quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Canto do Cisne no Cinema...


            Filmes bons, que se eximem do apelo comercial explícita e implicitamente, produzidos hoje em dia conforme os moldes clássicos e expressamente artísticos, são extremamente raros de se encontrar. E os excelentes, obras-primas em seus gêneros, estão praticamente extintos. Por isso, há de se garimpar muito até que consigamos descobrir estes belos frutos entre tantos estragados. Mas, forçosamente, para encontrar tais raridades, tendemos a assistir algumas ruindades comerciais, visto que é o mesmo que procurar agulhas num palheiro (acho que a metáfora “procurar jóias numa fossa” seria o mais adequada). Nesse masoquismo cinematográfico, enquadra-se o Cisne Negro (Black Swan – 2010), filme aclamado pela crítica, indicado a vários prêmios, que eu tive o desprazer de assistir.
Antes de prosseguir com a minha crítica, quero esclarecer que não tenho qualquer preconceito quanto aos filmes não tão bons (quando a inclinação não é boa), já que nenhum artista está livre de fazer um trabalho que não corresponda às expectativas do público mais exigente, independente de quão talentoso ele seja, já que as tentativas de unir originalidade e qualidade nem sempre são satisfatórias. Afinal, não temos certeza de que uma ideia irá agradar tanto o público quanto a nós mesmos tempo depois de a termos materializado. Geralmente, nunca conseguimos agradar o nosso eu que está por vir – essa é a sina de todo artista, uma vez que, a despeito de considerar imensamente aprazível o que faz, nunca é para si. É um filho que largamos no mundo, logo após o nascimento. Na realidade, o que eu deploro (e os críticos mais contundentes me hão de convir) são os filmes comerciais, feitos com o propósito exclusivo de vender, embasados em fórmulas que já deram certo (fazendo uma cópia ou continuação de um clássico, com qualidade inferior ao original, sem nada criar), ou alimentando a criatividade da massa com tramas superficiais, fáceis de serem digeridas, clichês, e diálogos sem a devida elaboração, estilo “Sessão da Tarde”, que nada acrescentam. O cinema, assim como todas as vertentes artísticas, não é tão somente um entretenimento, não tem a simplória significância de uma reles atração; é infinitamente mais do que isso. A real arte é aquela que faz uma desconstrução na mente de quem a aprecia; que nos traz a perspectiva de outra realidade, da qual não conseguimos nos desvencilhar, de tão esplendido e arrebatador que é o seu contexto. Também, assim como na releitura de um livro extraordinário, toda vez revemos uma obra-prima da cinematografia mundial é ampliada nossas percepções quanto à mesma. Por consequência, nossa fruição. Cisne Negro nem sequer se aproxima de tal parâmetro.
            Motivado pelos comentários de muitos que asseguravam a qualidade do filme, alegando tratar-se de um filme perturbador, intenso, com profundidade psicológica, e, também, por já ter visto uma obra maravilhosa no mesmo estilo (The Red ShoesSapatinhos Vermelhos – de 1948), aventurei-me a vê-lo, para minha imensa decepção. De início, percebi que seria tempo perdido: a personagem principal era muito diferente do que eu imaginava. Esperava uma bailarina obcecada, de personalidade indômita, completamente cegada pelo perfeccionismo (com a mesma falta de escrúpulos para concretizar seus objetivos de Lady MacBeth), que nada via a não ser o balé, e encontro uma versão tímida, tangendo o autismo, de Natalie Portman. Tudo bem, antecipei-me e presumi errado; na realidade, a proposta era perverter a excessiva inocência da personagem, tornando-a a personagem má que citei. Desapontado (e entediado), continuei a assisti-lo sei lá por qual razão. Não demora muito para se perceber outro detalhe detestável: os diálogos demasiadamente mal feitos e desinteressantes, irrisórios em muitos momentos, como na cena em que a protagonista cai no meio da grandiosa apresentação (a câmera, nesse ponto, bem mostra o rosto choroso de Natalie Portman que “eu tanto adorei”- a essa altura dos fatos, eu estava tentando arrebentar os pulsos com os dentes) e o bailarino atrás dela diz: “que merda é essa?” (essa pergunta é minha ao ver tal cena); na parte que Nina Sayers cumprimenta (chorosa again) a sua rival por ela ter conseguido, supostamente, o papel principal do espetáculo, sendo que esta retorna enfurecida com Nina por ter zombado da cara dela (é melhor do que novela!!!); e a parte que Nina e sua amiga vão a uma danceteria, onde alguns baladeiros "as cortejam" imbecilmente, gerando um dos "melhores" diálogos que eu já vi na minha vida! Poxa! Esperaria tal cena num besteirol, não em um filme tido como “bela arte”. Falando em arte, isso também é escasso em Cisne Negro, visto que o balé, o tema essencial do filme, é pouco abordado e explorado (veja Sapatinhos Vermelhos, no qual há uma cena de aproximadamente 20 minutos de dança – dança legítima, não o que Natalie fez no filme). E a profundidade psicológica de que tanto falam? Além de terem escolhido um tema abordados por inúmeros livros e filmes – nós somos os nossos maiores inimigos  (logicamente, pode se gerar originalidade de um tema defasado dependendo da perspectiva que ele é exposto e maneira que é trabalhado) , não traz nada novo. Não possui, nem de longe, o impacto que consta em sua proposta; é meramente um filme comercial. E como foi aproveitado o tema em questão! Pois, apesar de já estar "manjado", ainda possui uma infinidade de vieses com os quais é possível forjar uma ideal genial. Deste modo, poderiam ter apresentado certa originalidade ou feito um rearranjo surpreendente, se houvessem trazido a arte à criação e não somente tencionado contar uma história de um jeito qualquer. Se, por exemplo, fossem versados em Allan Poe (talvez, até sejam) saberiam perfeitamente como desenvolver personagens incomuns, perturbadores – como no filme franco-italiano Histórias Extraordinárias (Histoires Extraordinaires, de 1968), baseado em três contos de E. A. Poe (Metzengerstein, “William Wilson” e “Never Bet the Devil your Head” – “Nunca aposte sua cabeça com o Diabo”), cujos protagonistas – uma condessa libertina e sádica (Briggitte Bardot); William Wilson (Alain Delon), outro sádico, inescrupuloso; e Toby Dammit (Terence Stamp), um ator shakespeariano decadente por causa do alcoolismo, podre de tão cético – são terríveis, turbando, com excelentes interpretações, qualquer ética ou lógica.
Por fim, vi em determinado blog (agora não me recordo), uma comparação entre Black Swan e The Red Shoes, por terem o balé em comum, além de outros elementos. Mas, mesmo com certas semelhanças, depois de tudo que foi escrito aqui, afirmo que não há como compará-los: o filme de 1948 é belíssimo desde seus cenários, figurinos e iluminação (que formam uma composição feérica), os diálogos são brilhantes e todo o seu contexto é voltado para o fascínio artístico. E sem contar que o final é deveras emocionante. Apotéotico. Em suma, Cisne Negro tem roteiro, diálogos, personagens, atuações  e direção que deixam muito a desejar, todos esses elementos mal inseridos num insípido contexto. Infelizmente, não se fazem mais filmes como antigamente…

(The Red Shoes)

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