos em voltacom maior atenção. Não há local habitado sem resquícios de cultura e variações culturais. Se olhássemos a rua em que vivemos a fim de analisar suas peculiaridades e, logo depois, enquanto a impressão ainda estiver nítida, fizéssemos o mesmo com outras ruas, decerto encontraríamos diferenças entre elas. Diferenças de costume, de cultura, entre famílias ou grupos de famílias. Mais perceptíveis a “olho nu” são as nuances entre bairros, cidades, Estados, países, etc. Em empresas, geralmente, também é notória a diversidade entre suas políticas, como há diferenças em outras classes de grupos. E, menos evidentes, estão suas igualdades, ainda que estas se figurem em aspectos diferentes, como veremos mais a seguir.
A palavra “cultura” provém do latim “colere”, que primariamente significa cultivar, e tem por variações habitar, proteger, honrar com veneração. Mas, em seu sentido mais amplo, abarca toda a reminiscência das criações e hábitos humanos e os estabelece como uma espécie de instinto que, de certo modo, se adapta aos instintos originais, com os quais nascemos. O fato de usarmos roupas, morarmos em casas, nos alimentarmos com pratos e talheres, de nos comunicarmos em uma linguagem que edificamos, provêm de uma formação cultural. Também, a ciência de sabermos não somente cultivar plantações, a fim de obtermos o alimento desejado, mas também toda sorte de conhecimentos e tradições. Em suma,a cultura é tudo que os homens criaram e a que se condicionaram para estabelecer melhor coexistência com os demais seres da terra e consigo mesmos. Para viverem melhor. Engloba costumes, leis, artes, crenças e hábitos. Tudo o que foi criado e estabeleceu-se no coletivo.
A noção global de cultura é efetiva em razão de o ser humano não precisar reinventar conhecimentos para a melhoria de sua subsistência (lembrando que, neste caso, o termo “reinventar” refere-se à prática de trazer conhecimentos à nossa linguagem, e não de os criar essencialmente). Os conceitos da agricultura são milenares, por exemplo, e sofreram remodelagens no decorrer do tempo. Portanto, supõe-se que nunca foi preciso desenvolver, a cada geração extinta, todas as noções de agricultura novamente. Tal pressuposto serve de analogia para tudo quantoé proveniente das civilizações humanas; e, quanto a isso, é de se considerar as culturas ainda praticadas (como no caso da agricultura), as que são apenas rememoradas (mitologias, etc.) e outras tantas que se perderam na história do mundo.
Enfim, é esta a definição em maior escala, pois há vários gêneros de cultura, tendo estes um valor de utilidade, de fruição ou superstição.
Os gêneros do primeiro grupo têm função evidente na sociedade como a conhecemos. Seu propósito é a preservação de hábitos, juntamente ao uso de artefatos, essenciais aos homens de costumes que nos tornamos. A exemplo disso, temos o dinheiro, que, se por um lado não passa de papel impresso, por outro representa um método de troca mais prático em comparação àquele que era utilizado na antiguidade. E, embora o saibamos como uma convenção que acarreta diversos malefícios, se decidíssemosrenunciar a esse sistema, teríamos de sofrer uma severa readaptação, como ocorreria quanto às roupas, no caso de também as havermos renegado. Estranharíamos nossa própria nudez, ainda que levássemos menos tempo para nos acostumar a ela do que levamos para inventar as roupas e estabelecê-las como parte fundamental da sociedade como a conhecemos.O mesmo se dá com tantos outros exemplos, pois as sociedades estão arraigadas a paradigmas de cultura que nos parecem naturais por sua ilusória imprescindibilidade.   
Quanto à fruição, consideramos a literatura, a música, a pintura, entre outras artes, que têm a função de entreter, de aprofundar o que denominamos “alma”, mas por satisfação, não por imposição. Assim como as culturas de utilidade, de ordem, as culturas artísticas não são necessárias à vida, à existência do homem, da natureza, etc., mas sim à estabilidade do que nos tornamos quando tocados pelas artes. Tornamo-nos dependentes delas, como o uso de dinheiro e roupas nos tornou dependentes, pelo nível de pensamento, da expansão e articulação mental que a descoberta de tais criações nos proporcionou. Do enlevo que nos causa suas repetições. Mas, apesar de vir a tornar-se relativamente indispensável – e novamente dispensável, à força do costume e abstinência –, não é essencial à formação humana a cultura artística. Largamente, é citada a frase de Nietzsche “sem a música, a vida seria um erro”, com a qual, fora do contexto em que foi originada, concordo sob o viés de que nós também criamos a importância que lhe atribuímos. Pois, se não existisse música, pintura, etc., nem saberíamos o que são essas coisas e, portanto, delas não sentiríamos falta.
Por fim, ao grupo das superstições compete a tudo o que fazemos por uma “vontade em anexo” e não ao que o corpo realmente necessita para manter-se vivo ou, em muitos casos, a uma legítima fruição da mente. Isso vai desde os gestosmaquinais, os cumprimentos – o famoso aperto de mão –, até as tradições e crenças mais fervorosas.

“… Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Plácida, quando conversava não poder ver um sapato voltado para o ar.
– Que tem isso? perguntava-lhe eu.
– Faz mal, era a sua resposta.
Isto somente, esta única resposta, que valia para ela o livro dos sete selos. Faz mal. Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação, e ela contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia mesma cousa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.” Brás Cubas, Machado de Assis.

Não querendo incorrer em discordância com opiniões, mas sim exemplificar, cogito que a personalidade não é algo que já existe ao nascermos, que não provém de uma origem congênita ou espiritual. Suponho que as nossascaracterísticas pessoais se formem em parte por uma adequação – ou tentativa de adequação – às pessoas, eventos e ambientes que nos circundam, em parte por uma predisposição orgânica para certos hábitos e humores, em correspondência à estrutura metabólica de cada um. Enfim, há a hipótese de que nossa personalidaderepresente uma zona de conforto, talvez a maior que exista, da qual não podemos nos desvencilhar sem descambar em outra zona de conforto, independentemente se formos do tímido ao bravio ou vice-versa;é um posicionamentointerno em que nos firmamos para não expor o fluxo desordenado de nossos pensamentos e vontades e, sobretudo, para que coexistamos até com nós mesmos, pois, do contrário, não haveria entendimento. Seríamos polipolares e convicções não fariam sentido. Mas, de fato,isso não interessa a este estudo a não ser pela comparação.
De mesmo modo, as culturas de superstição têm por objetivo– ainda que nelas isso não seja notado– nos situar em relação ao lugar e condições em que vivemos e, sobretudo, às nossas próprias mentes. Considerando o desconhecimento dos homens quanto às verdades absolutas – não a sua inexistência –, ou, ao menos, a incapacidade de estes comprovarem um fato absoluto, e considerando também que nos movemos – ou procuramos nos mover – através do que sabemos, é necessário tomarmos para nósrelativas verdades para podermos caminhar, viver em meio a incógnitas sob o peso de razões. O mesmo se dá com certos hábitos que assumimos, como apertar as mãos ou desejar bom dia. Necessitamosde verdades, de exemplos, pontos de referência. Por consequência,tornam-se essenciais algumas práticas. Assim, quando cumprimos um acordo social, cultural, vemo-nos como parte de algo que funciona, e nos imbuímos da certeza de estarmos seguindo as regras, queimando o carvão da locomotiva do mundo; de estarmos nos integrando à normalidade da espécie e tendo aceitação. Como na hipótese da personalidade, éuma zona de conforto tais convenções, o jeito de percebermos algum chão onde pisar; e, também, representam boa parte de nossas alegrias, já que as tradições, geralmente, comportamesperanças e memórias agradáveis, ainda que se cumpra detalhadamente o mesmo ritual todos os anos, de modo a extrair o ineditismo e a mais completa naturalidade. Por estarmos agrilhoados a convenções, acostumados a sentir, a fruir através delas – porque aos nossos olhos só é proveitoso o que é planejado –, para a maioria o interessante é o roteiro, a “simpatia para dar sorte”. Homens e mulheres enchem-se de expectativasno Réveillon; de mesma feita, crianças exultam às vésperas de seu aniversário. 
Todavia, além das restrições que certezas supersticiosas podem acarretar ao raciocínio, em muitas culturas é “natural” que elas causem deformações, mutilações e, dependendo do caso, morte a seus adeptos. Ou, melhor, que elas incitem seus adeptos a se autoflagelarem e, em situações extremas, a destruir quem não entrou na brincadeira. Há incontáveis exemplos de deformações corporais que são impostas pela cultura. Deles, cito as mulheres-girafas da Tailândia, da que, ao completar 5 anos, colocam o primeiro aro de cobre no pescoço, sendo que outros vão sendo adicionados à medida que a mulher se desenvolve, podendo