segunda-feira, 16 de julho de 2012

The Elephant Man (O Homem Elefante) – Beleza entre Tumores!



Recentemente, tive enfim oportunidade de assistir ao filme The Elephant Man (O Homem Elefante), de 1980,  o qual eu muito ansiei ver dadas as boas críticas a seu respeito e, claro, a sua sinopse fascinante. Dirigido por David Lynch, estrelado por Antony Hopkins e John Hurt, The Elephant Man é uma obra excepcional, apresentando sutil e intensa dramaticidade. Poucos trabalhos da cinetografia me chocaram tanto quanto este (a exemplo de "Perdidos na Noite"). O enredo é sobre Joseph Merrick (1862-1890) – chamado de John Merrick no filme devido ao livro “The Elephant Man and Other Reminiscenses” (“O Homem Elefante e Outras reminiscências”), do Dr. Frederick Treves (personagem de Hopkins), o qual causou confusão em outras biografias e trabalhos a respeito da vida de J. Merrick –, que, em decorrência de uma doença congênita, possuía deformações em 90% de seu corpo. De tão torva que era sua aparência, Joseph é mostrado como uma aberração num circo de horrores. É nele, aliás, que o Dr. Frederick Treves o encontra. De imediato, pede ao dono de J. Merrick que o alugasse para expô-lo numa apresentação a outros médicos. A dúvida de Treves de estar ajudando Merrick ou apenas expondo-o noutro circo de horrores é explícita (questão também abordada na 6ª edição do Watchmen – quem leu o HQ ou o meu artigo a respeito saberá o que estou dizendo).
Em primeiro momento, imagina-se que a mente do monstro é tão deformada quanto sua fisionomia, não podendo Merrick elaborar, com extrema dificuldade, respostas mais complexas do que “sim”, “não” e “muito amável”, além de decorar alguns versículos da bíblia. Mas logo se revela sua notável capacidade intelectual e paixão à arte em seus eloquentes dizeres (embora ele pronuncia as palavras com grande esforço). Uma das partes mais encantadoras do cinema é quando uma atriz de teatro vai visitá-lo levando um livro de Shakespeare e acabam por encenar a cena belíssima em que Romeu e Julieta se falam pela primeira vez:

ROMEU (a Julieta) — Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA — Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU — Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA — Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU — Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA — Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU — Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
JULIETA — Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU — Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos. (Beija-a)

Tal filme é repleto de cenas belas como esta, e de outras um tanto desesperadoras, como quando Joseph Merrick, cujo corpo é frágil graças à doença, apanha do homem que o durante prendeu tantos anos; ou quando a casa de Joseph Merrick é invadida por vândalos que apenas querem fazê-lo de chacota; e, a mais tocante, é quando, após ter sido liberto por outras “aberrações” (cena lindíssima) uma turba o persegue violentamente até fazê-lo gritar: “I am not a animal! I am a human being! I am a man!” (“Eu não sou um animal! Eu sou um ser humano! Eu sou um homem!”). O final do filme é digno de lágrimas. John Hurt, embora irreconhecível, fez um trabalho incrível a ponto de ofuscar Hopkins (de quem eu sou fã, lembrando; mas é impossível – a menos que a pessoa seja uma pedra – não se sensibilizar com Joseph ou John Merrick encarnado em Hurt). Além disso, a atmosfera em preto e branco e a trilha sonora paralisante dão-lhe uma ênfase de horror, não sendo, genuinamente, um filme de drama. A história, a ideia, iguala-se à de Frankenstein (aqui me refiro ao filme) no contexto de apresentar um monstro terrível e mais humano, culto, do que são seus verdugos ignaros (mas, perto de Elephant Man, atrevo-me a dizer que a imagem Frankenstein não é tão apavorante).  

Joseph Merrick (1862-1890). 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Concurso de Beleza para Deficientes Visuais – A Cegueira da Desesperada Inclusão Social



UM CEGO


Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.

