sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Parte de meu livro (do conto "Poente da Eternidade")

Exércitos são constituídos com a mesma facilidade que são dizimados, tal como é relapso e nulo o número dos que morrem e nascem. Passos à frente em meio ao escuro são incertos demais para se apoiar em confianças. A maioria, os que ainda não aprenderam a andar com os próprios pés, sentem por necessidade ter como alicerce e guia algo que lhes assegure um futuro. Soldados pertencem a esta classe, excluindo o detalhe de que os mesmos usam da força para defender e expandir sua ideologia, comandados pela opinião de uma insignificante minoria. Destarte, formam-se os exércitos e seus escrúpulos forjados. Não tive escolhas. Era viver a seus modos ou perecer à sua conduta. Meu maior ressentimento é ter sido tão fielmente um deles.
Sobrevoávamos poucas horas depois do amanhecer em algum lugar do oceano, à procura do instável destino… minha terrífica e merecida punição. Antes de haver sido capturado por aqueles a quem tantos males causei, fazia eu parte de uma horda de assassinos, devastando cidades e devorando vidas. Opositores da civilização, matávamos pelo mais vil e irracional deleite, pelo prazer de vê-los arrastando-se agonizantes sobre famílias inteiras, imersos no próprio sangue que lhes era igual. Não tínhamos um propósito que nos conduzia, nem uma consciência que nos amedrontava. Éramos nossas próprias religiões e deuses.
Eu nunca tive uma família, amigos, ou qualquer dessas futilidades compradas pelos homens, já que desde remotas lembranças, sempre vivenciei aquele horror, aquela realidade de ódio e destruição que aquecia as aspirações do meu ego. Cedo demais para uma razão individual, as trevas consumiram meu espírito, infestando as entranhas do meu corpo imortal. Sentia uma incontentável superioridade perante minhas vítimas, perante minhas habilidades assassinas, meu inflamado poder e tudo que poderia ser modificado só com a ameaça de minha presença. Minhas sórdidas ambições me impediam de ver como eu era insignificante, vagando numa abstrata vastidão, cego e solitário. As sombras das nuvens movimentam-se em distintas superfícies, transpassando todos os terrenos, mudando completamente a menor oscilação do fulgor solar, nas brisas celestes que aceleram e deformam sua peregrina origem, na intervenção de ilimitados elementos, absorvendo suas formas e essências, caminhando para mutar-se novamente, parte de uma contínua transição.
Em meio a uma tempestuosa noite, nas ruínas de uma cidade extinta, depois de usurpá-la e arrasá-la para nossos fins, procurávamos por valiosos pertences que poderiam ter escapado de nossa vistoria. Logicamente, pouco depois que os houvéssemos obtido, descartávamo-los para procurar outras recompensas, também as descartando em seguida, independente do que fossem, pois, de fato, não tínhamos interesse em posses. Conquistar e desprezar o que outros demoraram anos para construir, as lembranças que lhes eram caras, acrescia-nos a soberba e a cobiça. Vasculhando as residências em aliança com a sorte, entrei no que sobrou de uma singela casa, a qual não aparentava ter o que eu supostamente procurava, e, até na atualidade dos dias, não consigo compreender o porquê de minha curiosidade. Aparentava estar vazia, igual a muitas outras. Deparei-me com móveis quebrados, paredes demolidas e corpos esquartejados dos residentes, nada mais do que isso. De finada curiosidade, já deixava aquele lugar imundo, quando me sobreveio um ruído debaixo da cama que, a julgar, permanecia intacta. Aproximei-me com calma e, num movimento brusco, desloquei-a para ver quem ali se escondia da morte. Para minha surpresa, era uma menina, de cabelos negros como a escuridão noturna e olhos azuis avermelhados de pranto. Mais um presa, apenas isso. Não me faria diferença vê-la sangrar, apagar sua existência, não redimiria meus pecados poupá-la, como a lembrança é a dor que reveste cicatrizes, o que desencadeei não seria curado necessariamente com perdão, não excederia a hipocrisia que comanda os homens e que nenhum ser de racionalidade pode renunciar, pois esta é a progenitora de suas razões. Direcionei sobre a menina o mortal engenho e instrumento de minha misericórdia e, ela, sem transparecer temor, olhou-me com a inocência que ainda mantinha, enxugando as próprias lágrimas. Mergulhei em seus tristes olhos com arma apontada para ela, e, pela primeira vez em minha indigna vivência, hesitei. Então, repentinamente, me abraçou e eu não soube como reagir. Talvez quisesse que eu a matasse para que assim pudesse reunir-se à sua família falecida, ou apenas alguém para aliviar sua dor, mesmo que esse alguém fosse seu assassino.
