domingo, 9 de dezembro de 2012

Ligações Perigosas – Impecabilidade na literatura e cinema!



           Li, recentemente, o livro “Ligações Perigosas”, de Pierre Choderlos de Laclos; e, mais recentemente, vi um dos filmes baseados na obra, de 1988, de Stephen Frears: em ambos os casos, o deleite e a arte chegaram a níveis estratosféricos. O primeiro, profundíssimo, extremamente bem escrito e dotado de uma beleza linguística e contextual encontrável em raríssimas obras, é constituído pela troca de cartas entre os personagens, nas quais são descritos acontecimentos que datam de 3 de agosto de 17** a 14 de janeiro de 17** (em seis meses se vai da inocência à tragédia, e da reputação inexpugnável ao escândalo mais temível que a morte). Sobretudo, as tramas ocultas do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, os dois vilões – os protagonistas –, amantes em outrora, que desejam, unicamente à força do prazer, corromper e desgraçar a tudo e a todos com o máximo de perícia e sutilezas. São a própria consciência da perversidade, que age sem ser percebida. Altamente versáteis em comprazer e enganar, formam os únicos personagem dotados de alma, como Harold Bloom afirma quanto a Hamlet e outros personagens Shakespeare, que, apesar de se constituírem de palavras somente, têm mais vida do que seres de carne e osso. Tudo o que lhes circunda não passa de “sombras que caminham”. Aliás, é como se os personagens de Shakespeare estivessem a trocar missivas e a conspirar, já que os enredos das obras dele são puramente conspirações. Além disso, supondo que tenha sido ele quem ensinou Dostoievski a argumentar de forma tão profunda e irrespondível, foi Shakespeare quem mostrou à literatura que os vilões – e glutões – podem ter mais alma do que qualquer virtude ou benéfico heroísmo, como se vê na peça Otelo, cujo vilão é maior do que o guerreiro mouro que dá título a ela. Laclos apropriou-se desses “ensinamentos” magistralmente, levando suas duas criações perversas e perfeitas à volúpia do desastre, da autodestruição, igual a todos os personagens maiores que o mundo em que foram concebidas. Visconde de Valmond, em dado momento, diz à sua bela amiga: “…sou levado a crer que só há nós dois neste mundo valendo algum coisa” (pag. 190). Acertou o amante inescrupuloso, pois, ao bom leitor literário, pouco importa se é virtuoso ou não o personagem: importa-lhe se tem vida além da própria vida. Moralidades estão à porta da literatura, como um capacho para esfregarmos os sapatos antes de entrarmos. Ademais, para criar uma perversidade tão sublime e intrigante, Laclos foi um sensibilíssimo conhecedor das relações sociais – assim as pôde depravar com toda a ênfase – e da guerra sem tréguas entre razão e desejos. Em sua obra que dispensa explicitude (superando em tais condições o erotismo sujo e sem profundidade de hoje, assim como os escritos do Marques de Sade), ele conseguiu não somente trazer à tona a perversidade do ser humano como, também, exercitá-la a seu bel-prazer. Como um militar tão envolvido em seus assuntos bélicos – consolidou sua reputação nessa área e não com seus escritos, se não considerarmos Relações Perigosas - possuía tamanha sensibilidade para as coisas do amor e do instinto? Se adentrarmos essa questão, teremos de trazer um tropel de mistérios que provém dos gênios. Deixemo-la, por ora. 
            Bom, do livro ao filme – pois, se nos ativermos à obra literária, precisaremos escrever outro livro apenas para comentá-la, assim como se dá com toda grandiosa criação – faz jus à sua fonte de origem a começar pela trilha sonora orquestrada – operística, em dados momentos –, que remete à grandeza da época. A fotografia, os cenários e, principalmente, os figurinos ficaram adequados à construção da sociedade burguesa – e internamente podre – de Laclos. Contudo, a escolha do elenco foi primordial: nos papéis mais bobinhos, dos personagens manipuláveis e sem sal, cumpriram bem o encargo; quanto aos papéis que realmente interessam – os vilões belamente cínicos – foram representados brilhantemente por John Malkovitch e Glenn Close. Além de terem conseguido retratar fielmente o sarcasmo e a riqueza de personalidade e a eloquência do Visconde e Marquesa (estes que são a personificação masculina e feminina do charme e elegância), sua pronúncia é impecável. Musicalidade poética em cada fala… em cada expressão ou aparência de intentos. Afirmo com constância que o mal do cinema moderno são os diálogos, quase sempre mal elaborados, tangendo o ridículo e a incipiência escolar. Também, há a este senão acrescesse a falta de pronúncia. A voz não ecoa como se fosse um instrumento musical – não há fluidez nas palavras. Nem o deleite em pronunciá-las. Interpretar deixou de ser o mérito dos grandes para tornar-se hábito corriqueiro das gralhas e papagaios.
            Outro detalhe importante é a interpretação do roteirista e do diretor, que atribuíram à trama de Choderlos cenas que não destoaram da proposta, mas sim a intensificaram. Não que o filme supere o livro – nem perto –, mas, em certos casos, é essencial a um projeto pretensioso o olhar do diretor sobre a obra, o que pode sua imaginação e abrangência atribuir à mesma – e não somente colar as falas dos personagens e suas ações na película. Akira Kurosawa não superou Shakespeare em criações, apesar de ter sido um diretor extraordinário; mas criou versões das peças “Rei Lear” e Macbeth”, intituladas respectivamente de “Ran” (“Os Senhores da Guerra – 1985) e "Kumonosu-jo" (“Trono Manchado de Sangue” – 1957) , sobre as quais se pode dizer que não decepcionariam Shakespeare. E creio que a realização de 1988  não decepcionaria Laclos, assim como a performance poderosa de John Malkovicth e Glenn Close, cujos personagens, por si só, já constituem todo o filme – os demais não passam de seus títeres, como o Visconde de Valmont relata no final, quando as ligações perigosas tornam-se mortais.






