sexta-feira, 6 de julho de 2012

Concurso de Beleza para Deficientes Visuais – A Cegueira da Desesperada Inclusão Social



UM CEGO


Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.

(Poema de Jorges Luiz Borges, Trad. de Renato Suttana, extraído de http://www.arquivors.com/borges1.htm) 

Fazia tempo que eu queria escrever esse artigo, porém o meu envolvimento em vários projetos tornou-se uma inviabilidade. Enfim, creio que será um de meus escritos mais polêmicos em razão da fragilidade do assunto. Afinal, conforme eu havia afirmado em minha segunda – “Selva de Bestas: A Razão como Ignorância” –, minha mãe sofreu um atropelamento de moto e perdeu a visão, e, em decorrência disso, sei o quão complicado é adaptar-se a um mundo de escuridão. Perder um dos sentidos é algo extremamente agônico e atordoante (assim com perder uma parte do corpo – um dedo que seja) a pessoas saudáveis (não sei definir o que é uma pessoa mentalmente saudável, visto que um padrão de normalidade non exciste! Só usei o termo pessoas saudáveis, pois não sei se houve alguém que gostou de haver-lhe sido obstado algum sentido ou de ter perdido alguma parte do corpo – houve o caso de um cara que manifestou a vontade de devorar alguém – na acepção canibal mesmo – e houve outro cara que se prontificou a ser comido e até quis provar um pedaço de si mesmo – quase poético. Assim aconteceu…); mas, em minha opinião, perder a visão é perder quase que integralmente o senso da realidade. “Nossos olhos são nossa dor!”, frase de uma personagem (cujos olhos foram arrancados) de meu romance “Prelúdio do Fim”. Nesse contexto, quis eu dar a entender que os olhos são a nossa realidade, a suma parte do que assimilamos e convertemos em ideias, pensamentos, lembranças, etc. Minha opinião; e esta frase, esta personagem, foram criadas bem antes do acidente de minha mãe, o que significa que minha opinião não é circunstancial (talvez seja em parte, porque, geralmente, há acontecimento(s) relacionado(s) ou não conosco ou, até mesmo, com a conclusão obtida, que nos leva(m) a refletir sobre alguma coisa; mas o que eu dizer é que não desabafei, não deixei que uma situação trágica afetasse minha lógica). Claro que uma pessoa cega (de nascença, principalmente), terá sua capacidade de imaginar e, talvez, uma amplidão criativa maior do que as pessoas que enxergam devido à sua restrição sensorial. Ou seja, segundo o que conjeturo – posso estar errado –, a mente, a imaginação de uma pessoa cujo caminho visual está obstruído dimanará para outros caminhos mais internos, alheios à percepção natural de qualquer ser que tem os caminhos já prontos, desenhados e coloridos à sua frente. Creio que é por isso que John Milton escreveu o livro “Paraíso Perdido”, que é a extremamente surrealista e visual (o Orco, o Universo, o Éden, o Empíreo, descritos por ele são incomparavelmente monstruosos e sublimes) embora ele fosse cego (ao que sei, perdeu a visão já em idade avançada, o que lhe permitiu resguardar na mente o mundo em que vivemos, mas, em outra fisionomia, outros aspectos). Um cego, possivelmente, terá sua imaginação aflorada; no entanto, estará longe da realidade que enxergamos, independente se a distância é metros ou quilômetros. Os de nascença, com certeza, estão a anos luz do que imaginamos, nosso panorama pré-concebido. Nem que soprássemos tudo o que vemos e tudo quanto existe nos ouvidos deles, poderíamos fazê-los ter uma noção do que é a realidade para nós individual ou coletivamente. Assim como é distinta a interpretação de um livro para cada pessoa, embora todos utilizem a mesma linguagem para lê-lo. Me entendam bem: não estou sendo discriminatório, só acho que a percepção de quem é deficiente é outra. Mais ou menos evoluída? Evolução é uma convenção, um termo que não existe. Cada um tem uma ideia de perfeição e de evolução. É também discutível.