ela carregar, na maturidade, um peso de 10 a 20 kg. Ao contrário do que se imagina, esse processo não encomprida o pescoço, mas são os ombros que descem. Usam argolas também nos punhos e tornozelos no intuito de afiná-los. Há várias explicações quanto à origem dessa cultura, que, entre explicações espirituais, está o fato de os homens as terem tornado feias para que não fossem estupradas ou raptadas. Contraditoriamente, para tais homens, a beleza da mulher passou a ser medida pelo tamanho do pescoço. Segundo a reportagem do site “Vírus da Arte e Cia[1]”, quando se pergunta a qualquer uma das mulheres-girafas sobre o uso dos aros, obtém-se a seguinte resposta: “Uso todos estes aros, assim como minha mãe, minha avó e minha bisavó usavam, simplesmente para ficar mais bonita”. Enfim, atualmente há quem se recuse a tornar-se “girafa” e tal decisão é bem aceita, já que os homens têm demonstrado interesse por mulheres de pescoço normal por considerá-las modernas,enquanto a injunção do uso só ocorre por parte de algumas mães que se preocupam com o futuro das filhas, sendo o pescoço comprido para elas uma forma de ganhar dinheiro e comprar comida.
Nas Mauritânia, por outro lado, há a imposição cultural do ganho estético entre as mulheres, pois, num país onde a pobreza predomina, são mais atraentes as que têm mais peso. Quanto mais obesa for, melhor. Elas tornam-se incapacitadas de até caminhar e contraem toda sorte de doenças referentes à obesidade (hipertensão, diabetes, etc.), porque só assim poderão arranjar marido. É uma prova de amor entre os habitantes de Mauritânia e um sinal de que a família da futura esposa tem dinheiro. Apesar de haver meninas que se recusam a engordar pelo medo de ficarem incapacitadas, são obrigadas pelas mães e demais mulheres.
Os exemplos são inúmeros de modificações corpóreas em razão de convenções. Nossos hábitos de utilidade também inferem em nossos organismos, mesmo que não percebamos essa mudança e desconheçamos sua origem. O corpo humano sofre e gera impulsos, como qualquer organismo vivo gera, os quais, quando refreados por algum acordo social, acarretam alguma espécie de efeito colateral, de acomodação. O corpo conhece apenas a linguagem do “sim”; e, quando não atinge o objeto de seu desejo, deságua-se de outra forma, não debela-se. Obviamente, não faço apologia a uma entrega incondicional ao instinto, mas apenas procuro demonstrar que os hábitos sociais que já nos são inerentes também causam-nos consequências quase do mesmo modo que as argolas das mulheres-girafas.
Para todas as mudanças culturais, o corpo encontra resposta; mas, obviamente, não para a morte. E muitas são as culturas que causaram mortes por causa de convenções, de superstições, como punição para “crimes” que são naturais – ainda são naturais – e, portanto, comuns em toda a natureza e seu “assimétrico equilíbrio”. Evidências são abundantes, como podemos perceber em algumas culturas orientais, em que se condena à morte o adultério, o homossexualismo, etc., por exemplo. Na antiguidade, era passível de ser morto quem não acreditasse que Poseidon movia as ondas marítimas. E é de se espantar que, na atualidade, ainda há práticas similares. É como se há 3 mil anos tivesse sido estipulado que, ao se encontrarem, amigos dariam as mãos para simbolizar sua amizade… e 3 mil anos depois, guerras e genocídios estariam ocorrendo porque alguém não concedeu um aperto de mão quando deveria. Logicamente, não há diferença em iniciar uma guerra por causa de um aperto de mão ou dos ditames de Poseidon. E os motivos pelos quais os homens destroem uns aos outros ainda são mais ridículos quando há o conceito “Grêmio e Inter”. O Etnocentrismo.

Por acaso, sabem apontar a diferença do vermelho para o azul? Pois bem, eu não. Também não sei a diferença entre países, cidades e estádios de futebol. Se eu houvesse nascido na Inglaterra, seria um inglês convicto; na Bolívia, um boliviano convicto, etc., etc…”