Era um sentimento novo para mim; não conseguia compreender o que estava acontecendo. Parecia-me que tudo o que eu havia feito, todas as minhas ordinárias crenças, o soberbo e execrável modo de coexistir, estivessem errados. Naquela noite de relâmpagos ascendentes, fui apresentado ao arrependimento numa crise de transitórios impulsos ambíguos, que, em cada clarão de pensamento, eu e meu maior inimigo habitávamos o mesmo corpo. Mas, sem ter alcançado o discernimento para desvincular-me do ontem, voltei aos obsoletos princípios e, em seguida, a empurrei, distanciando-a de mim e de seu acolhedor abraço. Abstendo-me de matá-la, dei-lhe as costas, persistindo em minha ambiciosa e sangrenta busca. Pediu-me para esperar, que não a deixasse só, pois os cruéis demônios poderiam voltar. Sua pureza manchada não a permitiu perceber que eu também era um deles… um demônio. Prossegui, deixando os apelos ressoarem em vão, sem lhes estimar importância alguma.
Subi ao topo do prédio mais alto, e lá refleti observando o que havíamos conquistado e causado, não com os olhos de uma besta, mas de um homem, a humanidade adormecida que se mantinha refém em minha alma assassina. Nunca tivemos superioridade alguma. Começava a cogitar se existiriam outros caminhos fora das doutrinas impostas pelo passado. Nada que não fossem palavras me provava veracidade em suas leis ou na ausência delas. A maioria não deturpa a verdade ou o que ela deveria ser, uma multidão poderia errar. Acreditar em dogmas é submeter-se a escravidão do óbvio. Passada uma hora, resolvi inexplicavelmente, voltar àquela casa para querer ajudá-la, mesmo que ainda não soubesse como. Quando cheguei lá, ouvi gritos ecoando através da porta, vindos de trás da abandonada residência.
Aproximei-me de silente caminhar, vendo que dois dos incontáveis homicidas que exterminaram a população estavam prestes a cortar aquela pálida rosa juvenil. Um deles a segurava pelos cabelos, já posicionando o facão para amainar sua sanguinária sede. A menina havia desmaiado de medo, entregando-se às suas previsões, e, provavelmente, não sentiria dor. Virei as costas para não ver aquela cena, mas não me controlei, intervindo antes que o irremediável tomasse forma viva. Valendo-me de uma arma de fogo, matei os dois, friamente, antes que pudessem acionar sua vontade de reagir, como se a eles pertencesse a culpa pelos meus irreparáveis erros. Sorria sarcasticamente o destino, como mero expectador dos fatos: poderia ser eu a jazer naquele solo profanado, com vários tiros nas costas, banhado em álgida vermelhidão, aos pés de outro salvador; poderia eu tê-la violentado impunemente, matando-a em seguida, antes de havê-la deixado à mercê de outros assassinos; poderia eu ser a criança sacrificada, vítima de um alento inviável. Retirei a garota de junto dos dois cadáveres, posicionando-a, confortavelmente, em meus braços. Depressa, levei-a para longe, ao ermo, onde eles, segundo o que eu imaginava, não poderiam achar-nos.  Tremulavam as pálpebras e seus delicados braços se enroscaram em meu pescoço, ostentando uma doce harmonia em seu jovial e sofrido semblante, ao descobrir que agora estaria protegida. Decidido pela brandura de um anjo, abandonei meu passado e o que só a ele pertence. Desde minha partida, prometi que jamais roubaria o eterno fulgor dos vivos. Fui ingênuo em pensar assim…
Fugimos para o alto de uma montanha, e, na atmosfera elevada, edifiquei o nosso bucólico império. Nestas plagas, que, para nós, já haviam deixado de ser apenas um refúgio, estavam presentes todas as épocas encantadoras, incondicionais deleites, os climas mais puros, os ardores mais intensos. Sentia um contentamento tão grande, uma sensação tão inexplicável ao vê-la cuidar de seu jardim com tanta dedicação, vibrando ao desabrochar das flores no cair da primavera, que não me percebia ausente nesse grácil enlevo. Apesar do que houve, de minhas primárias intenções, passei a substituir a imagem de seu pai, que tanta falta lhe fazia, tentando proteger seu bem mais precioso da podridão que o cercava. O sorriso dela era toda a felicidade da qual eu necessitava.