(Poema de Jorges Luiz Borges, Trad. de Renato Suttana, extraído de http://www.arquivors.com/borges1.htm) 

Fazia tempo que eu queria escrever esse artigo, porém o meu envolvimento em vários projetos tornou-se uma inviabilidade. Enfim, creio que será um de meus escritos mais polêmicos em razão da fragilidade do assunto. Afinal, conforme eu havia afirmado em minha segunda – “Selva de Bestas: A Razão como Ignorância” –, minha mãe sofreu um atropelamento de moto e perdeu a visão, e, em decorrência disso, sei o quão complicado é adaptar-se a um mundo de escuridão. Perder um dos sentidos é algo extremamente agônico e atordoante (assim com perder uma parte do corpo – um dedo que seja) a pessoas saudáveis (não sei definir o que é uma pessoa mentalmente saudável, visto que um padrão de normalidade non exciste! Só usei o termo pessoas saudáveis, pois não sei se houve alguém que gostou de haver-lhe sido obstado algum sentido ou de ter perdido alguma parte do corpo – houve o caso de um cara que manifestou a vontade de devorar alguém – na acepção canibal mesmo – e houve outro cara que se prontificou a ser comido e até quis provar um pedaço de si mesmo – quase poético. Assim aconteceu…); mas, em minha opinião, perder a visão é perder quase que integralmente o senso da realidade. “Nossos olhos são nossa dor!”, frase de uma personagem (cujos olhos foram arrancados) de meu romance “Prelúdio do Fim”. Nesse contexto, quis eu dar a entender que os olhos são a nossa realidade, a suma parte do que assimilamos e convertemos em ideias, pensamentos, lembranças, etc. Minha opinião; e esta frase, esta personagem, foram criadas bem antes do acidente de minha mãe, o que significa que minha opinião não é circunstancial (talvez seja em parte, porque, geralmente, há acontecimento(s) relacionado(s) ou não conosco ou, até mesmo, com a conclusão obtida, que nos leva(m) a refletir sobre alguma coisa; mas o que eu dizer é que não desabafei, não deixei que uma situação trágica afetasse minha lógica). Claro que uma pessoa cega (de nascença, principalmente), terá sua capacidade de imaginar e, talvez, uma amplidão criativa maior do que as pessoas que enxergam devido à sua restrição sensorial. Ou seja, segundo o que conjeturo – posso estar errado –, a mente, a imaginação de uma pessoa cujo caminho visual está obstruído dimanará para outros caminhos mais internos, alheios à percepção natural de qualquer ser que tem os caminhos já prontos, desenhados e coloridos à sua frente. Creio que é por isso que John Milton escreveu o livro “Paraíso Perdido”, que é a extremamente surrealista e visual (o Orco, o Universo, o Éden, o Empíreo, descritos por ele são incomparavelmente monstruosos e sublimes) embora ele fosse cego (ao que sei, perdeu a visão já em idade avançada, o que lhe permitiu resguardar na mente o mundo em que vivemos, mas, em outra fisionomia, outros aspectos). Um cego, possivelmente, terá sua imaginação aflorada; no entanto, estará longe da realidade que enxergamos, independente se a distância é metros ou quilômetros. Os de nascença, com certeza, estão a anos luz do que imaginamos, nosso panorama pré-concebido. Nem que soprássemos tudo o que vemos e tudo quanto existe nos ouvidos deles, poderíamos fazê-los ter uma noção do que é a realidade para nós individual ou coletivamente. Assim como é distinta a interpretação de um livro para cada pessoa, embora todos utilizem a mesma linguagem para lê-lo. Me entendam bem: não estou sendo discriminatório, só acho que a percepção de quem é deficiente é outra. Mais ou menos evoluída? Evolução é uma convenção, um termo que não existe. Cada um tem uma ideia de perfeição e de evolução. É também discutível.
 Bom, vou abordar a notícia que me fez escrever este artigo. Em 2011, estava procurando alguma entidade de ajuda a deficientes visuais que desse assistência à minha mãe, e encontrei uma postagem num blog a respeito da visita da Miss Brasil deficiente visual. Concurso de beleza para cegos? É impressão minha          ou tem algo muito errado esse respeito? Será que só eu vejo isso? Não vou citar o blog no qual vi essa notícia (não quero difamar ninguém, só expor minha opinião quanto a este absurdo, que não é um caso isolado), nem dar o nome da Miss (que é uma atitude inútil, porque ela já deve ser bem conhecida, mas quero guardar sigilo). Admito ter ficado horrorizado com essa notícia, com a ignorância nela contida, pois foi tão abjeta essa idealização quanto o seria a apresentação de uma orquestra para surdos. Não sou preconceituoso e mais quero que o mundo seja acessível a todos; mas, com certeza, há formas mais efetivas e dignas de fazê-lo. Isso nem se trata de superação, pois a pessoa nada superou (nasceu assim e não consegue saber-se bonita se isso alguém não lhe disser). Acho muito bacana os tetraplégicos que aprendem a pintar quadros com a boca e desenvolver