Etnocentrismo, segundo Everaldo Rocha, “é uma visão do mundo em que o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nosso modelos, nossas definições do que é existência” (ROCHA, p.7, 1994). Em outra definição do autor, “o grupo do ‘eu’ faz, então, da sua visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor,a natural, a superior, a certa. O grupo do ‘outro’ fica, nessa lógica, como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível.” (idem, p. 9). Pensar que nossos hábitos, preferências, jeito de se vestir, nossas fruições e superstições, são superiores, únicos, é pensar como uma criança que, até certa idade, vê a si mesma como o centro do universo. O mundo e todas as coisas existem porque esta criança existe, mesmo que esta não tenha apresentado motivos legítimos (aqueles que não podemos provar com a racionalidade) para ser o “escolhido” e existam tantas outras criança semelhantes. Tudo gira ao redor dessa criança e todas as coisas boas e títulos de grandeza já lhe pertencem, assim como todos os olhares de adoração; eis a ilusão máxima de nossas infâncias. E comparo um coletivo inteiro – todos eles, aliás – com uma criança, um indivíduo, pois, como foi dito no começo deste estudo, não há diferenças ou igualdades entre eles: ambos se compõem por características, as quais têm as mesmas finalidades. Porém, sendo os grupos uma junção de opiniões provindas de outras opiniões, e outras opiniões… e outras, e outras; e, sendo que nossos pensamentos sofrem uma redução a serem guardados, transcritos, ao serem transpostos para o coletivo passam por outra redução. É como brincar de telefone sem fim com centenas de surdos: o que é dito no começo passa por severa redução até que o último se pronuncie. E, mesmo que se acrescente opiniões ao caldo principal, ainda assim tratam-se de outras reduções. Por isso, há a inconsciente resistência de nos integrarmos a grupos, pois, de fato, nunca pertenceremos a um conjunto, a uma cultura, como queremos ou imaginamos pertencer.  
E, quanto a ser absurda a ideia de comparar um gigante (o coletivo) com uma de suas células (o indivíduo) e dizer que esta é mais autêntica do que aquele, é mesmo que comparar um ser humano com uma mosca e descobrir que ambos possuem características, algumas mais fortes e internalizadas do que outras; e que se é para estabelecer comparação, é preciso saber que a mosca é biologicamente mais evoluída do que o homem. Muito mais evoluída, assim como diversos outros insetos (senão todos eles). Então, sendo as culturas separadas por características e atreladas por finalidades, tendo elas importâncias relativas – nada tem valor contanto que não lhe atribuamos valor, nem a beleza, como foi visto no caso das mulheres-girafas –, onde enfim está a superioridade entre elas? No final das contas, é tudo Grêmio e Inter.



quinta-feira, 16 de maio de 2013

PROÍBAM OS LIVROS!


Deveria ser a lei máxima tal proibição, o primeiro dos mandamentos. Livros deveriam ser repelidos da nova sociedade, que ainda está em formação e não requer influências literárias. Apenas o específico lhe interessa.

Deveriam os livros ser proibidos, como se fossem drogas, mas com maior severidade por parte da lei. Pois os mundos que estão nos livros, ao serem tocados, causam efeitos colaterais de maiores intensidade e dependência. Deixam-nos instáveis. Sobre-humanos.

Deveriam ser proibidos, principalmente, porque não são todos que estão preparados para ouvir o que os livros têm para contar. Não são todos que podem abarcar imensidões, destacar-se entre os seres pensantes. Não é tarefa para todos, nem sequer para a maioria. Então, que sejamos democráticos.

A sociedade moderna é prática e objetiva. Proscreve almas complexas. Assim, é mister desprover a leitura da população, que, ao que tudo indica, não necessita de gênios e, sim, de políticos e de opressão. Liberdade soa terrível demais, quando não se torna a pior das dependências. Com ela, tornamo-nos fruição para nós mesmos, e isso é prejudicial ao progresso, visto que deixamos de ser engrenagens a sistemas monocromáticos e sem vida. Deixamos de ser frutos caídos que os insetos devoram. Passamos a ter um pensamento que é tão gigantesco quanto o conjunto de todas as existências. Muta-se enquanto caminha; assimila formas e outras vai criando. E isso não é bom para o progresso de mundos artificiais.   

Devem ser proibidos, principalmente, porque só assim serão lidos. É da natureza humana essa ânsia de querer o que não lhe é permitido, seja para seu bem ou mal… Bruxo de Cosme Velho estava certo. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O Pesadelo Acadêmico...


