sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Perdidos na Noite (Midnight Cowboy) – Magnífico em todos os sentidos!

“Perdidos na Noite é tão extraordinariamente bom e surpreendente de tantas maneiras que fica difícil elogiar com justiça… É o tipo de obra bem feita que não se degrada, um apanhado de nossa época e localização que não precisa subir num caixote e fazer um discurso. E qualquer pedaço dela, arrancado e inspecionado individualmente, revela-se igualmente brilhante. É um filme de atuações merecedoras de prêmio, com uma qualidade total que torna evidente tratar-se de uma obra de arte… É um épico do fracasso, uma grande obra sobre vidas pequenas e ambições limitadas, algo que emerge da mais genuína profundeza americana.” – Archer Winsten.


            Decerto, uma obra-prima inigualável, de impecáveis interpretações e produção. Sou franco em dizer que é este um dos melhores filmes que eu já assisti. Só de lembrar-me de suas cenas marcantes, volta-me a vontade de revê-lo. Ainda não consegui desvencilhar-me dele (e nem sei se o pretendo).
Estrelado por John Voight e Dustin Hoffman e dirigido por John Schlesinger (1926-2003), baseado no livro homônimo de James Leo Herlihy (1927-1993), com roteiro de Waldo Salt (1914-1987), Perdidos na Noite (Midnight Cowboy – 1969) é polêmico, perturbador, emocionante e sublime. Nele, a ironia e o desespero são constantes. Muitas vezes, o expectador se pegará rindo de situações um tanto trágicas – aliás, é esse perfil tragicômico que torna a obra tão extraordinária. O filme começa com Joe Buck (John Voight), um ingênuo rapaz do Texas, indo pedir as contas no emprego de lavador de pratos numa lanchonete de beira de estrada para viajar a Nova York, onde imaginava angariar fortuna de maneira fácil e prazerosa, pois, em sua imatura concepção, havia muitas mulheres na Grande Maçã querendo homens de verdade e com dinheiro para pagar por isso. Tornar-se-ia um prostituto, vivendo uma linda vida à custa de belas e ricas mulheres… um vaqueiro da meia-noite (aliás, fortemente inspirado por John Wayne, Buck veste-se e comporta-se como um cowboy, pensando que com tal estereótipo granjearia o respeito e a admiração de todos). Então, com seu fiel escudeiro (um radinho, com o qual ele escuta sucessos country e a notícias da “Terra Prometida”), lança-se na venturosa jornada. Mas, na “cidade das maravilhas”, as coisas não ocorreram de acordo com as suas expectativas. Bem pelo contrário. Por não ter conseguido nenhuma cliente e preterido a hipótese de arrumar um emprego (já que isso poria a perder seu sonho de doce vida), depois de sofrer experiências traumatizantes para sobreviver (as quais não foram nem um pouco efetivas), contra a sua vontade, alia-se ao gatuno rato de rua Enrico Salvatore Rizzo (Dustin Hoffman), um trambiqueiro coxo, chamado por todos de “Ratso”, apesar dos protestos do mesmo em não ser chamado assim.
Neste ponto, quando Ratso convida-o para morar com ele, caso não tivesse onde ficar (o hotel havia despejado Buck, retendo seus pertences, até que o mesmo pudesse pagar a dívida). O “palácio” desse gangster fracassado é um prédio devoluto, em condições precárias. Precisavam entrar e sair escondidos, sempre. Dentro das instalações, o cenário conseguia ser mais repugnante ainda, sujo e desorganizado. Quase inabitável. Aliás, essa também é a aparência de Ratso, da mais pura decadência. Eis um ponto essencial da trama: nenhum dos dois é, de fato, um cavalheiro… um herói. Joe Buck, a despeito de sua bondade e ingenuidade, não é o tipo de protagonista pelo qual os expectadores estão acostumados a torcer, por mostrar-se demasiado egoísta e desajeitado, sem o menor tino para viver de acordo aos meandros da cidade grande, pondo a perder as escassas chances do seu êxito por sua inexperiência, arrojando o público, desse modo, com tal força, em sua voragem de frustrações. Ele não é melhor do que Ratso; e, por muitas vezes, é tão igual às estranhezas, às bizarras caricaturas humanas, que também estão a vagar pela noite. Se pararmos para pensar, eles nada são; nem, ao menos, dignos (em relação ao estereotipo o qual julgamos abarcar o sucesso) de vencer. Um cowboy sem lar e um repulsivo vagabundo; um épico do fracasso.

“Estou impressionado. Você é um assassino”.