outras aptidões que pessoas sem deficiências não conseguem fazer sem esboçarem uma inclinação natural. Ou seja, um indivíduo saudável é um indivíduo saudável; um deficiente é um deficiente, alguém quem tem certas limitações e talvez precise de cuidados especiais. Ambos merecerem respeito se respeitarem; mas ninguém é artista ou merecedor de prêmios por ser apenas diferente (o nome disso é doação, não prêmio). Para ser consagrado como vencedor é preciso vencer em alguma coisa que se possa demonstrar capacidades e feitos extraordinários dentro da proposta da competição (e, convenhamos ser belo não é ser talentoso, tampouco um feito extraordinário – se nasce ou não com beleza. Eis tudo). Acho bem relevante as paraolimpíadas, o esforço máximo de alguém num propósito esportivo ou artístico; mas não simpatizo nenhum um pouco, por exemplo, com aquele cara sem braços e pernas, que se ergue diante de uma multidão para incutir-lhes autoestima, o que, para mim, não é mais do que jogar na cara dos outros sua desgraça e virar um superherói assim. Faço aqui o comentário de um amigo meu quanto ao caso do Homem sem Rosto (o lusitano José Mestre), que ficou décadas sem operar a tromba de tumores que tapavam seu rosto por causa de sua religião, o que se deve também pelo relevo que essa cruz lhe acrescentava (nisso, podemos incluir o homem sem braços e pernas). São sobre-humanos por causa de sua deficiência, mais importantes do se fossem “normais” – e importância, a meu ver, não se constrói assim. São merecedores de conforto, de atenção, mas não são superheróis como a sociedade os julga. Ao menos, até fazerem algo verdadeiramente sobre-humano. A este tipo de estoicismo prefiro os argumentos de Ramón Sampedro (quem leu o livro “Cartas do Inferno” ou viu o filme “Mar Adentro” sabe do que estou falando). Então voltando ao foco do assunto, beleza não é caso de superação (pois, mesmo no caso de Sampedro, é necessário até mais coragem para optar pela morte do que livra-se de uma vida agônica – não parece mas é). No entanto, muitas mulas por aí ganham concursos de beleza. Seria injustiça minha apartar os deficientes visuais desse “jubilo” por essa razão. É obtuso o motivo, não apenas supérfluo.
        Quem leu com atenção o primeiro parágrafo deste texto, já sabe do que estou falando. Quem entendeu o título, também. Como um cego poderá participar de um concurso de beleza se não é a beleza fisionômica uma de suas apreciações. Ainda quando, é de nascença, pois como o felizardo(a) terá noção real do que granjeou se jamais viu nada! Como explicar a quem nunca viu uma cor o que é o azul, o amarelo, o verde? A quem nunca viu uma forma a diferença entre as formas e as peculiaridades de cada rosto e corpo? Como ela estará ciente de sua própria beleza se isso lhe existe numa linguagem alienígena? E se a pessoa não é cega de nascença e lembra-se de tudo ou quase tudo que habita sua realidade, inclusive o que consideramos beleza? Ainda sim é uma concepção porque uma ela terá que ouvir a opinião de alguém para saber-se bonita (engraçado como isso faz eco em toda as pessoas, deficientes ou não). Deixo claro que não sou contra ao fato de deficiente visuais terem vaidades estéticas (maquiarem-se, vestirem-se bem, etc.); sou contra a implantação de um concurso de beleza para quem não precisa dela (ninguém precisa, na realidade, já que a mesma também é uma convenção, uma questão de perspectiva). Há outras maneiras de se agradar um surdo que não seja lhe mostrando Mozart, assim como não é a beleza estética que vai encantar um cego. Há quem vai dizer que Beethoven compunha depois de surdo. E isso eu acho assaz louvável! Um ato apoteótico! Porque Beethoven estudou música profundamente, conhecia bem as linguagem empregada (as tablaturas) e conservava na mente as melodias e sua criatividade (que, talvez, pela fome de ouvir e compor, tenha se intensificado). E Beethoven CRIAVA arte, não era objeto de adorno. Certa vez, vi num programa televisivo um cineasta (talvez fosse roteirista – não me recordo) brasileiro dizendo a Carol Miranda (a que causou “êxtase” em muito marmanjo por ser dançarina de Funk, “gostosa pacá”, e virgem. Alegava que queria perder o “selinho” com o cara certo – o príncipe montado num cavalo branco e celestial – e perdeu a virgindade num filme pornô pelo qual ela recebeu 300 mil reais) que almejava um dia ganhar com um de seus filmes o cachê que ela “chupou” fazendo sexo. Desculpem-me a analogia vulgar, pois não é meu intento ofender, mas foi necessária para elucidar o que é arte e que é libido (beleza, erotismo… para a Natureza/Deus estão no mesmo patamar). Um cego pode apresentar obras maravilhosas, transcendentais, como músicas, escritos (John Milton que o diga) e uma infinidade de outras coisas realmente belíssimas ao invés de mera estética. Além do mais, há muitos educadores, políticos, celebridades “boníssimas” (tal como são as modelos que só desejam a Paz Mundial e lêem tão só o Pequeno Príncipe – muito simpatizo com principezinho viajante. Não é ele quem estou criticando) e até os escritores de “weekend” que apregoam que a beleza verdadeira não é exterior. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” – Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry. Claro, é válido pela inclusão social – essa nojenta inclusão social da atualidade, que, em muitos caso, mais parece ditadura do que uma tentativa real de sociabilizar quem é arredio em algum aspecto. No mundo onde a sexualidade, a vulgaridade e a beleza artificial imperam, é lógico que, instigados por laços culturais, ouvindo na TV, no internet, pessoas comentando à sua volta, todos vão querer adaptar-se às tendências (grande Darwin!) e se sentirão mal se não alcançarem o prêmio máximo da sociedade (que, a bem dizer, nada vale). – “Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso interessar-te?” – Pequeno Príncipe. De certo, o Tarzan não sofria de nenhuma abstinência antes de ter sido levado para a cidade. Um bombom não nos faz falta até que o tenhamos provado ou a publicidade do mesmo nos tenha persuadido. “Os olhos são nossa dor…”, a percepção que temos do mundo é que nos atordoa. Na maioria dos casos (senão em todos) sofremos dores que não são nossas. Com os deficientes visuais, auditivos, qualquer um que tenha o mínimo de compreensão da realidade – de qualquer realidade –, não é diferente. Evidentemente, a vencedora do concurso deve ter ficado feliz tanto pelo prêmio (afinal, são raros os caso de quem não gosta de receber um elogio, ainda mais relativo à aparência – viva a nossa cultura que louva falsos deuses!) quanto por ser uma precursora para outros, quebrando barreiras e toda uma papagaiada beneficente; mas se algum cego pensar na essência desse concurso, pensar realmente, sentir-se-á ofendido. Não que eu seja os projetos sociais, ajudar a quem precisa, muito pelo contrário; mas, como eu afirmei anteriormente neste texto, há meios melhores de fazê-lo, além que muitos só falam e nada fazem de fato. 
        Certa vez, ouvi a Hebe falando com a Ivete Sangalo (nas raríssimas vezes que vi TV no domingo) que todo artista deveria fazer doações para entidades humanistas. Ótimo; se eu ganhasse milhões por mês, também doaria centenas de milhares ou milhões para caridade. Se querem ser vistas como super-heróis (pois boa parte da pessoas filantrópicas, ávidas em ajudar, quer na realidade ter um motivo para louvar a si mesmo sem comprometer-se demasiadamente – salvo raras e magníficas exceções). Assim como acho que se os crentes acreditassem verdadeiramente em Deus não olhariam para os lados ao atravessar uma avenida movimentada e passeariam na mais terrível favela às 3h da madrugada, quem é realmente um filantropo não somente doaria dinheiro (talvez, nem precisasse doar) mas também trocar as fraudas de algum velho enfermo no asilo e o ouviria ruminar sua agonia; visitar com frequência crianças no orfanato ou as crianças humildes de uma vila de traficantes (se morresse, seria por uma causa excelente – por outrem que precisa de ajuda); trabalharia ao invés de pagar para que outros o façam. Isso é ser filantropo! Amar a humanidade desde sua cara mais opulenta e falsa até a mais suja e doentia. Obviamente, filantropos de fato são raríssimos (se é que existem ou existiram!). E sei que não faço ainda nenhuma ação social (a não ser este blog – se assim o posso considerar), mas, ao menos, não quero ser louvado como humanista e tampouco apresento ideias esdrúxulas para integrar e acabar com o preconceito. Estou tentando, é fato, mas erroneamente, querendo integrar tal como o professor de educação física que insiste em incluir em suas atividades os alunos que não demonstram interesse. Isso é extremamente! Abre-se as portas e atravessam-nas quem quer. Será que existe mesmo livre-arbítrio? Sim, contanto que você pertença ao sistema e aos ditames da sociedade (que coisa linda!!!). Vivemos na época da Ditadura Beneficente (você vai ser ajudado, vai ser integrado, querendo ou não). Aliás, acho que as campanhas contra o preconceito mais o fomentam do que qualquer outra coisa (a exemplo do ridículo Kit Gay e da campanha acerca de haver uma minoria de mulheres negras no Brasil em cargos de gerência. Em minha opinião, se um diretor ou um empresário é racista, não é uma campanha dessas que o mudará o conceito dele e o fará contratar uma mulher negra, infelizmente…). Antes que pensem besteira, não sou preconceituoso (ou, ao menos, se algo me desagradas aos olhos e aos ouvidos, tento não desrespeitar ninguém) e ainda quero escrever um texto extirpando o racismo – o que sempre foi uma idiotia. A educação, a cultura de hoje, em geral é, aos meus olhos, uma espécie de facismo.   

