quarta-feira, 4 de julho de 2012

Relato da Carreira (M.A.M.K.)


            A arte me é intrínseca desde os primeiros anos de minha consciência. Cinéfilo desde muito cedo, já instigava a imaginação vendo os filmes clássicos da ficção e do terror, e punha-me a criar histórias para mim, algumas das quais eu armazenava em cadernos, mas apenas pelo deleite de escrever, sem a pretensão de expô-los a outrem. Escrevia, simplesmente, por achar maravilhoso esse hábito. Às vezes, a ânsia em depositar as ideias num papel era quase tão intensa quanto a fome de longas horas. Semanas, talvez. Desde sempre, antes mesmo de ser apresentado à clássica literatura, meus escritos pendiam a uma estrutura poética, e tinham por desígnio alcançar os extremos do sublime. Então, escasso de incentivo, percebendo que em meus ciclos sociais a cultura não era bem vista, acabei deixando de lado a criação e comecei a viver uma “vida normal”, decisão que hoje me soa como uma terrível perda de tempo. Deixei-me levar pela maré de modismo que de todo os lugares se me apresentava. Contudo, numa conversa entre amigos onde falávamos sobre histórias apavorantes, resolvi, num ímpeto irrefreável, escrever um livro de terror que englobasse poesia e filosofia entre outros elementos, enquanto um amigo faria desenhos à obra. Desde então, não mais parei de escrever.
            “… ratos monstruosos e insetos pareciam se divertir com o cheiro infernal que se intensificava como o solo de milhares de criptas rachando-se em abismos e esputando para a superfície seus perpétuos habitantes.” Trecho do romance Prelúdio do Fim.

            Meu amigo, tendo outras prioridades, acabou desistindo do projeto e eu mantive a produzi-lo, evidentemente sem os desenhos, pois ainda estou no nível dos humanos feitos com palitinhos e árvores cujos troncos têm o formato de vestidos, sem esquecer o sol que mais parece uma barata. Estava obstinado a terminar a obra de qualquer maneira e decidido a seguir a carreira de escritor. Bem retrato aqueles tempos na poesia “Perfeição”. Minha busca incessante fez-me abdicar de muitas coisas (tal como a faculdade), porquanto eu mergulhei de cabeça no mundo artístico. Nada mais eu queria.  

            “Rebenta-se minha carne, quebram-se os ossos todos. Segue-te o sangue que me resta, fluindo em imensos redemoinhos. Ao menos, na irresistível exaustão do meu sacrifício, consegui derrubar os gigantes que nos separavam…” Trecho da poeisa Perfeição.

Nada te excetuando é atraente;
Brioso e sublime meu opróbrio.
Vozes do púlpito, tão eloquentes
Quão vazias; o prazer, sóbrio…
Fez-me teu amor feliz réprobo”.  Estrofe da poesia Sabedoria.   

            Houve um colapso em minha criatividade quando, por indicação de um amigo, comecei a ler os clássicos da literatura, começando por Hamlet, de Shakespeare, indo em seguida à leitura do Paraíso Perdido, de John Milton, Folhas de Relva, de Whitman. Tais obras que em razão de seu nível altíssimo, fizeram muitos escritores simplesmente desistiram, já que os mesmos não se viam em condições de igualar-se a esses monstros (a Angústia da Influência, diagnosticada pelo famoso crítico literário Harold Bloom). Abriu-se à minha frente um abismo transcendental: prosseguir ou desistir, viver ou criar; eis a questão.

            “Como disse um prisioneiro abaixo do Caos e da Noite Antiga antes de lançar-se ao universo e às descobertas, não é um novo sítio ou país que me mudará; hei de me tornar a mudança… uma nova existência e linguagem que abarque e exceda todas.” Trecho do romance Bétula.

            Por saber-me incapaz de abandonar a escrita, insurgindo contra o mar de adversidades, procurei me abeberar dos grandes clássicos, enquanto expandia meus métodos para criar. Foi dificílimo absorver tanto conteúdo, séculos e séculos de puro saber, pois a literatura é amplíssima (senão infinita), e pouco é o nosso tempo. Evidentemente, não abrangi nem um décimo dessas montanhas do conhecimento, mas, em contrapartida, depois de arrebentado carne e ossos, lido e relido autores consagrados, pude assimilar o suficiente para realizar recriações em meu estilo, ampliando-o descomunalmente. Ainda estou longe de alcançar meu limite criativo (não creio que exista um patamar derradeiro), e cada vez mais procuro me elevar, pois é no escrever que habita minha verdadeira satisfação, assim como na arte, que é o ardor que realmente nos apresenta à nossa alma.    

