terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tudo é Grêmio e Inter, tudo é Big Brother! (Crônica do livro "Fim de Toda Existência - Prelúdio do Fim")


                Futebol: paixão e ilusão nacional. O Coliseu dos novos tempos. “Viva o povo! Continuem a dar pão e atração para ele, pois mais do que isso é exagero, além de ser uma quebra de protocolo”. Receio ter de rachar, esmigalhar o coração de alguns torcedores fervorosos e o de outros adeptos de qualquer outra coisa (e, consequentemente, instruir centenas a serem meus inimigos por reafirmar a nulidade do “dois e dois são quatro”, conforme fez Dostoievski através de seu homem subterrâneo), mas, enfim, ao meu ver, é melhor ter um coração rompido do que escravo, independente de quanto ele vá doer, visto que podemos denominar essa dor como uma espécie de evolução (ou subversão, como acharem melhor). Além do mais, pelo marchar das nações, cedo ou tarde, de modo qualquer, ele há de se romper. O ruim é que isso acontecerá sem os efeitos de uma descoberta oriunda somente do genuíno pensar. E sem a devida experiência para se sublimar as circunstâncias (exercitando o estoicismo), uma forte base cultural acaba por levar o indivíduo à morte em vida, ou seja, à inexistência como ser humano. Afinal, há muitas diferenças entre viver e existir. Uma cadeira só existe, por exemplo. Uma pessoa que busca o conhecimento vive mais, mesmo que nem chegue perto da velhice. Como tenho a audácia de afirmar isso? Vocês me perguntam: não será um empresário inculto mais feliz que um literário, em vista da disparidade social e, portanto, possuidor de uma vida mais pródiga? Meus caros, não é por felicidade, tampouco prodigalidade, que me digno a retirar do bolso minha balança portátil e lhes mostrar a diferença. A questão é simples: o intrínseco valor. Ser, não somente possuir. O ato de possuir é infinitamente mais vazio que o ser, visto que este é, de fato, a única coisa que nos pertence. É incrível como alguns se contentam em viver tão miseravelmente! Por exemplo: há muitas celebridades paupérrimas de inteligência e talento que são referência nacional em outros países (variavelmente, como “artistas” ou saltimbancos). E às favas com a real arte e quem a aprecia! Blasonam, iguais a muitos por ai, tanto o ser quanto o possuir a tal ponto de não perceber que seu “mundinho” e “convicçõezinhas” são tão resistentes e firmes quanto mamão estragado. Esse tipo não merece quaisquer análises. Bom, vamos ao que interessa: sepultar algumas falsas idolatrias.
Já pararam para pensar em quantas tribos há no Brasil? Quantas são as “espécies” humanas? Incontáveis. Gremistas, colorados, palmeirenses, petistas, umbandistas, católicos, evangélicos, ateus, espíritas, maçons, pagodeiros, sambistas, roqueiros, contra ou a favor do governo, contra ou a favor das nações estrangeiras, de muitos times, partidos e religiões… enfim, cada um de acordo com a sua inclinação, cada qual uma junção de influências. O quê?! Não sabiam disso? Somos o que absorvemos do mundo. Nosso verdadeiro “eu” (se é que existe isso – já chegaremos nesse ponto) é tudo o que foi filtrado pelos nossos sentidos e se condensou num tipo de “ideia fixa” (que Brás Cubas me perdoe!). Evidentemente, o que chamamos de ideia fixa é algo extremamente volúvel. Ou seja, queremos a todo instante nos convencer que seguiremos sempre o mesmo propósito, sempre a mesma ideologia e moral, que possuiremos a vida inteira apenas uma índole e, especialmente, que nunca, em hipótese alguma, cairemos em hipocrisia (ai, que Deus não permita!), e toda aquela honrosa conversa que qualquer incipiente vive repetindo. Saibam: por não obedecermos uma razão constante, por não lembrarmos de todos os barulhinhos (chamados palavras) que emitimos ao léu e, sobretudo, por tentarmos antever os impulsos do corpo e nossas vontades, somos hipócritas… todos nós! Pois a cada segundo somos diferentes. Apregoamos as boas novas do Grêmio e, inconscientemente, cumprimos as do Inter. Explanamos os mandamentos de qualquer coligação, falamos de boca cheia como nosso código de conduta é supimpa, sem nos dar conta que, em recorrentes momentos, o corpo trairá a língua. Isto é, iremos contrariar em desejos e ações as regrinhas que criamos para mostrar que somos alguém.