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ilustrações de William Blake – Quem Uniu o Céu e o Inferno

São estes trabalhos do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (28/ 11/ 1757 – 12/ 08/ 1827) de quem eu sou fã. Tanto na literatura quanto nas artes visuais seu talento é incomparável. Nota-se nesta postagem algumas repetições. Fi-las por causa da diferença de tonalidade apresentadas em certos casos (pretendo colocar o título das imagens em breve). “Energy is eternal delight”. Confiram:
























Relato da Carreira (M.A.M.K.)


            A arte me é intrínseca desde os primeiros anos de minha consciência. Cinéfilo desde muito cedo, já instigava a imaginação vendo os filmes clássicos da ficção e do terror, e punha-me a criar histórias para mim, algumas das quais eu armazenava em cadernos, mas apenas pelo deleite de escrever, sem a pretensão de expô-los a outrem. Escrevia, simplesmente, por achar maravilhoso esse hábito. Às vezes, a ânsia em depositar as ideias num papel era quase tão intensa quanto a fome de longas horas. Semanas, talvez. Desde sempre, antes mesmo de ser apresentado à clássica literatura, meus escritos pendiam a uma estrutura poética, e tinham por desígnio alcançar os extremos do sublime. Então, escasso de incentivo, percebendo que em meus ciclos sociais a cultura não era bem vista, acabei deixando de lado a criação e comecei a viver uma “vida normal”, decisão que hoje me soa como uma terrível perda de tempo. Deixei-me levar pela maré de modismo que de todo os lugares se me apresentava. Contudo, numa conversa entre amigos onde falávamos sobre histórias apavorantes, resolvi, num ímpeto irrefreável, escrever um livro de terror que englobasse poesia e filosofia entre outros elementos, enquanto um amigo faria desenhos à obra. Desde então, não mais parei de escrever.
            “… ratos monstruosos e insetos pareciam se divertir com o cheiro infernal que se intensificava como o solo de milhares de criptas rachando-se em abismos e esputando para a superfície seus perpétuos habitantes.” Trecho do romance Prelúdio do Fim.

            Meu amigo, tendo outras prioridades, acabou desistindo do projeto e eu mantive a produzi-lo, evidentemente sem os desenhos, pois ainda estou no nível dos humanos feitos com palitinhos e árvores cujos troncos têm o formato de vestidos, sem esquecer o sol que mais parece uma barata. Estava obstinado a terminar a obra de qualquer maneira e decidido a seguir a carreira de escritor. Bem retrato aqueles tempos na poesia “Perfeição”. Minha busca incessante fez-me abdicar de muitas coisas (tal como a faculdade), porquanto eu mergulhei de cabeça no mundo artístico. Nada mais eu queria.  