 Bom, vou abordar a notícia que me fez escrever este artigo. Em 2011, estava procurando alguma entidade de ajuda a deficientes visuais que desse assistência à minha mãe, e encontrei uma postagem num blog a respeito da visita da Miss Brasil deficiente visual. Concurso de beleza para cegos? É impressão minha          ou tem algo muito errado esse respeito? Será que só eu vejo isso? Não vou citar o blog no qual vi essa notícia (não quero difamar ninguém, só expor minha opinião quanto a este absurdo, que não é um caso isolado), nem dar o nome da Miss (que é uma atitude inútil, porque ela já deve ser bem conhecida, mas quero guardar sigilo). Admito ter ficado horrorizado com essa notícia, com a ignorância nela contida, pois foi tão abjeta essa idealização quanto o seria a apresentação de uma orquestra para surdos. Não sou preconceituoso e mais quero que o mundo seja acessível a todos; mas, com certeza, há formas mais efetivas e dignas de fazê-lo. Isso nem se trata de superação, pois a pessoa nada superou (nasceu assim e não consegue saber-se bonita se isso alguém não lhe disser). Acho muito bacana os tetraplégicos que aprendem a pintar quadros com a boca e desenvolver outras aptidões que pessoas sem deficiências não conseguem fazer sem esboçarem uma inclinação natural. Ou seja, um indivíduo saudável é um indivíduo saudável; um deficiente é um deficiente, alguém quem tem certas limitações e talvez precise de cuidados especiais. Ambos merecerem respeito se respeitarem; mas ninguém é artista ou merecedor de prêmios por ser apenas diferente (o nome disso é doação, não prêmio). Para ser consagrado como vencedor é preciso vencer em alguma coisa que se possa demonstrar capacidades e feitos extraordinários dentro da proposta da competição (e, convenhamos ser belo não é ser talentoso, tampouco um feito extraordinário – se nasce ou não com beleza. Eis tudo). Acho bem relevante as paraolimpíadas, o esforço máximo de alguém num propósito esportivo ou artístico; mas não simpatizo nenhum um pouco, por exemplo, com aquele cara sem braços e pernas, que se ergue diante de uma multidão para incutir-lhes autoestima, o que, para mim, não é mais do que jogar na cara dos outros sua desgraça e virar um superherói assim. Faço aqui o comentário de um amigo meu quanto ao caso do Homem sem Rosto (o lusitano José Mestre), que ficou décadas sem operar a tromba de tumores que tapavam seu rosto por causa de sua religião, o que se deve também pelo relevo que essa cruz lhe acrescentava (nisso, podemos incluir o homem sem braços e pernas). São sobre-humanos por causa de sua deficiência, mais importantes do se fossem “normais” – e importância, a meu ver, não se constrói assim. São merecedores de conforto, de atenção, mas não são superheróis como a sociedade os julga. Ao menos, até fazerem algo verdadeiramente sobre-humano. A este tipo de estoicismo prefiro os argumentos de Ramón Sampedro (quem leu o livro “Cartas do Inferno” ou viu o filme “Mar Adentro” sabe do que estou falando). Então voltando ao foco do assunto, beleza não é caso de superação (pois, mesmo no caso de Sampedro, é necessário até mais coragem para optar pela morte do que livra-se de uma vida agônica – não parece mas é). No entanto, muitas mulas por aí ganham concursos de beleza. Seria injustiça minha apartar os deficientes visuais desse “jubilo” por essa razão. É obtuso o motivo, não apenas supérfluo.