Eis o pesadelo acadêmico, o horror de grande parte dos estudantes e, atrevo-me a dizer, de muitos professores e profissionais que dependem de tal prática: o escrever!
Por mais incrível que pareça, é frequente e notória a dificuldade de o brasileiro familiarizar-se com o próprio idioma, que, se um por um lado é um tanto complexo, por outro é belíssimo. E beleza é o que tanto faz falta a esta realidade em que vivemos, tão cheia de métodos e tão parca de alma, sendo este um dos motivos pelos quais existe a dificuldade em escrever, como veremos a seguir. Antes, quero esclarecer que não é por causa da complexidade e dos diversos caminhos de nossa língua – nos quais nos perdemos – que a maioria das pessoas tem dificuldade ao expressar-se com palavras ditas ou escritas, mas sim por uma questão bem simples: falta-lhes maior intimidade com a própria mente. Isso mesmo: muitas pessoas não têm intimidade com seus mecanismos mentais, embora jamais parem de pensar.
“Conhece-te a ti mesmo” poderia ser, neste caso, “conheça teus pensamentos, flerte com eles”. Sim, flertar. Para exemplificar melhor, existe o termo flâneur, que provém do francês, e sendo uma derivação do verbo flâner, o qual significa “para passear”, flâneur significa “vadio”, “vagabundo”. E é justamente disso que precisamos – de uma boa vadiagem.

           
“Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade… observando uma lâmina de grama do verão.” Walt Whitman, Canção de Mim Mesmo.


“Mas como tornar-se um vadio pode fazer com que melhoremos na escrita, se nos foi ensinado desde sempre que o esforço é a melhor maneira de se atingir um objetivo? Não nos estagnaríamos com essa atitude e, portanto, além de deixarmos de adquirir novos conhecimentos, ficaríamos mentalmente sedentários, desacostumados à aprendizagem?” Obviamente, perguntas desse gênero devem ter surgido quando afirmei que vadiar é um meio eficaz de aprender e aperfeiçoar a escrita. Mas o caso é que me refiro a outro tipo de vadiagem, a qual possibilitou (e instigou) a Whitman escrever Folhas de Relva (livro de poemas em que mais se encontra vida do que palavras). O mesmo ocorreu com outros escritores grandiosos, que somente puderam compor suas obras com tal nível intelectual e criativo porque, simplesmente, eram uns baita de uns vadios. Aliás, todo escritor que se fez merecedor de tal alcunha era um vadio, mas não na acepção vulgar e trivial da palavra. Não desocupados ou inativos, bem pelo contrário.
 Voltando ao termo flâneur, o poeta Charles Baulaire lhe atribuiu o significado de “andar pela cidade a fim de experimentá-la[1]”. E eis a analogia a respeito do que proponho para que se escreva com mais criatividade e qualidade: flanar (versão para português do verbo flâner) em seus próprios pensamentos a fim de experimentar-se, de aprofundar e estender capacidades, como se estivéssemos a caminhar num jardim mutável, cujas flores, árvores, céus e palácios estão lá e assumem formas e cores por nosso arbítrio.
Quem de nós não tem sonhos? Um senso de beleza que lhe apraz? Uma necessidade de criar menor ou maior em proporção à de assimilar? O crítico norte-americano Harold Bloom afirma que todo bom pensamento depende da memória, e que esta, por sua vez, é dependente da leitura quanto à abrangência e intensidade. De preferência, de livros tidos como clássicos, os quais apresentam a refinada essência de um pensamento que, através de si próprio, pôde aperfeiçoar e recriar-se. Flanar na própria existência. E eis o ponto: pensar bem para escrever bem. Não quero destituir do ato de ler sua importância, mas o caso é que, se não pensarmos antes, durante e, sobretudo, depois de cada leitura, não surtirá efeito nosso esforço; também, se não tivermos exercitado a mente, experimentado-a, dificilmente ela poderá aproximar-se da significância e do prazer de naufragar num bom livro. O mesmo se dá com o ato de escrever, que não é o reflexo de nossos pensamentos, por certo, mas sim o reflexo da importância que damos a eles; pois, se não colocamos no papel o que pensamos por certa inibição ou falta de intimidade, por outro lado deixamos de fazê-lo por não havermos demonstrado vontade. Isso é o mesmo que, tendo nós pernas e braços saudáveis, preferíssemos ficar deitados a vida inteira.
Mas, obviamente, não é uma metáfora perfeita, pois o mover arbitrário do corpo nos é acessível desde as tenras idades – o que não ocorre com o pensamento. Ou, melhor, com a arbitrariedade do pensamento, da criatividade, visto que a mente há de criar e mover-se, com ou sem o nosso comando. Nosso intuito em unir razão e imaginação. Há uma barreira disforme entre o ser e o pensar, ainda que ambos habitem a mesma “casca”. Diminuir a proximidade entre o eu e o pensar é a modo natural de desenvolver a escrita.
E a melhor maneira de fazer isso é pensar fora da esfera das próprias convenções, valendo-se da memória, da recordação, e dos próprios voos, sejam eles desengonçados ou majestosos. Pensar sobre o mundo, sobre a rua em que vivemos, o tempo e o vento, o pátio que já decoramos, sobre política, sobre arte, sobre todas as certezas que temos, as dúvidas que nos escapam, abanando no horizonte, após terem deixado migalhas de pão pelo caminho. Tudo é tema para reflexão e um assunto para se escrever. Logo, formamos uma galeria de opiniões e tanto podemos como devemos transpô-las para o papel. E, então, o idioma que parecia tão complexo e desnecessário, passar a afigurar-se em outro aspecto, pois passamos a valorizar também a maneira de nos expressar.
Passamos a procurar novas formas de expressão, de sintaxe, de semântica, sinônimos, figuras de linguagem e palavras. Palavras cuja existência e uso desconhecíamos ou ignorávamos. Acentuar uma palavra será como compor uma música, e não mera obrigação; e como artistas haveremos de sentir ao adaptar a torrente de ideias, nascidas de voos cada vez mais altos, à linguagem dos livros. Perante nós se descortinarão belezas até então desprezadas. O idioma, outrora tão temível e impenetrável, ressurge como um aliado. E, além de tudo, de um modo ou de outro, será ampliada a aprendizagem em relação às demais áreas, visto que o processo – e não o conteúdo, nesse caso – influirá diretamente. Teremos maior bagagem de mundo – e de introspecção –, mais conhecimentos e autoconhecimentos; sobretudo, teremos diversas fórmulas de como abarcar novas estruturas de ideias e conceitos, sendo este o melhor efeito colateral da arte de criar, de flanar no mundo, em nós mesmos. 