            “Rebenta-se minha carne, quebram-se os ossos todos. Segue-te o sangue que me resta, fluindo em imensos redemoinhos. Ao menos, na irresistível exaustão do meu sacrifício, consegui derrubar os gigantes que nos separavam…” Trecho da poeisa Perfeição.

Nada te excetuando é atraente;
Brioso e sublime meu opróbrio.
Vozes do púlpito, tão eloquentes
Quão vazias; o prazer, sóbrio…
Fez-me teu amor feliz réprobo”.  Estrofe da poesia Sabedoria.   

            Houve um colapso em minha criatividade quando, por indicação de um amigo, comecei a ler os clássicos da literatura, começando por Hamlet, de Shakespeare, indo em seguida à leitura do Paraíso Perdido, de John Milton, Folhas de Relva, de Whitman. Tais obras que em razão de seu nível altíssimo, fizeram muitos escritores simplesmente desistiram, já que os mesmos não se viam em condições de igualar-se a esses monstros (a Angústia da Influência, diagnosticada pelo famoso crítico literário Harold Bloom). Abriu-se à minha frente um abismo transcendental: prosseguir ou desistir, viver ou criar; eis a questão.

            “Como disse um prisioneiro abaixo do Caos e da Noite Antiga antes de lançar-se ao universo e às descobertas, não é um novo sítio ou país que me mudará; hei de me tornar a mudança… uma nova existência e linguagem que abarque e exceda todas.” Trecho do romance Bétula.

            Por saber-me incapaz de abandonar a escrita, insurgindo contra o mar de adversidades, procurei me abeberar dos grandes clássicos, enquanto expandia meus métodos para criar. Foi dificílimo absorver tanto conteúdo, séculos e séculos de puro saber, pois a literatura é amplíssima (senão infinita), e pouco é o nosso tempo. Evidentemente, não abrangi nem um décimo dessas montanhas do conhecimento, mas, em contrapartida, depois de arrebentado carne e ossos, lido e relido autores consagrados, pude assimilar o suficiente para realizar recriações em meu estilo, ampliando-o descomunalmente. Ainda estou longe de alcançar meu limite criativo (não creio que exista um patamar derradeiro), e cada vez mais procuro me elevar, pois é no escrever que habita minha verdadeira satisfação, assim como na arte, que é o ardor que realmente nos apresenta à nossa alma.    

“Veraz alma, intrínseca amante!
Igual à minha viva interioridade,
Foste tu que as armas forjaste
Com quais te golpeio lancinante;
Somos da transcendência as metades.” – Estrofe da poesia Sabedoria.