Diálogo entre o Visconte e Valmont e a Marquesa de Merteuil:
V: Não sei como inventou a si própria.
M: Eu não tive escolha. Sou uma mulher. Mulheres têm de ser mais hábeis que os homens. Vocês podem arruinar nossas vidas com palavras galantes. Assim, não apenas me inventei como também meios de fuga jamais imaginados. E obtive êxito porque sempre que soube que nasci para dominar o seu sexo e vingar o meu.
V: Sim, mas perguntei como.
M: Quando entrei na sociedade, aos 15 anos, já sabia que o papel ao qual eu estava condenada (o de permanecer em silêncio e o de obedecer) dar-me-ia a perfeita chance de ouvir e observar. Não o que os outros diziam, que nada de interessante tinha, mas o que as pessoas tentavam esconder. Pratiquei o distanciamento. Aprendi a parecer alegre enquanto me espetavam com o garfo debaixo da mesa. Tornei-me uma virtuose do engodo. Não buscava prazer, mas, sim, conhecimentos. Consultei um moralista para aprender como me portar. Filósofos, para saber o que pensar. E escritores, para saber do que ficar impune. Resumi tudo a um princípio maravilhosamente simples: vencer ou morrer.
V: Então é infalível?
M: Se quero um homem, conquisto-o. Se ele quiser divulgar, não consegue. É esta a história.
V: Foi a nossa história?
M: Eu o quis antes de nos conhecermos. Minha autoestima o exigia. Quando começou a me cortejar desejava-o demais. A única vez em que fui controlada por meus desejos. Um duelo interior.


Diálogo entre a Marquesa de Merteuil e Cécile Volanges:
M: Quer realmente o meu conselho?
C: Por favor.
M: Deixe que o senhor de Valmont prossiga com sua instrução. Convença sua mãe de que esqueceu Danceny. E não se oponha ao casamento.
C: Com o senhor de Bastite?
M: No casamento “um homem é tão bom quanto o outro”, e o menos complacente é melhor do que a mãe.
C: … está dizendo que devo fazer “aquilo” com três homens diferentes?
M: Estou dizendo, menina tola, que tomando precauções, pode fazer ou não com quantos quiser, da maneira que quiser. Nosso sexo tem poucas vantagens. Aproveite-as.

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