O tempo é um rio infinito de plácida turbulência. Ângela amadureceu e, à minha percepção, não era mais uma menina. Deixamos de ser pai e filha para nos tornarmos o que sempre fomos, um homem e uma mulher. Mas, apesar da idade, da grosseira diferença que em aspecto físico não era tão significativa, posso afirmar que aprendi muito mais com Ângela, do que ela poderia ter aprendido comigo. Os carinhos de suas mãos suaves, os sinceros olhares ardentes, o silêncio… tudo o que está acima do que palavras poderiam significar, já que as mesmas apresentam-se sempre como pueris dissimulações do real.
Pensávamos apenas em nos amar cada vez mais, como se fizéssemos parte do mesmo corpo, da mesma alma, pois, de fato, não era uma inverdade. Transávamos em todos os lugares cedidos por nossa liberdade; em pleno ar livre, acolhidos pela natureza derivada do próprio renascimento, embaixo de cachoeiras que derramavam suas águas sobre o mundo, no pináculo do céu. Lírios não germinam onde o alento da luz se faz ausente e prados por pragas se contaminam. Novas paixões não dissolvem velhos hábitos, nem a eles se coadunam. Ainda agia com ferocidade, parecendo uma besta insaciável querendo devorá-la completamente. Muitas vezes a machuquei com minha agressividade, mas, por conceitos induzidos, acabei assumindo o controle de mim, aprendendo como devolver suas carícias brandas, a sutileza de sua suave pele, de seu corpo frágil e perfeito, fruindo do mais inebriante dos néctares.
Nunca compreendi os fatores que levaram Ângela a me distinguir dos outros, se isso era algo que merecia distinção. Provavelmente, no desespero, se arriscou à sorte de tentar, ou, quem sabe, tivesse a capacidade de ver através de disfarces e descoberto, no preço de um instante, no que poderia me converter se eu quisesse. Esperava que quando chegasse o findar dos meus dias que sobrevivesse somente uma recordação, à qual nunca existirá medição possível para a sublime e inefável riqueza que me concedera das formas mais sutis ao que sua iluminada presença fazia do universo uma partícula do nosso desejo. Quando ela dormia sobre meu peito, abraçada no calor do meu corpo, retribuindo-me com o seu, começava a desconsiderar a eternidade como uma maldição adornada por ilusões, pois, cada vez mais, eu percebia já tinha tudo o que precisava, junto a mim.



… Então, depois de ter mergulhado nas profundezas da montanha procurando por alimento, ao retornar avistei que, nossa casa, feita de madeira rústica, não existia mais. Suas cinzas varriam-se aos elevados sopros, planando sobre os arruinados canteiros pré-cultivados, o fim de uma vida. Não havia sinal algum de Ângela, nem mesmo de um cadáver. Os homicidas a levaram.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sessão de Autógrafos: Fim de Toda Existência – Prelúdio do Fim e Outros Escritos

Está chegando! Dia 12 de Novembro de 2011 (sábado), às 19h30min, na Feira do Livro de Porto Alegre. Estão todos convidados! 


Escrever esta obra foi um árduo trabalho (embora me tenha sido igualmente prazeroso, pois criar é minha vida), na qual eu empreguei todas as minhas capacidades intelectuais e criativas para fazer um trabalho que trouxesse aos leitores um deleite artístico de primeira, englobando terror, suspense, drama, filosofia e poesia. É um roteiro fortíssimo, em linguagem sublime, que beira o poético a todo instante. Extremamente impactante, creio que ampliará a percepção e concepções de quem o ler. E, sobretudo, é uma obra extraordinariamente diferente de tudo que já foi visto. Isso eu lhes garanto.
Muito obrigado pela atenção. Conto com a presença de todos.
Um forte abraço!
"Apocalipse". Guilherme de Faria. Consta no livro.
"A Humana Condição". Guilherme de Faria. Idem.