            Quanto ao “Fim de Toda Existência, Prelúdio do Fim e Outros Escritos”, assim como em qualquer trabalho, procurei trazer ao leitor o máximo de essências possível, formando uma abstrata pintura de incontáveis aspectos. Meus conceitos a respeito de como a literatura deve ser feita nunca mudaram: aflorar as emoções, causar impacto ao leitor, seja pelo estrondo ou pela sutileza – há infinitos caminhos –, de modo que lhe ocorra uma reconstrução. O leitor deve ser arrebatado de tal forma a ponto de precisar ler duas vezes a mesma página para acreditar que ela realmente foi escrita, sendo tão fulminante seu conteúdo. Em meu caso, procuro trazer à tona o sublime que jaz no grotesco, no tétrico, no monstruoso… a beleza perdida na escuridão. Pois, considero esplêndida a mistura do magnífico com o sombrio… da beleza com a destruição. E foi justamente isso que fiz no primeiro romance do livro, Prelúdio do Fim, no qual o paraíso é soterrado em meio a aberrações e infernos. Nele, a dor, o horror, são constantes. Trata-se de uma fábula negra, o prelúdio para o fim da existência, que pode ter o sentido de desconstrução ou de derradeira apoteose. Fiz essa história para apresentar um personagem – a mulher sem rosto – que terá grande participação nos volumes subsequentes. No conto que se segue, Poente da Eternidade, paralelo à trama do Fim de Toda Existência, é relatada a história de um assassino, que viveu em tempos imemoráveis, onde (ficticiamente) não existia velhice e sua mortal consequência. Após perder o amor que o livrou da ânsia de matar, acaba perdido numa terra de demônios, onde a sobrevivência lhe é o pior dos castigos. Além de apresentar este personagem, que será retomado no futuro da trama, quis abordar o tema da evolução humana, fazer um personagem adaptar-se e evoluir às mais horríveis condições em terras desconhecidas e inóspitas, sendo a morte seu maior anseio. No romance Bétula, uma cidade está, por séculos, enclausurada do mundo por causa de uma demoníaca floresta, da qual só os pedaços de algumas pessoas que nela se aventuraram são cuspidos na planície que a antecede. As demais, jamais foram encontradas. Eis que resta aos habitantes desta cidade decidirem se ali permanecerão, vivendo no terror, se fogem para as altíssimas montanhas ou se desafiam as maldições da floresta, no intuito de dar-lhes fim mesmo que encontrem apenas a morte nessa empreitada. Noutros trabalhos meus ainda exploro o horror e o absurdo, como nas poesias coligadas “Musa Empírea” e “Exéquias da Esperança”, onde emerge com peso máximo a dor do existir e a renovação dos ânimos após a tempestade de cinzas; na poesia Sabedoria, onde há um emocionante embate entre um sábio e sua amante intrínseca; na Perfeição, há a loucura e o desespero de uma busca que já se iniciou perdida, ambos criados tão somente pelos devaneios do protagonista; na “Canção às Convenções”, há a contestação da utilidade das convenções em nossa época e de quanto elas restringem nossa liberdade, sendo nós os atores de uma peça; e, na crônica “Tudo é Grêmio e Inter, Tudo é Big Brother”, há uma reafirmação do tema da poesia anterior, com abordagens mais sarcásticas. Impactante e engraçado. Nos agradecimentos, também há a crônica “A Nossa Glória dos Outros”, que traz a tese de que nada que criamos, de fato, é original, provindo de uma essência alheia a todo existir, pois tudo nos é assimilação. “Apenas desejamos alcançar um patamar, porque uma lembrança, independente de ser nova ou antiga, querida ou não, direta ou indiretamente inspirou-nos a tal.” O primeiro escritor, que em ninguém pôde se inspirar, colheu na natureza sua inspiração... e por aí vai.

Se o mais bravo e triunfante herói
É tão ridículo quanto um ébrio
Pela silente sina que o corrói,
O piadista é o maior dos sábios,
Pois toda aparência ele destrói.” – Estrofe da poesia “Canção às Convenções”.

                       

domingo, 1 de julho de 2012

Os Males da “Caixa de Pandora”


“Somente o impublicável torna-se público.”
Oscar Wilde, há cem anos (imaginem como estão as coisas agora!).

(fonte imagem: noticiascabana.blogspot.com)

