quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A FÊNIX E A ROLA

(William Shakespeare. Tradução de Oscar Mendes)

Deixai que a ave mais estrídula
Da Arábia na árvore, sozinha,
Seja trombeta e triste arauto
A que obedeçam castas asas.

Mas tu, gritante mensageiro
Precursor sujo do demônio,
Áugure do final da febre,
Não te aproximes deste bando.

Desta assembléia seja expulso
Todo volátil preador,
Menos a águia, rei das plumas:
Rigor se exija nas exéquias.

Que de alva capa seja o padre
Que cantar deve o hino fúnebre,
O cisne, que prevê a morte,
A fim de que não falte o réquiem.

E tu, corvo tricentenário,
Que fizeste teu negro gênero,
Com o alento que dás e tiras,
Serás das nossas carpideiras.

Aqui a antífona começa:   
Morreram o amor e a constância;
A fênix a rola voaram
Daqui, na mesma flama unidas.

Tanto se amavam que, duas sendo
No amor, só uma eram na essência;
Distintas, mas indivisíveis:
Nelas o amor matava o número.

Dois corações, mas sempre unidos;
Distância e não espaço via-se
Mediar entre rola e fênix:
Mas nela era maravilha.

Tanto entre elas brilhava o amor
Que fulgura a rola via
Nos olhos da fênix o seu:
Uma só alma eram as duas.

Causava sem dúvida espanto
Ver que o próprio não era o mesmo!
Duplo nome para um ser único,
Nem um nem dois ele seria.

Toda confusa a razão via
A divisão crescer unida,
De tal modo um no outro absorvido,
A um só tempo duplo e uno,

Que disse: “Um verdadeiro duo
Este canto único parece!”
Sem razão é razão de amor
Que o duplo assim num só reúne.

Trenos assim ela compôs
Para a fênix e para a rola,
Do amor astros e donos gêmeos:
Um coro à sua cena trágica:
TRENOS
  
O verdadeiro, o belo, o raro,
O grácil em sua simpleza
Jazem aqui incinerados.

Da fênix a morte é o ninho,
E da rola o peito leal
Na eternidade ora repousa.

Posteridade não deixaram:
Não se deu isso por doença,
Porém por um casto himeneu.

Se a verdade é fingimento,
Se a beleza a si lisonja,
Sejam as duas sepultadas.

Que os que são leais e belos
Venham curvar-se ante esta urna:
Rezem por estes mortos pássaros.

 
THE PHOENIX AND THE TURTLE
(William Shakespeare)
The Phoenix and the Turtle
Let the bird of loudest lay
On the sole Arabian tree,
Herald sad and trumpet be,


To whose sound chaste wings obey.
But thou shrieking harbinger,
Foul precurrer of the fiend,
Augur of the fever's end,
To this troop come thou not near.

From this session interdict
Every fowl of tyrant wing
Save the eagle, feather'd king:
Keep the obsequy so strict.

Let the priest in surplice white
That defunctive music can,
Be the death-divining swan,
 Lest the requiem lack his right.

And thou, treble-dated crow,
That thy sable gender mak'st
With the breath thou giv'st and tak'st,
'Mongst our mourners shalt thou go.

Here the anthem doth commence: —
Love and constancy is dead;
Phoenix and the turtle fled
In a mutual flame from hence.

So they loved, as love in twain
Had the essence but in one;
Two distincts, division none;
Number there in love was slain.

Hearts remote, yet not asunder;
Distance, and no space was seen
'Twixt the turtle and his queen:
But in them it were a wonder.

So between them love did shine,
That the turtle saw his right
Flaming in the phoenix' sight;
Either was the other's mine.

appall'd, Property was thus appall'd,
That the self was not the same;
Single nature's double name
Neither two nor one was call'd.

Reason, in itself confounded,
Saw division grow together;
To themselves yet either neither;
Simple were so well compounded,

That it cried, 'How true a twain
Seemeth this concordant one!
Love hath reason, reason none
"If what parts can so remain.'

Whereupon it made this threne
To the phoenix and the dove,
Co-supremes and stars of love,
As chorus to their tragic scene.

THRENOS

Beauty, truth, and rarity,
Grace in all simplicity,
Here enclosed in cinders lie.

Death is now the phoenix' nest;
And the turtle's loyal breast
To eternity doth rest,

Leaving no posterity:
'Twas not their infirmity,
It was married chastity.

Truth may seem, but cannot be;
Beauty brag, but 'tis not she;
Truth and beauty buried be.

To this urn let those repair
That are either true or fair;
For these dead birds sigh a prayer.

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