Quê?! Sou doido e pessimista?! Hipócrita é aquela meretriz que me pariu?! Deveria eu me tratar?! Pro inferno, cérebros poluídos! São tão abjetos quanto as bestiais torcidas de futebol, que dão para si mesmas a desculpa “é o meu time do peito, posso extravasar!”, e urram feito feras, embebedam-se, rolam no chão, fazem horrores, matam e morrem só porque o timezinho deles está em campo (eis os gladiadores), cheio de jogadores que apenas querem vender a alma pro diabo que pagar mais (eis os imperadores). Aliás, nada ali pertence à arquibancada! É uma vitória completamente alheia a todos que assistem, desde os apáticos aos mais fanáticos. Nunca lhes será uma conquista legítima, e nem conseguem perceber isso. Talvez, nem vocês, que bocejam ao me escutar. Por acaso, sabem apontar a diferença do vermelho para o azul? Pois bem, eu não. Também não sei a diferença entre países, cidades e estádios de futebol. Se eu houvesse nascido na Inglaterra, seria um inglês convicto; na Bolívia, um boliviano convicto… etc., etc. “Não sou ateniense, nem grego, mas um cidadão do mundo”. Sócrates já sabia disso. Times são times, partidos são partidos… idem clubes, congregações, e tudo mais que seja convenção. Independente das diferenças que possam haver, os rivais sempre são iguais. Suas metas podem ser distintas, mas eles pararão no mesmo lugar. É indiferente em qual clubinho você vai entrar ou qual repudiará, se o mesmo preza a paz ou a destruição mundial, de fato, você nunca fará parte dele, pois, no final, mesmo que não percebamos, nossa essência sempre sobressai. Regozijai-vos! Somos maiores do que qualquer congregação que, porventura, possamos entrar, em razão do que podemos ser e não ser ao mesmo tempo. É quando somos nada que abrimos espaço para ser tudo. Além do mais, a vida não é rígida, metódica; ela flui descompassada, sem padrão, sem objetivo… ela já é o objetivo. E é justamente isso que o Sistema, o Coliseu quer arrancar de nós todos: a vida, o amor por si mesmo. De fato, o coletivo se nutre do indivíduo. Por isso, tantas mentes perecem. Faz parte do esquema engendrado pelos “Cézares” do novo mundo. O Coliseu de hoje retira do povo, do indivíduo, o prazer das próprias glórias, fazendo-o apreciar os triunfos dos outros como se fossem seus, e, por conseguinte, formando uma população de broncos desinformados e incapazes de uma realização. Perfeitamente plausível: é muito mais fácil controlar suas paixões (na verdade, inserir-lhes paixões) do que causar uma guerra civil para estabelecer soberania. A escravidão do pensamento por tolas fantasias nada mais é que o declínio da civilização e a prova contundente de que livre-arbítrio só existe para quem sabe forjá-lo. Não o recebemos, moldamo-lo. Fora disso, há apenas mentes agrilhoadas por estereótipos e rígidos conceitos. Por uma razão deturpada, que mais bestializa o homem do que o instrui, perdemos nossa supremacia em relação aos animais…
Tudo bem; eu já sei! Na verdade, o animal sou eu! Também sou um mentiroso, um estraga-prazer. Não discordo da opinião de vocês! Sou o errado, o caluniador! Sem problemas. Sou cético a ponto de também não me acreditar. Mas, nas profundezas do seu “euzinho” interior, quem não o é? Deixemos isso para lá. Prossigamos. Vamos então ao meu programa favorito: o “BBB” (“baita besteira brasileira”)! Aquela fantástica catapulta de antas, maravilha da “sétima arte”, que muitos dizem formular um excelente diagnóstico do animal humano em cativeiro (evidentemente, não o faz. Neste caso, pode a perspicaz ficção compreender com mais impacto a realidade do que ela a si mesma. E, no final das contas, o que não é ficção? Eis outra coisa que não sei diferenciar), vai de encontro a tudo que eu havia dito: a falta de qualidade imposta ao povo para que sua imaginação e inteligência fiquem atrofiadas... mofem. Simplesmente isso. É um pacto, uma troca: as organizações, os meios de comunicação se banqueteiam de um artista com elevado nível de ruindade ou mediocridade para saciar a massa com sobejos, acostumando-a com essa insuficiência à pobreza mental e recebendo um considerável retorno da mesma. Pois, assim, pode-se com facilidade controlar o rebanho do mundo e levá-lo aonde se quer. Tendo pão e diversão, quem vai se opor? Sem contar que quando nos integramos fervorosamente a alguma paixão superficial, tornamo-nos, gratuitamente, os participantes do Reality Show… viramos os enjaulados, interpretando sem saber.