         

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Tem Algo a Ensinar...


Tem algo a ensinar aquele que nos dirá o que jamais poderemos aprender por nós mesmos.
            Nem se refletíssemos por uma vida inteira, visto que a genialidade não se dá através da persistência, dos estudos, mas sim de uma ruptura de consciência, que pode ocorrer ou não, independentemente de quão árduas forem nossas tentativa em alcançar o patamar dos gênios.
            Portanto, o verdadeiro educador é quem provoca abismos com uma quebrança de atmosferas, de articulações e juntas empedradas, em quem ele deseja educar.
            Pois ensinar o que é restrito e dizível por tantos outros não é ensinar.
        Tal como o autor a criar o que já foi criado, mesmo que em outra linguagem e estrutura e significâncias, mesmo que prolífico nada pôde criar.
            Mil odes; duas mil páginas; dez mil novas bíblias podem não condizer a uma sílaba de originalidade.
            Em contrapartida, uma fração de texto, por menor que seja, pode aproximar – e não conter – abismos infinitos.
            O mesmo se dá com a arte de ensinar, que compete somente aos que podem fender o tempo… rasgar mentalidades que, ao reconstruírem-se, hão de fazer o mesmo com outras mentalidades.            
Ensinar é apresentar o absurdo, o inaudito; expor o que não é novo e edificante ou desconstrutivo ao mundo é nele gravar o que já lhe pertence… embora sirva para que não percamos informações, isso ainda não é ensinar.
Plasmar conhecimento, copiar ideias para repassá-las a quem ainda está nascendo – não mais que isso.
Destarte, há somente transmissão de conhecimento quando há educadores e não o grande educador.
Outrossim, quando há alunos que esperam ser ensinados e os que são pais de si mesmo.    
Obviamente, os alunos do educador a quem me refiro têm semelhante especificidade: movem-se empiricamente, tudo assimilando e convertendo. 
São aqueles que têm propensão de receber a fratura psicológica que o grande educador há de lhes causar.
E continuar a mover-se, enquanto se reconstroem e criam caminhos a um só tempo.  
Eles são o próprio caminho.
São esses alunos que perscrutam vastidões pela vontade irrefreável de os conhecer, que se antecipam e evoluem antes de o mestre causar-lhes rupturas de consciência, como se já as esperassem.
Como se já estivessem a esperar por elas, como se soubessem que logo elas chegariam. 
Já estão prontos para recebê-las, para internalizá-las em um novo contexto; e, caminhando desse modo, após terem sido feridos por uma razão superior, hão de ensinar o mestre.
E outros gênios perfarão mundos.