terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tudo é Grêmio e Inter, tudo é Big Brother! (Crônica do livro "Fim de Toda Existência - Prelúdio do Fim")


                Futebol: paixão e ilusão nacional. O Coliseu dos novos tempos. “Viva o povo! Continuem a dar pão e atração para ele, pois mais do que isso é exagero, além de ser uma quebra de protocolo”. Receio ter de rachar, esmigalhar o coração de alguns torcedores fervorosos e o de outros adeptos de qualquer outra coisa (e, consequentemente, instruir centenas a serem meus inimigos por reafirmar a nulidade do “dois e dois são quatro”, conforme fez Dostoievski através de seu homem subterrâneo), mas, enfim, ao meu ver, é melhor ter um coração rompido do que escravo, independente de quanto ele vá doer, visto que podemos denominar essa dor como uma espécie de evolução (ou subversão, como acharem melhor). Além do mais, pelo marchar das nações, cedo ou tarde, de modo qualquer, ele há de se romper. O ruim é que isso acontecerá sem os efeitos de uma descoberta oriunda somente do genuíno pensar. E sem a devida experiência para se sublimar as circunstâncias (exercitando o estoicismo), uma forte base cultural acaba por levar o indivíduo à morte em vida, ou seja, à inexistência como ser humano. Afinal, há muitas diferenças entre viver e existir. Uma cadeira só existe, por exemplo. Uma pessoa que busca o conhecimento vive mais, mesmo que nem chegue perto da velhice. Como tenho a audácia de afirmar isso? Vocês me perguntam: não será um empresário inculto mais feliz que um literário, em vista da disparidade social e, portanto, possuidor de uma vida mais pródiga? Meus caros, não é por felicidade, tampouco prodigalidade, que me digno a retirar do bolso minha balança portátil e lhes mostrar a diferença. A questão é simples: o intrínseco valor. Ser, não somente possuir. O ato de possuir é infinitamente mais vazio que o ser, visto que este é, de fato, a única coisa que nos pertence. É incrível como alguns se contentam em viver tão miseravelmente! Por exemplo: há muitas celebridades paupérrimas de inteligência e talento que são referência nacional em outros países (variavelmente, como “artistas” ou saltimbancos). E às favas com a real arte e quem a aprecia! Blasonam, iguais a muitos por ai, tanto o ser quanto o possuir a tal ponto de não perceber que seu “mundinho” e “convicçõezinhas” são tão resistentes e firmes quanto mamão estragado. Esse tipo não merece quaisquer análises. Bom, vamos ao que interessa: sepultar algumas falsas idolatrias.
Já pararam para pensar em quantas tribos há no Brasil? Quantas são as “espécies” humanas? Incontáveis. Gremistas, colorados, palmeirenses, petistas, umbandistas, católicos, evangélicos, ateus, espíritas, maçons, pagodeiros, sambistas, roqueiros, contra ou a favor do governo, contra ou a favor das nações estrangeiras, de muitos times, partidos e religiões… enfim, cada um de acordo com a sua inclinação, cada qual uma junção de influências. O quê?! Não sabiam disso? Somos o que absorvemos do mundo. Nosso verdadeiro “eu” (se é que existe isso – já chegaremos nesse ponto) é tudo o que foi filtrado pelos nossos sentidos e se condensou num tipo de “ideia fixa” (que Brás Cubas me perdoe!). Evidentemente, o que chamamos de ideia fixa é algo extremamente volúvel. Ou seja, queremos a todo instante nos convencer que seguiremos sempre o mesmo propósito, sempre a mesma ideologia e moral, que possuiremos a vida inteira apenas uma índole e, especialmente, que nunca, em hipótese alguma, cairemos em hipocrisia (ai, que Deus não permita!), e toda aquela honrosa conversa que qualquer incipiente vive repetindo. Saibam: por não obedecermos uma razão constante, por não lembrarmos de todos os barulhinhos (chamados palavras) que emitimos ao léu e, sobretudo, por tentarmos antever os impulsos do corpo e nossas vontades, somos hipócritas… todos nós! Pois a cada segundo somos diferentes. Apregoamos as boas novas do Grêmio e, inconscientemente, cumprimos as do Inter. Explanamos os mandamentos de qualquer coligação, falamos de boca cheia como nosso código de conduta é supimpa, sem nos dar conta que, em recorrentes momentos, o corpo trairá a língua. Isto é, iremos contrariar em desejos e ações as regrinhas que criamos para mostrar que somos alguém.
