segunda-feira, 16 de julho de 2012

The Elephant Man (O Homem Elefante) – Beleza entre Tumores!



Recentemente, tive enfim oportunidade de assistir ao filme The Elephant Man (O Homem Elefante), de 1980,  o qual eu muito ansiei ver dadas as boas críticas a seu respeito e, claro, a sua sinopse fascinante. Dirigido por David Lynch, estrelado por Antony Hopkins e John Hurt, The Elephant Man é uma obra excepcional, apresentando sutil e intensa dramaticidade. Poucos trabalhos da cinetografia me chocaram tanto quanto este (a exemplo de "Perdidos na Noite"). O enredo é sobre Joseph Merrick (1862-1890) – chamado de John Merrick no filme devido ao livro “The Elephant Man and Other Reminiscenses” (“O Homem Elefante e Outras reminiscências”), do Dr. Frederick Treves (personagem de Hopkins), o qual causou confusão em outras biografias e trabalhos a respeito da vida de J. Merrick –, que, em decorrência de uma doença congênita, possuía deformações em 90% de seu corpo. De tão torva que era sua aparência, Joseph é mostrado como uma aberração num circo de horrores. É nele, aliás, que o Dr. Frederick Treves o encontra. De imediato, pede ao dono de J. Merrick que o alugasse para expô-lo numa apresentação a outros médicos. A dúvida de Treves de estar ajudando Merrick ou apenas expondo-o noutro circo de horrores é explícita (questão também abordada na 6ª edição do Watchmen – quem leu o HQ ou o meu artigo a respeito saberá o que estou dizendo).
Em primeiro momento, imagina-se que a mente do monstro é tão deformada quanto sua fisionomia, não podendo Merrick elaborar, com extrema dificuldade, respostas mais complexas do que “sim”, “não” e “muito amável”, além de decorar alguns versículos da bíblia. Mas logo se revela sua notável capacidade intelectual e paixão à arte em seus eloquentes dizeres (embora ele pronuncia as palavras com grande esforço). Uma das partes mais encantadoras do cinema é quando uma atriz de teatro vai visitá-lo levando um livro de Shakespeare e acabam por encenar a cena belíssima em que Romeu e Julieta se falam pela primeira vez:

ROMEU (a Julieta) — Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA — Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU — Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA — Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU — Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA — Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU — Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
JULIETA — Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU — Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos. (Beija-a)

Tal filme é repleto de cenas belas como esta, e de outras um tanto desesperadoras, como quando Joseph Merrick, cujo corpo é frágil graças à doença, apanha do homem que o durante prendeu tantos anos; ou quando a casa de Joseph Merrick é invadida por vândalos que apenas querem fazê-lo de chacota; e, a mais tocante, é quando, após ter sido liberto por outras “aberrações” (cena lindíssima) uma turba o persegue violentamente até fazê-lo gritar: “I am not a animal! I am a human being! I am a man!” (“Eu não sou um animal! Eu sou um ser humano! Eu sou um homem!”). O final do filme é digno de lágrimas. John Hurt, embora irreconhecível, fez um trabalho incrível a ponto de ofuscar Hopkins (de quem eu sou fã, lembrando; mas é impossível – a menos que a pessoa seja uma pedra – não se sensibilizar com Joseph ou John Merrick encarnado em Hurt). Além disso, a atmosfera em preto e branco e a trilha sonora paralisante dão-lhe uma ênfase de horror, não sendo, genuinamente, um filme de drama. A história, a ideia, iguala-se à de Frankenstein (aqui me refiro ao filme) no contexto de apresentar um monstro terrível e mais humano, culto, do que são seus verdugos ignaros (mas, perto de Elephant Man, atrevo-me a dizer que a imagem Frankenstein não é tão apavorante).  

Joseph Merrick (1862-1890). 

Um comentário:

  1. Estou estudando filosofia da educação, faço faculdade de turismo, e no capítulo catorze, fala sobre o que realmente e belo e feio, e se realmente esses conceitos sâo determinados no mundo comtemporâneo. Este artigo, me ajudou em meus estudos, percebendo , que nem tudo o que salta aos olhos e sempre belo, e o belo vai mais além do que o que vemos. obrigado. Rosemery Soares.

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