Rendo-me. Nem mais uma sílaba de minha opinião darei a vocês. Vou me integrar e fingir desconhecer que a sociedade é um imenso teatro (ou Big Brother, como a genial modernidade sugere). É como diz aquele velho axioma “se não pode vencê-los, fuja pela tangente”. Saibam, senhores, que eu estava equivocado acerca de tudo, e essa análise, esse monólogo tedioso, mudou meus conceitos! Agora vejo o futebol e toda a programação da TV como algo prodigioso e indispensável ao crescimento do ser humano. Portanto, estou propenso a descer do muro: finalmente, vou escolher um time de futebol! Grêmio ou Inter? Alguém tem uma moeda?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Parte de meu livro (do conto "Poente da Eternidade")

Exércitos são constituídos com a mesma facilidade que são dizimados, tal como é relapso e nulo o número dos que morrem e nascem. Passos à frente em meio ao escuro são incertos demais para se apoiar em confianças. A maioria, os que ainda não aprenderam a andar com os próprios pés, sentem por necessidade ter como alicerce e guia algo que lhes assegure um futuro. Soldados pertencem a esta classe, excluindo o detalhe de que os mesmos usam da força para defender e expandir sua ideologia, comandados pela opinião de uma insignificante minoria. Destarte, formam-se os exércitos e seus escrúpulos forjados. Não tive escolhas. Era viver a seus modos ou perecer à sua conduta. Meu maior ressentimento é ter sido tão fielmente um deles.
Sobrevoávamos poucas horas depois do amanhecer em algum lugar do oceano, à procura do instável destino… minha terrífica e merecida punição. Antes de haver sido capturado por aqueles a quem tantos males causei, fazia eu parte de uma horda de assassinos, devastando cidades e devorando vidas. Opositores da civilização, matávamos pelo mais vil e irracional deleite, pelo prazer de vê-los arrastando-se agonizantes sobre famílias inteiras, imersos no próprio sangue que lhes era igual. Não tínhamos um propósito que nos conduzia, nem uma consciência que nos amedrontava. Éramos nossas próprias religiões e deuses.
Eu nunca tive uma família, amigos, ou qualquer dessas futilidades compradas pelos homens, já que desde remotas lembranças, sempre vivenciei aquele horror, aquela realidade de ódio e destruição que aquecia as aspirações do meu ego. Cedo demais para uma razão individual, as trevas consumiram meu espírito, infestando as entranhas do meu corpo imortal. Sentia uma incontentável superioridade perante minhas vítimas, perante minhas habilidades assassinas, meu inflamado poder e tudo que poderia ser modificado só com a ameaça de minha presença. Minhas sórdidas ambições me impediam de ver como eu era insignificante, vagando numa abstrata vastidão, cego e solitário. As sombras das nuvens movimentam-se em distintas superfícies, transpassando todos os terrenos, mudando completamente a menor oscilação do fulgor solar, nas brisas celestes que aceleram e deformam sua peregrina origem, na intervenção de ilimitados elementos, absorvendo suas formas e essências, caminhando para mutar-se novamente, parte de uma contínua transição.
