quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Prática e Genialidade: duas coisas bem diferentes...



            Antes de iniciar esse texto, quero esclarecer que, assim como em todos os outros, não efetuei pesquisas ao fazê-lo a não ser as que me vieram prontas – lidas no “livro do mundo” e, ocasional e indiretamente, nos livros literários. Não fiz um estudo específico, embora o assunto em questão me inspire a vontade de ler outras opiniões e conceitos relacionados a tal assunto – os quais não imagino encontrar tão facilmente em razão de sempre ser preconizado, em quase toda a parte, o oposto do que direi. Sei-me suscetível a críticas por causa disso, mas espero que elas ocorram após a leitura do texto (ainda pretendo advogar em meu favor no decorrer do mesmo)
            Pois bem: confunde-se, muitas vezes, o ganho de experiência com o ganho de capacidades, de traços de genialidade, pois, segundo o pensamento popular “quem acredita sempre alcança” e que “a prática leva à perfeição”. Por vezes, se vê que são falhas essas duas crenças, já que, quanto à primeira, é notório que nem sempre o que acreditamos se realiza e nem é forçoso que se realize (nenhum objetivo é maior do que nós, como já afirmei noutros textos). E mesmo que nascêssemos exclusivamente para realizar sonhos (cada vez mais estou propenso a pensar que não), vemos que isso não acontece com todos (perdoai-me, adoradores de “O Segredo”), pois, se alguém passa fome por muito tempo – dias e dias –, obviamente, seu sonho será alimentar-se o quanto antes e com abundância. E isso não acontecesse com as crianças africanas, por exemplo, por quem a natureza, o mundo, o universo, não se comove a ponto de dar-lhe o que é implorado, primordialmente, pelo corpo, de onde provêm os desejos da psique, da consciência – chamem como quiser. Então, se nem em casos de extrema indigência, em que uma cesta básica já daria jeito, o que podemos dizer das superfluidades que tomamos como “sonhos”? Além do mais, é somente após a conclusão das nossas ânsias que poderemos afirmar que temos vida? Nada mais a declarar quanto a isso. 
             Quanto à segunda crença popular de que o esforço leva à perfeição, afirmo (e muitos hão de discordar) que não é a prática e sim a visão de um indivíduo que gera a perfeição… a genialidade. No âmbito científico, por certo, a visão está aliada ao esforço, à tenacidade obsessiva, mas também a um raciocínio compatível às descobertas por ele efetuadas, que, em um processo altamente árduo, demorado e dispendioso, podem ou não ocorrer. No âmbito da arte (a que me refiro neste texto), é somente visão e imaginação que são cruciais; a experiência pode e deve auxiliá-las na condição de ferramenta que, de modo algum, será fundamental na formação de um gênio artístico cujas obras hão de transcender o padrão de originalidade de sua época. Tantos autores supremos, pensadores extraordinários, que não leram ou viveram mais que muitos mestres e doutores em filosofia que ainda nos devem trabalhos a contento. Assim como há diferença entre conhecimento e sabedoria, conhecer tudo que o mundo já criou tão somente não fará ninguém brilhante. Não é a experiência e sim uma abertura de consciência a transcender suas percepções que gerará o Artista, o Gênio.
            Arthur Schopenhaurer, em seu livro “A Arte de Escrever”, diz-nos que ler demais é prejudicial à criação de pensamentos próprios e, portanto, ao desenvolvimento de um escritor que mereça ser lido e relido. É de se concordar que, na absurda profusão de boas coisas que é encontrável nos livros clássicos, que cedamos à tentação a ponto de nos perdermos e não mais nos achar. Pode acontecer a quem mergulha a desvendar mares profundíssimos, assim como quando condicionamos nossa mente a um esforço demasiado intenso em que, simultaneamente, a expande para o armazenamento de informações e a restringe quanto a suas considerações externas. Ou seja, quem anda até a exaustão num único caminho, acaba por perder-se nele. Assim é quanto às Faculdades: à força de gravarmos na mente todos os conhecimentos de uma área específica, muitas vezes acabamos por absorvê-los e tomá-los por norte, consciente ou inconscientemente. Não conseguimos nos desassociar do que aprendemos. Por certo, não sou suicida (e hipócrita) a ponto de afirmar que não se deva estudar, sendo o conhecimento uma ferramenta valiosa à Arte (se nos restrinjamos a este âmbito). Além de que, para abranger com mais força a essência das áreas artísticas, se faz necessária uma consciência recriadora – e não apenas estática aprendizagem – para que se possa caminhar junto com o autor, não apenas lhes contemplar seu cadáver feito de palavras. Pois muitos são os que decoraram textos, passaram com mérito num curso importantíssimo… e não sabem caminhar dentro das próprias especificidades. Falta-lhes um ganho de visão que há de suscitar da própria mente por si só. Ver além não é mesmo que “aprender a aprender”. O problema não é a incapacidade de virar a cabeça e olhar os arredores… é não poder movê-la, depois disso, uma segunda ou terceira vez.
            Talvez... aprender demais seja um erro se isso significar uma expansão defeituosa da mente… algo que nos petrifica em vez de nos dar subsídios a uma elevação genuinamente própria e transcendental. Mas, claro, que tal comentário me condena à morte – sim, o meu caso é indefensável! Levem-me à forca o quanto antes, pois sou o maior dos culpados – e o mais temível… aquele que observa… 


"We don't need no education
We don't need no thought control" – Pink Floyd

Farelos de pensamentos... conceitos da Arte!