No entanto, eles não são a rematada escória (aliás, se bem analisado, nenhum dos coadjuvantes o é). Ambos os personagens têm uma febril ambição em comum, derivada da ingenuidade e da frustração. Joe Buck não é um lavador de pratos, tampouco um galante cowboy; não pertence ao Texas, nem a Nova York, estando entre dois mundos desajustados, fugindo de seu tranquilo refúgio interiorano em razão de um sonho ambíguo. Nada lhe resta no Texas e menos do que nada lhe é oferecido na “Cidade das Realizações”. Ratso, por sua vez, teme sofrer o mesmo fado de seu pai, morrendo na pobreza. Por isso, com o mesmo intuito de Buck e igualmente sem escolhas, tornou-se um desprezível trambiqueiro. Outra coisa interessante sobre Ratso é que não se pode saber ao certo quais são suas intenções em relação ao inexperiente cowboy texano. A princípio, é evidente que apenas queria dar-lhe um golpe, mas esse intento, essa impressão, turva-se quando ele o convida para morar consigo, sendo atencioso para com ele, embora Buck, já ressabiado com todas as pessoas daquele antro, contaminado pelo espírito da cidade grande, fosse, por muitas vezes, ríspido e desconfiado, chegando a afirmar que era um perigoso assassino para inutilmente tentar intimidá-lo, mostrando-se, evidentemente, mais receoso do que intimidador (“I'm impressed. You're a killer.”); não se pode saber se ele queria apenas usá-lo para chegar a Califórnia (o verdadeiro paraíso, acessível a qualquer um, segundo Ratso) e descartá-lo em seguida, ou se realmente se importava; talvez, por ver-se também solitário e até em piores condições físicas e financeiras, ainda não houvesse decidido acerca do que deveria fazer quando estivessem “numa boa” (uma condição similar existe em Diamante de Sangue – Blood Diamond, 2006). Esse meio termo a respeito da personalidade de Joe e Rico, suscetível a diversas análises, é o que faz torna a história tão interessante e singular, pois contraria as tendências da época e traz como protagonistas e coadjuvantes personagens sem dignidade, cheios de expectativas e decepções, feridos pela frieza do mundo, guerreiros numa desesperada e patética guerra, execráveis, tenazes, irrisórios… perdidos na noite.

“You're the only one, Joe, the only,
only one ever!”

Outro trunfo grandioso do filme é o psicodelismo de algumas sequências, eximiamente produzidas, as quais têm por propósito mostrar acontecimentos marcantes do passado de Buck (na forma de lembranças e devaneios) e confrontá-los com aquela pérfida realidade – a exemplo da forte afeição que ele sentia por sua avó, e, sobretudo, o seu namoro com Annie (Jennifer Salt – filha do roteirista), cujo desenlace foi trágico. Em alguns momentos, Joe comenta sobre sua avó falecida, Sally Buck (Ruth White), e sobre sua belíssima ex-namorada, que, por muitas vezes, entre frêmitos e gemidos, afirmou considerá-lo único. Tais elementos psicodélicos também servem para ressaltar uma característica importante dessa obra prima: a subliminar relação de determinadas cenas e pormenores em tempos diferentes – como quando Joe fala a Ratso que não gostaria que ele morresse do seu lado e isso repercute em outra cena –, que são evidências do perfeccionismo de Schlesinger em abarcar outros contextos camuflados no transcorrer da trama, muito bem trabalhada. Logicamente, para um projeto receber a classificação de obra artística, independendo de qual segmento este tenha provindo, deve trazer consigo outros conceitos, outras perspectivas, intrínsecas sutilezas para ampliar-lhe os vieses de sua significância – ser a própria confirmação e antítese –, a ponto de não poder ser classificado por uma trivial análise e suas ideias digeridas na primeira vez. Uma obra só é longeva quando permeia e resguarda em si distintas amplidões, como grandiosos enigmas à espera de alguém que os revele. Por sua vez, Cowboy da Meia-Noite (que, aliás, é uma gíria norte-americana que significa “garoto de programa” – eis outra oportuna ambiguidade dentre tantas: a materialização de uma metáfora que é a ideia primordial da obra, por onde as demais se desenrolam), vencedor de três Oscar (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Diretor) e indicado a outras três categorias (Melhor Edição, Melhor Ator – Jon Voight e Dustin Hoffman – e Melhor Atriz Coadjuvante – que rendeu a Sylvia Miles uma das mais curtas participações já indicadas ao Oscar, visto que sua personagem, Cass, permanece em cena por seis minutos apenas), não é longevo unicamente, mas atemporal (indiferente ao tempo), pois causa tanto impacto hoje em dia quanto na época em que foi lançado. Segundo a opinião de críticos (e nesse argumento também incluo minha opinião), em razão das pesquisas de campo efetuadas pelas produtoras hodiernas antes de encerrar ou, até mesmo, iniciar o projeto (veio o comércio, foi-se a arte…), se poderia fazê-lo, nos dias de hoje, com tanta qualidade, com tanta força e beleza, sem comprometê-lo drasticamente (que os diretores “remakers” fiquem longe desta maravilha! E continuem focando sua criatividade industrializada e retrógada em roteiros de super herois, cinema thrash e vídeo games). E, claro, não podemos nos esquecer da excelente trilha sonora, que dá um tom country (e muitas vezes melancólico) ao filme – ressalto a música-tema “Everybody’s Talkin”, de Harry Nilsson, que complementa perfeitamente o tema central do projeto. Enfim, está feito o meu humilde comentário sobre este clássico do desespero e da esperança. Pouquíssimos filmes a ele se igualam. 

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