quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Selva de Bestas – A Ignorância como Razão


            12 de Junho de 2011. Dia dos Namorados. Data conhecida mundialmente e, assim como outras ocasiões comemorativas, é um pretexto para as extravagâncias do povo, muitas das quais resultam em tragédias, sem que seus autores, insensatos culpados, tenham ciência do mal que causaram. Na noite daquele fatídico domingo, enquanto os enamorados curtiam o seu momento, a sua convenção, uma senhora dirigir-se-ia ao prédio no qual algumas amigas suas residem. Pretendia cobrar-lhes o pagamento de cosméticos vendidos, tal como combinara com suas clientes e era de seu feitio nos fins de semana. Nem o horário era inoportuno, pois a recém havia passado das 20 h e 30 min., momento em que, geralmente, ainda há considerável fluxo de pessoas e veículos na P/67 da Av. Dorival Cândido Luz de Oliveira (a principal do município de Gravataí - RS). Na realidade, foi esse fluxo desorganizado, a “curtição” sem proporções, que se tornou o problema. Ao tentar atravessar a avenida, tal senhora não viu a súbita aproximação de uma moto, cujo motorista, um adolescente, a estava empinando (é esta a nova modalidade circense dos jovens da atualidade – talvez, também seja a de alguns motoqueiros “mais expertos”). Ela não enxergou a moto, pois a iluminação dos faróis estava apontada para cima, assim como o rapaz não a pode ver em seu caminho, por estar com os “olhos voltados para a lua”. Houve então o atropelamento: a senhora foi bruscamente arremessada ao chão pela força da batida. O rapaz, aparentemente sem ferimentos sérios, apressou-se em levantar a moto e fugir sem prestar socorro, deixando até o amigo que estava na carona do veículo. A senhora ficou ali estirada, encolhida, inibida de mover-se, vertendo sangue. Tal senhora era minha mãe.
            À época, eu estava viajando e recebi a notícia surpreso, mas não tão surpreso (como diria Franz Kafka), pois os perigos existentes nas ruas, a quem procura informar-se e integrar à sua consciência as probabilidades de infortúnios, não são novidade. Vim o mais depressa possível a Gravataí, encontrando-a no hospital em que permaneceria por dois meses. Ela sofrera fraturas múltiplas (inclusive intracranianas), mas, por muita sorte, encontrava-se relativamente fora de perigo e recuperando-se espantosamente. Ao que parecia, era questão de tempo até que seu corpo voltasse à normalidade, sem graves resquícios do acidente; porém, no processo de amenizar o inchaço cerebral, foi definitivamente comprometido o nervo óptico; ou seja, ela ficou cega. Não sei se realmente a cegueira dela é definitiva; ao menos, é essa a opinião dos médicos. Uma pena, visto que ela está quase recuperada das fraturas e em condições de caminhar, porém, sem ver. Tão ativa ela era, tão determinada e estóica; é de rebentar o coração vê-la assim. E nem ao menos pudemos achar o inconsequente que fez isso. Quando cheguei em Gravataí, estranhamente não tinha processo algum sobre o caso em vigência. Tampouco, conseguimos obter o número da placa. Havia uma multidão no dia do acidente a acorrê-la; aparentemente, pela correria da situação, ninguém o pode anotar. Possivelmente, o imaturo exibicionista não será pego até que cometa outro acidente.  
    Bom, isso ainda não é pior, pois, decerto, ela não será a única vítima. Estando minha mãe em casa a restabelecer-se, para descontrair após uma semana estressante, fomos alguns amigos e eu a uma pastelaria. Chegando na avenida, vimos balbúrdia em toda a parte: calçadas abarrotadas de pessoas e carros mal dispostos nas mesmas, apertando-se para ter um espaço, e motoqueiros a empinar em plena avenida sem a menor consideração com o que pode acontecer a eles e aos outros. Muitos desses motoqueiros faziam o retorno para passar repetidas vezes pelo mesmo trecho, pois havia ali maior platéia. Que ganham com tal exibicionismo? Bestas Irracionais! Crianças autodestrutivas! A estes seres irresponsáveis foi concedida a ingente responsabilidade de dirigir? Falta-lhes, acima da própria experiência como motoristas do que quer que seja, a ética, a noção das conseqüências de seus atos. Assim como, quando determinado time vence um campeonato, todos os trogloditas vão às ruas para urrar e fazer baderna, chegando até a subir em cima de ônibus que por ali transitam, os quais, graças a essa turba enlouquecida, não conseguem locomover-se e cumprir a tempo o seu roteiro de viagem. Isso é a pura ignorância, a rematada bestialidade, tomada como “razão” (“meu timinho ganhou, então posso extravasar!”). Admira-me que ainda não houve providência alguma para impedir os “empinadores de moto”. Ao menos, essa prática infantil e perigosa deveria ser expressamente proibida nos lugares movimentados e suscetíveis a acidentes, em vista dos prejuízos que serão evitados. Avenidas não são campos de guerra, nem picadeiros para os loucos.



 Imagem de um acidente, ocorrido em João Pessoa (PB). Após derrubar a jovem que estava na garupa (que, ao cair, quase foi atropelada por outro veículo), quando se divertia empinando moto, o imprudente rapaz fugiu, sem prestar socorro. Repete-se a história...   

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