“Ado Ado Ado, cada um no seu quadrado…”, “Todo mundo sabe (de tal coisa), menos a Luisa, que está no Canadá!”, “Para a Nossa Alegria” – e para a desesperança de quem ainda se conserva intelectualmente vivo. São incontáveis os exemplos da sabedoria que escoa pelas ruas e é incrível como QUALQUER COISA que caí na mídia vira moda, independente se é bom ou ruim, se tem alguma espécie de complexidade em sua elaboração (pode ser simplista a criação e estupenda. A complexidade a que me refiro é na originalidade e qualidade da proposta e da ideia que envolvem determinado trabalho). Qualquer coisa que é mostrada na TV, no Youtube, em qualquer local e é idiota suficiente para alguém gostar e passar adiante, torna-se lei! O adventos dos novos e odiosos tempos! É como se boa parte da população não tivesse critério algum! E tudo isso devo à mítica Caixa que Epimeteu (presente dos deuses) guardava, na qual estavam aprisionados todos os males. Pandora, sua mulher (também presente dos deuses – o verdadeiro presente de grego!), a quem o marido avisara para não fazê-lo, abriu a Caixa libertando todos os males à exceção de um. Perceptivelmente, sendo o mito de que a curiosidade feminil cause a castigos irreparáveis ou destruição humana também é retratada na Bíblia em Eva, que tanto os gregos quanto os hebreus acreditam que a mulher é a razão de toda a perdição e desgraça (e, ironicamente, apesar de todo o machismo nessas mitológicas crenças contido, existem tantas crentes e evangélicas que leram de cabo a rabo os textos sagrados e oram dia após dia, algumas até chorando na presença de Deus...). A respeito da analogia que apresento, diriam que a TV é a Caixa de Pandora, mas serei mais profundo e polêmico: o teatro, o cinema o são. Embora eu seja cinéfilo e teatrófilo e pense que este foi o maior passo evolutivo da humanidade pois, a meu ver, foi quando o ser humano pôde enfim ver-se num espelho, imitar a própria vida, vê-la como uma representação, muitas vezes trágica sem sentido e nos foram permitidas reconstruções e nos desarraigar de mutáveis absurdos.
 Haverá, logicamente, quem vai argumentar a favor de outros aspectos mais científicos ou religiosos, mas é esta a minha atual opinião. Creio que com a visualização das ideias até então só apresentadas em livros sobreveio a deturpação e massificação da arte que hoje nos macera a alma. Logicamente, naquele tempo e nos séculos que se seguirão foi algo espetacular, uma evolução até então jamais sonhada (tal como foi no caso da TV. Alguém da antiguidade pensaria que num futuro armazenaríamos imagens numa caixa mágica sem revestir tal pensamento com algum fator mítico?), mas quando se popularizou o conhecimento e percebeu-se que a arte, a informação, era boa para ganhar grana e conter a população, a coisa toda desandou. Obviamente, não é a arte o problema, mas sim o que dela tencionamos fazer.
E eis um paradoxo: quando se abriu as portas do conhecimento a todos os seres humanos com um pingo de interesse em atingi-lo, muitos nele depositaram, ao contrário de quando o mesmo era restrito, o seu pior. Evidentemente, não quero que volte a ser exclusivo o conhecimento a uma minoria, bem pelo contrário, quero que todos tenham acesso a ele, mas de modo que as pessoas sejam absorvidas por conhecimento (sem perder sua capacidade de pensar por si mesmas) e não o contaminar com imaginações mal desenvolvidas (refiro tanto ao sentido de embrutecimento quanto ao de uma criativa mutilada – geralmente, é quando o indivíduo desconhece que a realidade que ele enxerga é apenas uma extensão de sua criatividade, que, tal como os outras energias do corpo, ela precisa ser gasta). “Os olhos dela precisam ser alimentados”. Frase dita por Iago, vilão da tragédia de Otelo, a Rodrigo para que não se preocupasse, pois sua amada Desdêmona não ficaria muito tempo com o mouro em razão da feiúra deste. Alimentados os olhos, a mente. Isso ocorrerá de um modo ou de outro, tal como o desejo sexual. “Nos corpos mais frágeis, a imaginação age com mais força.” Dito pelo fantasma do pai de Hamlet. Mas isso é pra outro texto (assunto vastíssimo! Fica pra próxima!). Ao passo que “evoluímos” como civilização e permitimos que, em razão de uma moderna e insuficiente quebra de valores (digo “insuficiente” porque desprezamos sem conhecer a cultura e os moldes que nos elevaram até então, que anteveram nossas tendências e “revoltinhas” culturais) um lamaçal conspurcasse a arte e o conhecimento tão apurados no decorrer dos séculos – se visto à parte dos preceitos sociais e humanos – e, neste processo, ficamos abaixo do homem primitivo, pois não somos nem plenos (do podemos ser quanto às nossas pessoais capacidades) nem originais (tal como é o homem primitivo, mais próximo da natureza criadora e sua força original). Então, por isso, que a Caixa de Pandora, além de acabar de enterrar a ínfima racionalidades dos broncos, dizimou os sábios, pois, como Kafka exemplificou em seu conto “Um Artista da Fome”,  todos os artistas e intelectuais de alma gigantesca tendem a morrer por inanição. “… porque eu nunca encontrei um alimento que me agradasse. Se eu o tivesse encontrado, certamente não teria feito nenhum e alarde e me empanturrado feito você e todo mundo.”
O estranho é que Pandora somente pôde reter um item na caixa dos males humanos após tê-la aberto e dele livrou a humanidade, para o seu bem ou o mal. A Esperança.