terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Poesia de Machado de Assis - Uma Criatura

Bela poesia do "Bruxo do Cosme Velho", que vai de encontro às minhas concepções e às de vários autores (a famosa Teia do Conhecimento, que parece interligar, de um modo ou de outro, todos os grandes pensadores de cada época). Vale muito a pena lê-la, assim como toda a literatura deste consagrado autor.   

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.  

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Nossa Glória dos Outros

              O acaso nada conquista, e a sorte, na maioria das vezes, não mantém comércio nenhum com o sucesso. O legítimo triunfo é tão somente a extensão da vontade de uma pessoa que, em determinado momento, almejou algo que não lhe era acessível. Outros proveitos, obras da casualidade, não são os frutos de uma conquista. Em outras palavras, é inconcebível que alguém seja unicamente responsável pela glória alheia; das conjeturas à realidade é um caminho exclusivo daquele cuja imaginação deu forma ao sonho. Fortuitas intervenções podem servir de subsídio, mas não dão vida à realização. Ninguém pode obter conquistas ou delas ser digno se não for o senhor de suas próprias batalhas. Sendo assim, a cada um compete o prêmio equivalente ao impacto de sua vontade. Quanto mais escura, perigosa e inexplorada a senda pela qual um desbravador busca o triunfo, maior será sua satisfação quando o alcançar, pois nele, acima de tudo, constará o máximo de suas faculdades até então. De fato, é na luta que se gera a força. 
Entretanto, sendo todas as vitórias troféus pessoais, não esqueçamos que nossa vida está intercalada a milhares de outras, e nossos sentidos a infinitas percepções, mesmo que por nós isso não seja notado. Num dia, interferimos na rotina de várias pessoas, enquanto outras incontáveis à nossa incidem interferência. Deslumbramos paisagens em toda a parte, de todas as formas e texturas. Aromas urbanos, fragrâncias campestres, o perfume da terra em flor, nas ruas e prados, esquinas e pântanos. Melodias na confusão das cidades, nos intermináveis labores da natureza. O nascimento de um amor, a morte de um amigo. Desalentos, esperanças, emoções. Saber apreciar as companhias tanto quanto se deve saber aproveitar a deliciosa solidão. De boas ou más origens, constantemente, sofremos influências dos universos que nos volteiam, as quais, cada uma a seu modo, tornam-se indispensáveis ao surgimento de nossas características. Muitas dessas influências formam o ímpeto que nos impulsiona a alguma realização, isto é, à intensa vontade de realizar e fugir do conformismo oriundo das rotinas.
De que maneira artistas poderiam inventar, se algo não lhes impelir?  Antes de pintar, a realidade e sua derivação ficcional condensavam-se na mente do pintor para ensinar-lhe a escolher e combinar as cores, o manejo adequado do pincel ao seu escopo. A pintura que veio a despontar, ele já havia visto seus fragmentos dezenas de vezes noutros aspectos. Um escultor contempla e afaga o monumento que ele recém acabou de esculpir. Um livro lhe trouxe a ideia. Tal estátua possui mais de mil anos. Muito antes de criá-la, o músico já ouvia sua composição. O escritor emprega seu testemunho: absorve com toda a sua abrangência sensorial as influências do mundo, canalizando-as numa linguagem única, concebida através de um impessoal código de palavras. Retira a essência da vida para lapidá-la e devolvê-la, numa outra concepção, àqueles que pertencem a ela. Mera assimilação: nossos anseios e opiniões… os sonhos de outrem. Apenas desejamos alcançar um patamar, porque uma lembrança, independente de ser nova ou antiga, querida ou não, direta ou indiretamente inspirou-nos a tal. Portanto, dizer que uma glória é só nossa é negar a si mesmo.

Prefácio do Livro "Fim de Toda Existência - Prelúdio do Fim e Outros Escritos"