Quê?! Sou doido e pessimista?! Hipócrita é aquela meretriz que me pariu?! Deveria eu me tratar?! Pro inferno, cérebros poluídos! São tão abjetos quanto as bestiais torcidas de futebol, que dão para si mesmas a desculpa “é o meu time do peito, posso extravasar!”, e urram feito feras, embebedam-se, rolam no chão, fazem horrores, matam e morrem só porque o timezinho deles está em campo (eis os gladiadores), cheio de jogadores que apenas querem vender a alma pro diabo que pagar mais (eis os imperadores). Aliás, nada ali pertence à arquibancada! É uma vitória completamente alheia a todos que assistem, desde os apáticos aos mais fanáticos. Nunca lhes será uma conquista legítima, e nem conseguem perceber isso. Talvez, nem vocês, que bocejam ao me escutar. Por acaso, sabem apontar a diferença do vermelho para o azul? Pois bem, eu não. Também não sei a diferença entre países, cidades e estádios de futebol. Se eu houvesse nascido na Inglaterra, seria um inglês convicto; na Bolívia, um boliviano convicto… etc., etc. “Não sou ateniense, nem grego, mas um cidadão do mundo”. Sócrates já sabia disso. Times são times, partidos são partidos… idem clubes, congregações, e tudo mais que seja convenção. Independente das diferenças que possam haver, os rivais sempre são iguais. Suas metas podem ser distintas, mas eles pararão no mesmo lugar. É indiferente em qual clubinho você vai entrar ou qual repudiará, se o mesmo preza a paz ou a destruição mundial, de fato, você nunca fará parte dele, pois, no final, mesmo que não percebamos, nossa essência sempre sobressai. Regozijai-vos! Somos maiores do que qualquer congregação que, porventura, possamos entrar, em razão do que podemos ser e não ser ao mesmo tempo. É quando somos nada que abrimos espaço para ser tudo. Além do mais, a vida não é rígida, metódica; ela flui descompassada, sem padrão, sem objetivo… ela já é o objetivo. E é justamente isso que o Sistema, o Coliseu quer arrancar de nós todos: a vida, o amor por si mesmo. De fato, o coletivo se nutre do indivíduo. Por isso, tantas mentes perecem. Faz parte do esquema engendrado pelos “Cézares” do novo mundo. O Coliseu de hoje retira do povo, do indivíduo, o prazer das próprias glórias, fazendo-o apreciar os triunfos dos outros como se fossem seus, e, por conseguinte, formando uma população de broncos desinformados e incapazes de uma realização. Perfeitamente plausível: é muito mais fácil controlar suas paixões (na verdade, inserir-lhes paixões) do que causar uma guerra civil para estabelecer soberania. A escravidão do pensamento por tolas fantasias nada mais é que o declínio da civilização e a prova contundente de que livre-arbítrio só existe para quem sabe forjá-lo. Não o recebemos, moldamo-lo. Fora disso, há apenas mentes agrilhoadas por estereótipos e rígidos conceitos. Por uma razão deturpada, que mais bestializa o homem do que o instrui, perdemos nossa supremacia em relação aos animais…
Tudo bem; eu já sei! Na verdade, o animal sou eu! Também sou um mentiroso, um estraga-prazer. Não discordo da opinião de vocês! Sou o errado, o caluniador! Sem problemas. Sou cético a ponto de também não me acreditar. Mas, nas profundezas do seu “euzinho” interior, quem não o é? Deixemos isso para lá. Prossigamos. Vamos então ao meu programa favorito: o “BBB” (“baita besteira brasileira”)! Aquela fantástica catapulta de antas, maravilha da “sétima arte”, que muitos dizem formular um excelente diagnóstico do animal humano em cativeiro (evidentemente, não o faz. Neste caso, pode a perspicaz ficção compreender com mais impacto a realidade do que ela a si mesma. E, no final das contas, o que não é ficção? Eis outra coisa que não sei diferenciar), vai de encontro a tudo que eu havia dito: a falta de qualidade imposta ao povo para que sua imaginação e inteligência fiquem atrofiadas... mofem. Simplesmente isso. É um pacto, uma troca: as organizações, os meios de comunicação se banqueteiam de um artista com elevado nível de ruindade ou mediocridade para saciar a massa com sobejos, acostumando-a com essa insuficiência à pobreza mental e recebendo um considerável retorno da mesma. Pois, assim, pode-se com facilidade controlar o rebanho do mundo e levá-lo aonde se quer. Tendo pão e diversão, quem vai se opor? Sem contar que quando nos integramos fervorosamente a alguma paixão superficial, tornamo-nos, gratuitamente, os participantes do Reality Show… viramos os enjaulados, interpretando sem saber.
Rendo-me. Nem mais uma sílaba de minha opinião darei a vocês. Vou me integrar e fingir desconhecer que a sociedade é um imenso teatro (ou Big Brother, como a genial modernidade sugere). É como diz aquele velho axioma “se não pode vencê-los, fuja pela tangente”. Saibam, senhores, que eu estava equivocado acerca de tudo, e essa análise, esse monólogo tedioso, mudou meus conceitos! Agora vejo o futebol e toda a programação da TV como algo prodigioso e indispensável ao crescimento do ser humano. Portanto, estou propenso a descer do muro: finalmente, vou escolher um time de futebol! Grêmio ou Inter? Alguém tem uma moeda?

Um comentário:

  1. Muito interessante teu ponto de vista a respeito da individualidade e coletividade do ser humano. Concordo em vários aspectos, inclusive no ponto onde somos levados a pensar que a opinião é nossa, quando muito (ou tudo) é proveniente do Sistema. Seja isso, pense isso. Isso é errado, aquilo certo! É incrível como alguém pode subir no palanque e gritar com toda a convicção que uma simples escolha é a verdade absoluta e não somente um mero ponto de vista.

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