segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Nossa Glória dos Outros

              O acaso nada conquista, e a sorte, na maioria das vezes, não mantém comércio nenhum com o sucesso. O legítimo triunfo é tão somente a extensão da vontade de uma pessoa que, em determinado momento, almejou algo que não lhe era acessível. Outros proveitos, obras da casualidade, não são os frutos de uma conquista. Em outras palavras, é inconcebível que alguém seja unicamente responsável pela glória alheia; das conjeturas à realidade é um caminho exclusivo daquele cuja imaginação deu forma ao sonho. Fortuitas intervenções podem servir de subsídio, mas não dão vida à realização. Ninguém pode obter conquistas ou delas ser digno se não for o senhor de suas próprias batalhas. Sendo assim, a cada um compete o prêmio equivalente ao impacto de sua vontade. Quanto mais escura, perigosa e inexplorada a senda pela qual um desbravador busca o triunfo, maior será sua satisfação quando o alcançar, pois nele, acima de tudo, constará o máximo de suas faculdades até então. De fato, é na luta que se gera a força. 
Entretanto, sendo todas as vitórias troféus pessoais, não esqueçamos que nossa vida está intercalada a milhares de outras, e nossos sentidos a infinitas percepções, mesmo que por nós isso não seja notado. Num dia, interferimos na rotina de várias pessoas, enquanto outras incontáveis à nossa incidem interferência. Deslumbramos paisagens em toda a parte, de todas as formas e texturas. Aromas urbanos, fragrâncias campestres, o perfume da terra em flor, nas ruas e prados, esquinas e pântanos. Melodias na confusão das cidades, nos intermináveis labores da natureza. O nascimento de um amor, a morte de um amigo. Desalentos, esperanças, emoções. Saber apreciar as companhias tanto quanto se deve saber aproveitar a deliciosa solidão. De boas ou más origens, constantemente, sofremos influências dos universos que nos volteiam, as quais, cada uma a seu modo, tornam-se indispensáveis ao surgimento de nossas características. Muitas dessas influências formam o ímpeto que nos impulsiona a alguma realização, isto é, à intensa vontade de realizar e fugir do conformismo oriundo das rotinas.
De que maneira artistas poderiam inventar, se algo não lhes impelir?  Antes de pintar, a realidade e sua derivação ficcional condensavam-se na mente do pintor para ensinar-lhe a escolher e combinar as cores, o manejo adequado do pincel ao seu escopo. A pintura que veio a despontar, ele já havia visto seus fragmentos dezenas de vezes noutros aspectos. Um escultor contempla e afaga o monumento que ele recém acabou de esculpir. Um livro lhe trouxe a ideia. Tal estátua possui mais de mil anos. Muito antes de criá-la, o músico já ouvia sua composição. O escritor emprega seu testemunho: absorve com toda a sua abrangência sensorial as influências do mundo, canalizando-as numa linguagem única, concebida através de um impessoal código de palavras. Retira a essência da vida para lapidá-la e devolvê-la, numa outra concepção, àqueles que pertencem a ela. Mera assimilação: nossos anseios e opiniões… os sonhos de outrem. Apenas desejamos alcançar um patamar, porque uma lembrança, independente de ser nova ou antiga, querida ou não, direta ou indiretamente inspirou-nos a tal. Portanto, dizer que uma glória é só nossa é negar a si mesmo.

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