“Veraz alma, intrínseca amante!
Igual à minha viva interioridade,
Foste tu que as armas forjaste
Com quais te golpeio lancinante;
Somos da transcendência as metades.” – Estrofe da poesia Sabedoria.

            Quanto ao “Fim de Toda Existência, Prelúdio do Fim e Outros Escritos”, assim como em qualquer trabalho, procurei trazer ao leitor o máximo de essências possível, formando uma abstrata pintura de incontáveis aspectos. Meus conceitos a respeito de como a literatura deve ser feita nunca mudaram: aflorar as emoções, causar impacto ao leitor, seja pelo estrondo ou pela sutileza – há infinitos caminhos –, de modo que lhe ocorra uma reconstrução. O leitor deve ser arrebatado de tal forma a ponto de precisar ler duas vezes a mesma página para acreditar que ela realmente foi escrita, sendo tão fulminante seu conteúdo. Em meu caso, procuro trazer à tona o sublime que jaz no grotesco, no tétrico, no monstruoso… a beleza perdida na escuridão. Pois, considero esplêndida a mistura do magnífico com o sombrio… da beleza com a destruição. E foi justamente isso que fiz no primeiro romance do livro, Prelúdio do Fim, no qual o paraíso é soterrado em meio a aberrações e infernos. Nele, a dor, o horror, são constantes. Trata-se de uma fábula negra, o prelúdio para o fim da existência, que pode ter o sentido de desconstrução ou de derradeira apoteose. Fiz essa história para apresentar um personagem – a mulher sem rosto – que terá grande participação nos volumes subsequentes. No conto que se segue, Poente da Eternidade, paralelo à trama do Fim de Toda Existência, é relatada a história de um assassino, que viveu em tempos imemoráveis, onde (ficticiamente) não existia velhice e sua mortal consequência. Após perder o amor que o livrou da ânsia de matar, acaba perdido numa terra de demônios, onde a sobrevivência lhe é o pior dos castigos. Além de apresentar este personagem, que será retomado no futuro da trama, quis abordar o tema da evolução humana, fazer um personagem adaptar-se e evoluir às mais horríveis condições em terras desconhecidas e inóspitas, sendo a morte seu maior anseio. No romance Bétula, uma cidade está, por séculos, enclausurada do mundo por causa de uma demoníaca floresta, da qual só os pedaços de algumas pessoas que nela se aventuraram são cuspidos na planície que a antecede. As demais, jamais foram encontradas. Eis que resta aos habitantes desta cidade decidirem se ali permanecerão, vivendo no terror, se fogem para as altíssimas montanhas ou se desafiam as maldições da floresta, no intuito de dar-lhes fim mesmo que encontrem apenas a morte nessa empreitada. Noutros trabalhos meus ainda exploro o horror e o absurdo, como nas poesias coligadas “Musa Empírea” e “Exéquias da Esperança”, onde emerge com peso máximo a dor do existir e a renovação dos ânimos após a tempestade de cinzas; na poesia Sabedoria, onde há um emocionante embate entre um sábio e sua amante intrínseca; na Perfeição, há a loucura e o desespero de uma busca que já se iniciou perdida, ambos criados tão somente pelos devaneios do protagonista; na “Canção às Convenções”, há a contestação da utilidade das convenções em nossa época e de quanto elas restringem nossa liberdade, sendo nós os atores de uma peça; e, na crônica “Tudo é Grêmio e Inter, Tudo é Big Brother”, há uma reafirmação do tema da poesia anterior, com abordagens mais sarcásticas. Impactante e engraçado. Nos agradecimentos, também há a crônica “A Nossa Glória dos Outros”, que traz a tese de que nada que criamos, de fato, é original, provindo de uma essência alheia a todo existir, pois tudo nos é assimilação. “Apenas desejamos alcançar um patamar, porque uma lembrança, independente de ser nova ou antiga, querida ou não, direta ou indiretamente inspirou-nos a tal.” O primeiro escritor, que em ninguém pôde se inspirar, colheu na natureza sua inspiração... e por aí vai.

Se o mais bravo e triunfante herói
É tão ridículo quanto um ébrio
Pela silente sina que o corrói,
O piadista é o maior dos sábios,
Pois toda aparência ele destrói.” – Estrofe da poesia “Canção às Convenções”.

                       

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