Em meio a uma tempestuosa noite, nas ruínas de uma cidade extinta, depois de usurpá-la e arrasá-la para nossos fins, procurávamos por valiosos pertences que poderiam ter escapado de nossa vistoria. Logicamente, pouco depois que os houvéssemos obtido, descartávamo-los para procurar outras recompensas, também as descartando em seguida, independente do que fossem, pois, de fato, não tínhamos interesse em posses. Conquistar e desprezar o que outros demoraram anos para construir, as lembranças que lhes eram caras, acrescia-nos a soberba e a cobiça. Vasculhando as residências em aliança com a sorte, entrei no que sobrou de uma singela casa, a qual não aparentava ter o que eu supostamente procurava, e, até na atualidade dos dias, não consigo compreender o porquê de minha curiosidade. Aparentava estar vazia, igual a muitas outras. Deparei-me com móveis quebrados, paredes demolidas e corpos esquartejados dos residentes, nada mais do que isso. De finada curiosidade, já deixava aquele lugar imundo, quando me sobreveio um ruído debaixo da cama que, a julgar, permanecia intacta. Aproximei-me com calma e, num movimento brusco, desloquei-a para ver quem ali se escondia da morte. Para minha surpresa, era uma menina, de cabelos negros como a escuridão noturna e olhos azuis avermelhados de pranto. Mais um presa, apenas isso. Não me faria diferença vê-la sangrar, apagar sua existência, não redimiria meus pecados poupá-la, como a lembrança é a dor que reveste cicatrizes, o que desencadeei não seria curado necessariamente com perdão, não excederia a hipocrisia que comanda os homens e que nenhum ser de racionalidade pode renunciar, pois esta é a progenitora de suas razões. Direcionei sobre a menina o mortal engenho e instrumento de minha misericórdia e, ela, sem transparecer temor, olhou-me com a inocência que ainda mantinha, enxugando as próprias lágrimas. Mergulhei em seus tristes olhos com arma apontada para ela, e, pela primeira vez em minha indigna vivência, hesitei. Então, repentinamente, me abraçou e eu não soube como reagir. Talvez quisesse que eu a matasse para que assim pudesse reunir-se à sua família falecida, ou apenas alguém para aliviar sua dor, mesmo que esse alguém fosse seu assassino.
Era um sentimento novo para mim; não conseguia compreender o que estava acontecendo. Parecia-me que tudo o que eu havia feito, todas as minhas ordinárias crenças, o soberbo e execrável modo de coexistir, estivessem errados. Naquela noite de relâmpagos ascendentes, fui apresentado ao arrependimento numa crise de transitórios impulsos ambíguos, que, em cada clarão de pensamento, eu e meu maior inimigo habitávamos o mesmo corpo. Mas, sem ter alcançado o discernimento para desvincular-me do ontem, voltei aos obsoletos princípios e, em seguida, a empurrei, distanciando-a de mim e de seu acolhedor abraço. Abstendo-me de matá-la, dei-lhe as costas, persistindo em minha ambiciosa e sangrenta busca. Pediu-me para esperar, que não a deixasse só, pois os cruéis demônios poderiam voltar. Sua pureza manchada não a permitiu perceber que eu também era um deles… um demônio. Prossegui, deixando os apelos ressoarem em vão, sem lhes estimar importância alguma.
Subi ao topo do prédio mais alto, e lá refleti observando o que havíamos conquistado e causado, não com os olhos de uma besta, mas de um homem, a humanidade adormecida que se mantinha refém em minha alma assassina. Nunca tivemos superioridade alguma. Começava a cogitar se existiriam outros caminhos fora das doutrinas impostas pelo passado. Nada que não fossem palavras me provava veracidade em suas leis ou na ausência delas. A maioria não deturpa a verdade ou o que ela deveria ser, uma multidão poderia errar. Acreditar em dogmas é submeter-se a escravidão do óbvio. Passada uma hora, resolvi inexplicavelmente, voltar àquela casa para querer ajudá-la, mesmo que ainda não soubesse como. Quando cheguei lá, ouvi gritos ecoando através da porta, vindos de trás da abandonada residência.