Sobras do artigo que fiz para um simpósio (o qual logo publicarei aqui também), que é mais uma definição do que é arte, a meu ver:

“Contrapondo-se ao juízo de todas as escolas e instituições que prezavam o ensino (embora houve sido corroborado por muitos pensadores), Oscar Wilde afirmara que a arte é inútil… a arte que sobrepõe todas as demais criações pelo seu caráter devastador. De fato, o autor irlandês quem também afirmou que “… O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo…” não estava errado. À subsistência de um grupo de indivíduos não convém o que é sublime, mas sim o que lhe dará subsídios em curto e longo prazo (logicamente, como decorrer dos séculos, assim como o nosso conceito artístico, essa noção de necessidade foi-se avolumando – e, em muitos casos, incorporando o que era desnecessário e mais cômodo, sustendo-se ela por meio de trivialidades). Junto com a mutável noção do que nos é preciso à vida, veio-nos a ideia, estabelecida quase que atavicamente, de que um homem de valor é quem possuí mais conhecimentos e maior abrangência mental no que condiz à sabedoria, que é a superação do homem quanto à natureza… ou melhor, a aprofundamento máximo do homem em sua linguagem à qual a natureza é alheia. Mas, ainda que sim, a literatura, os pináculos da arte, ainda são inúteis, pois o ser humano pode sobreviver sem cultura, pois corpo não a requer para manter-se ativo; porém, em Otelo, de Shakespeare (ANO 1603), Iago diz a Rodrigo, seu comparsa e “marionete”: “… os olhos dela [de Desdêmona] devem ser alimentados…”, sugerindo que ela não suportaria permanecer ao lado de Otelo em razão da fealdade do mesmo, havendo de procurar quem lhe ampliasse a imaginação, tal como uma necessidade fisiológica… como também precisamos. “Os olhos devem ser alimentados” porquanto, de um modo ou de outro, em razão de uma vontade orgânica haveremos de exercitar a imaginação, cuja expansão (ou origem) se propiciou irreversivelmente pelo acúmulo de experiências do homem primitivo e mantêm-se, no mínimo das hipóteses, em estado de latência (logicamente, em maior ou menor proporção, dependendo do organismo de cada indivíduo e suas propensões).  
Devido a essa reação involuntária – o imaginar –, ao que deixamos de articular o que desponta no cérebro humano, perdemos o controle de nossa criatividade, dos caminhos os quais percorrerá, e nascem as superstições (e seus efeitos estagnantes), além da ocorrência uma espécie de atrofiamento mental. Imagino que a “segunda infância” – a senilidade em seu nível mais absurdo –, se não for afetada a saúde  mental por outros fatores, seja causada pelo paroxismo desse atrofiamento. Enfim, de fato a arte tem relativa importância à existência humana, mantendo-nos mentalmente (e talvez fisicamente) sadios; outrossim, é o deleite máximo que o ser humano pode assumir (maior do que a própria vida, como já ouvi muitos outros “escudeiros de Dom Quixote” dizerem) em virtude das imensidões que ela pode representar e moldar sem sê-las… fazer de nós, a um só tempo, nossos nortes e perdições. E, ao considerarmos importante a sabedoria à vivência, invoco novamente algumas palavras do crítico Harold Bloom, cedidas à reavista Veja, em 31 de janeiro de 2001: “Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural. […] Eu diria que uma democracia depende de pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler”.
Mesmo ciente do pecado mortal que é citar a si mesmo, cometo-o aqui para desfechar essa parte (aliás, pretendo me citar mais algumas vezes no decorrer do trabalho. Então, em razão de tal abuso, já estou absolvido ou já condenado ao mais profundo círculo do inferno…):

… Que de tudo resguardai em peito vosso fôlego e sensatez,
Para que tenhais de vós relevância a mais; pois, se nosso
 Júbilo é tão fugidio, e nossos pensamentos por alvedrio feitos,
Façamos de nossas mentes fortalezas a nossos defeitos.
(Livro “Fim de Toda Existência Prelúdio do Fim e Outros Escritos”, Pág. 211, ano 2011.)
A Arte é como se fosse uma criatura inaudita que avistamos de longe, em seu habitat, e cuja aparência, sem nada exprimir, natural e intocada, causa-nos o desconforto de como se estivéssemos diante de uma esfinge sedenta, pronta a nos devorar caso não a decifremos, embora palavras não sejam suficientes para expressar tamanha grandiosidade, tanto enlevo e inquietude interior. Paralisados, sem emitir som algum, somos devorados por aquela visão distante. Nômade. Essa sensação de desamparo, de estupor, da total quebra de preceitos – como se a terra sobre a qual caminhamos toda uma vida se abrisse em fendas e erupções vulcânicas, enquanto o céu se expande vertiginosamente – representa o contato com a verdadeira arte… com a tal criatura inaudita. Como disse Franz Kafka “Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós…”
Ler, planar junto à melodia de uma música, quebrar-se ao ver uma estátua ou pintura, é a escapatória de mentes que não cabem no mundo. Mas, então, sendo a arte uma fuga da vida para a própria vida, como poderia ela fugir de algo que não conhece? Emergir de um ponto de partida comum, sendo tal concepção uma miragem alienígena?" (TO BE CONTINUED - OR NOT! rsrsrs)