“It is time to explain myself...let us stand up.*


Alguns esclarecimentos antes da leitura: quando o comecei, meu intento para com este livro era (ainda é) iniciar uma série na qual eu pudesse explorar toda a extensão de minha criatividade e associá-la aos extremos da beleza e da destruição, sobretudo, no que se refere a conceitos existenciais. Em suma, a ideia de arquitetar o nascer e o fenecer de universos me levara a começar essa série, visto que, em minha concepção, é esta a mais sublime dualidade. Esculpir a face da perfeição, despida de preceitos ou padrões, conspurcando e lacerando-a em seguida (ou, o contrário desse processo, construindo a perfeição de ruínas e sujeira), fazia-me elevar o impacto das cenas e, consequentemente, da inteira obra. O impacto! Eis o máximo objetivo que me inclinara, tempos atrás, a tentar desenvolver uma nova vertente na literatura brasileira e mundial (o que repercute no mesmo, pois, a meu ver, se algo é merecedor de ênfase na cultura de uma região ou país, também o é nas demais culturas, porquanto a arte e a sabedoria não têm nacionalidade, e tampouco é estimado seu conteúdo por tal detalhe). Via-me com condições de adicionar à arte novas linguagens e parâmetros. Bem sei da ingenuidade dessa certeza. Hoje, estando eu mais experiente, não mais a possuo; procuro fruir da criação, fazendo-a fluir. Se algo eu puder acrescer à arte, será a fortuita consequência de uma inspiração… de um livre querer. Aliás, por propósito estabelecer doutrinas, nem conceitos que sejam dogmáticos ou doutrinários, apesar de querer desconstruir o pensamento do leitor enquanto estiver lendo este livro. Imagino que todo bom livro que merece receber o título de “clássico” é aquele que faz uma revolução na mente do leitor sem o impelir à parte alguma; que lhe apresenta várias outras perspectivas por este até então jamais ponderadas e o mergulha em sua sabedoria e obscurantismo, impulsionando-o ao pensar e à expansão intelectual (pois, ser mais sábio, não é necessariamente ter mais certezas – muitas vezes, é o oposto disso). Assim, creio estar esclarecendo que todo o conteúdo deste trabalho é ficcional e as filosofias nele empregadas não passam de teses obliquas em deturpadas realidades.
A princípio, a série chamava-se Maldição Eterna, mas decidi renomeá-la de Fim de Toda Existência, por achar este título mais condizente à minha proposta. Escrevi poucas folhas do projeto Além do Inferno (concernentes ao que hoje se denomina Bétula), e abandonei-o temporariamente para começar a trama de outro modo, pensando em retomá-lo como uma continuação. Parti para o livro Maldição Eterna – O Berço da Maldição (Prelúdio do Fim, atualmente). De lá para cá, o texto sofreu incontáveis reformulações em decorrência do aperfeiçoamento que obtive conforme crescia meu interesse pela leitura, sendo que, a princípio, minha maior fonte de inspiração era o cinema. Eis a questão: sou apreciador da arte desde sempre, sobretudo, cinéfilo, visto que eu ainda desconhecia a literatura clássica. Ao conhecer as obras de autores mundialmente consagrados (não me restringindo apenas aos frutos de minha querida pátria, em razão de tantos outros magníficos pomares a se desfrutar), foi enormíssima a expansão de minha criatividade e desenvolvimento artístico, porquanto um artista escritor, segundo meus conceitos, deve ir além da transmissão de informações e da autenticidade no estilo; ele deve ser capaz de manejar a mente do leitor, ditar-lhe as sensações, arrebatá-lo de tal maneira que a ele nada exista além da leitura em suas mãos. Pintar uma obra-prima cujas contemplações posteriores sejam mais intensas do que a primeira; isso é o que difere o real artista. Enfim, tive então de ajustar a obra aos conhecimentos e à linguagem que eu passava a assimilar, enquanto escrevia outros textos (tais como o Poente da Eternidade, que pertence à série Fim de Toda Existência, sendo uma história paralela à do Prelúdio do Fim e não propriamente uma continuação). Em suma, foi trabalhoso ao extremo produzir este livro, mas valeu o esforço: ei-lo pronto. Isso já me basta. 
 Referente à série Fim de Toda de Existência, no romance principal são relatados os singulares eventos que culminaram no desaparecimento de uma cidade no ano de 1809; no conto Poente da Eternidade, consta o relato de um assassino que viveu numa época insuficientemente registrada pela arqueologia (segundo a realidade que criei), muito anterior à contemporânea, na qual não existia velhice e a sua consequente morte. Em ambas as histórias, minha intenção maior foi apresentar ao público cruciais personagens dos volumes ulteriores, cujas vivências, apesar de eles pertencerem a diferentes linhas de tempo, intercalar-se-ão.
 Depois de concluídos esses dois projetos, retomei as poucas páginas do primitivo Maldição Eterna completando-as, modificando o título e boa parte do contexto para incluí-las, em formato novelesco, a este livro. Bétula conta a história de uma cidade isolada do mundo por uma misteriosa maldição, cujos habitantes, à beira da loucura, tentam achar meios de desvendá-la e dar-lhe fim ou, ao considerarem tal impossibilidade, de sobreviver-lhe. Por haver sido, a bem dizer, a minha história primeira e a precursora da série, embora eu tenha preferido deixá-la à parte, pode-se detectar uma relação entre os enredos dos trabalhos já citados, mantida propositalmente a fim de que não se perdesse a ideia original. Além destas prosas, há a compilação Cantos da Subversão, na qual constam cinco poesias (Musa Empírea, Exéquias da Esperança, Sabedoria, Perfeição e Canção às Convenções) e uma crônica (Tudo é Grêmio e Inter, tudo é Big Brother!, que, a propósito, é a segunda apresentada no livro. A primeira está nos agradecimentos – A Nossa Glória dos Outros).
Para finalizar, ressalto a linguagem arcaica a estas obras atribuída. Fi-las assim; agora é tarde. Por ora, eis tudo.
Marcelo Ávila Marques.



* “Hora de me explicar... todos de pé!”. Trecho do poema Canção de Mim Mesmo (Song of Myself), de Walt Whitman, publicado no livro Folhas de Relva (Leaves of Grass). Tradução: editora Iluminuras.