domingo, 1 de julho de 2012

Os Males da “Caixa de Pandora”


“Somente o impublicável torna-se público.”
Oscar Wilde, há cem anos (imaginem como estão as coisas agora!).

(fonte imagem: noticiascabana.blogspot.com)

“Ado Ado Ado, cada um no seu quadrado…”, “Todo mundo sabe (de tal coisa), menos a Luisa, que está no Canadá!”, “Para a Nossa Alegria” – e para a desesperança de quem ainda se conserva intelectualmente vivo. São incontáveis os exemplos da sabedoria que escoa pelas ruas e é incrível como QUALQUER COISA que caí na mídia vira moda, independente se é bom ou ruim, se tem alguma espécie de complexidade em sua elaboração (pode ser simplista a criação e estupenda. A complexidade a que me refiro é na originalidade e qualidade da proposta e da ideia que envolvem determinado trabalho). Qualquer coisa que é mostrada na TV, no Youtube, em qualquer local e é idiota suficiente para alguém gostar e passar adiante, torna-se lei! O adventos dos novos e odiosos tempos! É como se boa parte da população não tivesse critério algum! E tudo isso devo à mítica Caixa que Epimeteu (presente dos deuses) guardava, na qual estavam aprisionados todos os males. Pandora, sua mulher (também presente dos deuses – o verdadeiro presente de grego!), a quem o marido avisara para não fazê-lo, abriu a Caixa libertando todos os males à exceção de um. Perceptivelmente, sendo o mito de que a curiosidade feminil cause a castigos irreparáveis ou destruição humana também é retratada na Bíblia em Eva, que tanto os gregos quanto os hebreus acreditam que a mulher é a razão de toda a perdição e desgraça (e, ironicamente, apesar de todo o machismo nessas mitológicas crenças contido, existem tantas crentes e evangélicas que leram de cabo a rabo os textos sagrados e oram dia após dia, algumas até chorando na presença de Deus...). A respeito da analogia que apresento, diriam que a TV é a Caixa de Pandora, mas serei mais profundo e polêmico: o teatro, o cinema o são. Embora eu seja cinéfilo e teatrófilo e pense que este foi o maior passo evolutivo da humanidade pois, a meu ver, foi quando o ser humano pôde enfim ver-se num espelho, imitar a própria vida, vê-la como uma representação, muitas vezes trágica sem sentido e nos foram permitidas reconstruções e nos desarraigar de mutáveis absurdos.
 Haverá, logicamente, quem vai argumentar a favor de outros aspectos mais científicos ou religiosos, mas é esta a minha atual opinião. Creio que com a visualização das ideias até então só apresentadas em livros sobreveio a deturpação e massificação da arte que hoje nos macera a alma. Logicamente, naquele tempo e nos séculos que se seguirão foi algo espetacular, uma evolução até então jamais sonhada (tal como foi no caso da TV. Alguém da antiguidade pensaria que num futuro armazenaríamos imagens numa caixa mágica sem revestir tal pensamento com algum fator mítico?), mas quando se popularizou o conhecimento e percebeu-se que a arte, a informação, era boa para ganhar grana e conter a população, a coisa toda desandou. Obviamente, não é a arte o problema, mas sim o que dela tencionamos fazer.
E eis um paradoxo: quando se abriu as portas do conhecimento a todos os seres humanos com um pingo de interesse em atingi-lo, muitos nele depositaram, ao contrário de quando o mesmo era restrito, o seu pior. Evidentemente, não quero que volte a ser exclusivo o conhecimento a uma minoria, bem pelo contrário, quero que todos tenham acesso a ele, mas de modo que as pessoas sejam absorvidas por conhecimento (sem perder sua capacidade de pensar por si mesmas) e não o contaminar com imaginações mal desenvolvidas (refiro tanto ao sentido de embrutecimento quanto ao de uma criativa mutilada – geralmente, é quando o indivíduo desconhece que a realidade que ele enxerga é apenas uma extensão de sua criatividade, que, tal como os outras energias do corpo, ela precisa ser gasta). “Os olhos dela precisam ser alimentados”. Frase dita por Iago, vilão da tragédia de Otelo, a Rodrigo para que não se preocupasse, pois sua amada Desdêmona não ficaria muito tempo com o mouro em razão da feiúra deste. Alimentados os olhos, a mente. Isso ocorrerá de um modo ou de outro, tal como o desejo sexual. “Nos corpos mais frágeis, a imaginação age com mais força.” Dito pelo fantasma do pai de Hamlet. Mas isso é pra outro texto (assunto vastíssimo! Fica pra próxima!). Ao passo que “evoluímos” como civilização e permitimos que, em razão de uma moderna e insuficiente quebra de valores (digo “insuficiente” porque desprezamos sem conhecer a cultura e os moldes que nos elevaram até então, que anteveram nossas tendências e “revoltinhas” culturais) um lamaçal conspurcasse a arte e o conhecimento tão apurados no decorrer dos séculos – se visto à parte dos preceitos sociais e humanos – e, neste processo, ficamos abaixo do homem primitivo, pois não somos nem plenos (do podemos ser quanto às nossas pessoais capacidades) nem originais (tal como é o homem primitivo, mais próximo da natureza criadora e sua força original). Então, por isso, que a Caixa de Pandora, além de acabar de enterrar a ínfima racionalidades dos broncos, dizimou os sábios, pois, como Kafka exemplificou em seu conto “Um Artista da Fome”,  todos os artistas e intelectuais de alma gigantesca tendem a morrer por inanição. “… porque eu nunca encontrei um alimento que me agradasse. Se eu o tivesse encontrado, certamente não teria feito nenhum e alarde e me empanturrado feito você e todo mundo.”
O estranho é que Pandora somente pôde reter um item na caixa dos males humanos após tê-la aberto e dele livrou a humanidade, para o seu bem ou o mal. A Esperança.    
                 

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