        Quem leu com atenção o primeiro parágrafo deste texto, já sabe do que estou falando. Quem entendeu o título, também. Como um cego poderá participar de um concurso de beleza se não é a beleza fisionômica uma de suas apreciações. Ainda quando, é de nascença, pois como o felizardo(a) terá noção real do que granjeou se jamais viu nada! Como explicar a quem nunca viu uma cor o que é o azul, o amarelo, o verde? A quem nunca viu uma forma a diferença entre as formas e as peculiaridades de cada rosto e corpo? Como ela estará ciente de sua própria beleza se isso lhe existe numa linguagem alienígena? E se a pessoa não é cega de nascença e lembra-se de tudo ou quase tudo que habita sua realidade, inclusive o que consideramos beleza? Ainda sim é uma concepção porque uma ela terá que ouvir a opinião de alguém para saber-se bonita (engraçado como isso faz eco em toda as pessoas, deficientes ou não). Deixo claro que não sou contra ao fato de deficiente visuais terem vaidades estéticas (maquiarem-se, vestirem-se bem, etc.); sou contra a implantação de um concurso de beleza para quem não precisa dela (ninguém precisa, na realidade, já que a mesma também é uma convenção, uma questão de perspectiva). Há outras maneiras de se agradar um surdo que não seja lhe mostrando Mozart, assim como não é a beleza estética que vai encantar um cego. Há quem vai dizer que Beethoven compunha depois de surdo. E isso eu acho assaz louvável! Um ato apoteótico! Porque Beethoven estudou música profundamente, conhecia bem as linguagem empregada (as tablaturas) e conservava na mente as melodias e sua criatividade (que, talvez, pela fome de ouvir e compor, tenha se intensificado). E Beethoven CRIAVA arte, não era objeto de adorno. Certa vez, vi num programa televisivo um cineasta (talvez fosse roteirista – não me recordo) brasileiro dizendo a Carol Miranda (a que causou “êxtase” em muito marmanjo por ser dançarina de Funk, “gostosa pacá”, e virgem. Alegava que queria perder o “selinho” com o cara certo – o príncipe montado num cavalo branco e celestial – e perdeu a virgindade num filme pornô pelo qual ela recebeu 300 mil reais) que almejava um dia ganhar com um de seus filmes o cachê que ela “chupou” fazendo sexo. Desculpem-me a analogia vulgar, pois não é meu intento ofender, mas foi necessária para elucidar o que é arte e que é libido (beleza, erotismo… para a Natureza/Deus estão no mesmo patamar). Um cego pode apresentar obras maravilhosas, transcendentais, como músicas, escritos (John Milton que o diga) e uma infinidade de outras coisas realmente belíssimas ao invés de mera estética. Além do mais, há muitos educadores, políticos, celebridades “boníssimas” (tal como são as modelos que só desejam a Paz Mundial e lêem tão só o Pequeno Príncipe – muito simpatizo com principezinho viajante. Não é ele quem estou criticando) e até os escritores de “weekend” que apregoam que a beleza verdadeira não é exterior. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” – Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry. Claro, é válido pela inclusão social – essa nojenta inclusão social da atualidade, que, em muitos caso, mais parece ditadura do que uma tentativa real de sociabilizar quem é arredio em algum aspecto. No mundo onde a sexualidade, a vulgaridade e a beleza artificial imperam, é lógico que, instigados por laços culturais, ouvindo na TV, no internet, pessoas comentando à sua volta, todos vão querer adaptar-se às tendências (grande Darwin!) e se sentirão mal se não alcançarem o prêmio máximo da sociedade (que, a bem dizer, nada vale). – “Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso interessar-te?” – Pequeno Príncipe. De certo, o Tarzan não sofria de nenhuma abstinência antes de ter sido levado para a cidade. Um bombom não nos faz falta até que o tenhamos provado ou a publicidade do mesmo nos tenha persuadido. “Os olhos são nossa dor…”, a percepção que temos do mundo é que nos atordoa. Na maioria dos casos (senão em todos) sofremos dores que não são nossas. Com os deficientes visuais, auditivos, qualquer um que tenha o mínimo de compreensão da realidade – de qualquer realidade –, não é diferente. Evidentemente, a vencedora do concurso deve ter ficado feliz tanto pelo prêmio (afinal, são raros os caso de quem não gosta de receber um elogio, ainda mais relativo à aparência – viva a nossa cultura que louva falsos deuses!) quanto por ser uma precursora para outros, quebrando barreiras e toda uma papagaiada beneficente; mas se algum cego pensar na essência desse concurso, pensar realmente, sentir-se-á ofendido. Não que eu seja os projetos sociais, ajudar a quem precisa, muito pelo contrário; mas, como eu afirmei anteriormente neste texto, há meios melhores de fazê-lo, além que muitos só falam e nada fazem de fato. 
        Certa vez, ouvi a Hebe falando com a Ivete Sangalo (nas raríssimas vezes que vi TV no domingo) que todo artista deveria fazer doações para entidades humanistas. Ótimo; se eu ganhasse milhões por mês, também doaria centenas de milhares ou milhões para caridade. Se querem ser vistas como super-heróis (pois boa parte da pessoas filantrópicas, ávidas em ajudar, quer na realidade ter um motivo para louvar a si mesmo sem comprometer-se demasiadamente – salvo raras e magníficas exceções). Assim como acho que se os crentes acreditassem verdadeiramente em Deus não olhariam para os lados ao atravessar uma avenida movimentada e passeariam na mais terrível favela às 3h da madrugada, quem é realmente um filantropo não somente doaria dinheiro (talvez, nem precisasse doar) mas também trocar as fraudas de algum velho enfermo no asilo e o ouviria ruminar sua agonia; visitar com frequência crianças no orfanato ou as crianças humildes de uma vila de traficantes (se morresse, seria por uma causa excelente – por outrem que precisa de ajuda); trabalharia ao invés de pagar para que outros o façam. Isso é ser filantropo! Amar a humanidade desde sua cara mais opulenta e falsa até a mais suja e doentia. Obviamente, filantropos de fato são raríssimos (se é que existem ou existiram!). E sei que não faço ainda nenhuma ação social (a não ser este blog – se assim o posso considerar), mas, ao menos, não quero ser louvado como humanista e tampouco apresento ideias esdrúxulas para integrar e acabar com o preconceito. Estou tentando, é fato, mas erroneamente, querendo integrar tal como o professor de educação física que insiste em incluir em suas atividades os alunos que não demonstram interesse. Isso é extremamente! Abre-se as portas e atravessam-nas quem quer. Será que existe mesmo livre-arbítrio? Sim, contanto que você pertença ao sistema e aos ditames da sociedade (que coisa linda!!!). Vivemos na época da Ditadura Beneficente (você vai ser ajudado, vai ser integrado, querendo ou não). Aliás, acho que as campanhas contra o preconceito mais o fomentam do que qualquer outra coisa (a exemplo do ridículo Kit Gay e da campanha acerca de haver uma minoria de mulheres negras no Brasil em cargos de gerência. Em minha opinião, se um diretor ou um empresário é racista, não é uma campanha dessas que o mudará o conceito dele e o fará contratar uma mulher negra, infelizmente…). Antes que pensem besteira, não sou preconceituoso (ou, ao menos, se algo me desagradas aos olhos e aos ouvidos, tento não desrespeitar ninguém) e ainda quero escrever um texto extirpando o racismo – o que sempre foi uma idiotia. A educação, a cultura de hoje, em geral é, aos meus olhos, uma espécie de facismo.   

2 comentários:

  1. Parabéns pela sua matéria. os assuntos que vc postou foram importantes para um trabalho de conclusão de curso de uma aluna de graduação, que será uma futura professora de arte e se dedicará a trabalhar com crianças especiais.

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  2. Desculpe, mas só agora vi teu comentário (o qual muito me agradou). Não recebi (ou penso que não recebi) notificação sobre o mesmo; e, como raramente verifico, sendo que meus textos ainda não tiveram vasta repercussão (ao que suponho), acabei por descobrir acidentalmente o que comentaste, o que foi um "belo acidente". Fico muito feliz que minha matérias tenham sido importantes a esta aluna e gostaria de saber mais a respeito. Caso queiras mandar-me um email: cantosdasubversao@gmail.com

    Abraços!

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