Aproximei-me de silente caminhar, vendo que dois dos incontáveis homicidas que exterminaram a população estavam prestes a cortar aquela pálida rosa juvenil. Um deles a segurava pelos cabelos, já posicionando o facão para amainar sua sanguinária sede. A menina havia desmaiado de medo, entregando-se às suas previsões, e, provavelmente, não sentiria dor. Virei as costas para não ver aquela cena, mas não me controlei, intervindo antes que o irremediável tomasse forma viva. Valendo-me de uma arma de fogo, matei os dois, friamente, antes que pudessem acionar sua vontade de reagir, como se a eles pertencesse a culpa pelos meus irreparáveis erros. Sorria sarcasticamente o destino, como mero expectador dos fatos: poderia ser eu a jazer naquele solo profanado, com vários tiros nas costas, banhado em álgida vermelhidão, aos pés de outro salvador; poderia eu tê-la violentado impunemente, matando-a em seguida, antes de havê-la deixado à mercê de outros assassinos; poderia eu ser a criança sacrificada, vítima de um alento inviável. Retirei a garota de junto dos dois cadáveres, posicionando-a, confortavelmente, em meus braços. Depressa, levei-a para longe, ao ermo, onde eles, segundo o que eu imaginava, não poderiam achar-nos.  Tremulavam as pálpebras e seus delicados braços se enroscaram em meu pescoço, ostentando uma doce harmonia em seu jovial e sofrido semblante, ao descobrir que agora estaria protegida. Decidido pela brandura de um anjo, abandonei meu passado e o que só a ele pertence. Desde minha partida, prometi que jamais roubaria o eterno fulgor dos vivos. Fui ingênuo em pensar assim…
Fugimos para o alto de uma montanha, e, na atmosfera elevada, edifiquei o nosso bucólico império. Nestas plagas, que, para nós, já haviam deixado de ser apenas um refúgio, estavam presentes todas as épocas encantadoras, incondicionais deleites, os climas mais puros, os ardores mais intensos. Sentia um contentamento tão grande, uma sensação tão inexplicável ao vê-la cuidar de seu jardim com tanta dedicação, vibrando ao desabrochar das flores no cair da primavera, que não me percebia ausente nesse grácil enlevo. Apesar do que houve, de minhas primárias intenções, passei a substituir a imagem de seu pai, que tanta falta lhe fazia, tentando proteger seu bem mais precioso da podridão que o cercava. O sorriso dela era toda a felicidade da qual eu necessitava.
O tempo é um rio infinito de plácida turbulência. Ângela amadureceu e, à minha percepção, não era mais uma menina. Deixamos de ser pai e filha para nos tornarmos o que sempre fomos, um homem e uma mulher. Mas, apesar da idade, da grosseira diferença que em aspecto físico não era tão significativa, posso afirmar que aprendi muito mais com Ângela, do que ela poderia ter aprendido comigo. Os carinhos de suas mãos suaves, os sinceros olhares ardentes, o silêncio… tudo o que está acima do que palavras poderiam significar, já que as mesmas apresentam-se sempre como pueris dissimulações do real.
Pensávamos apenas em nos amar cada vez mais, como se fizéssemos parte do mesmo corpo, da mesma alma, pois, de fato, não era uma inverdade. Transávamos em todos os lugares cedidos por nossa liberdade; em pleno ar livre, acolhidos pela natureza derivada do próprio renascimento, embaixo de cachoeiras que derramavam suas águas sobre o mundo, no pináculo do céu. Lírios não germinam onde o alento da luz se faz ausente e prados por pragas se contaminam. Novas paixões não dissolvem velhos hábitos, nem a eles se coadunam. Ainda agia com ferocidade, parecendo uma besta insaciável querendo devorá-la completamente. Muitas vezes a machuquei com minha agressividade, mas, por conceitos induzidos, acabei assumindo o controle de mim, aprendendo como devolver suas carícias brandas, a sutileza de sua suave pele, de seu corpo frágil e perfeito, fruindo do mais inebriante dos néctares.
Nunca compreendi os fatores que levaram Ângela a me distinguir dos outros, se isso era algo que merecia distinção. Provavelmente, no desespero, se arriscou à sorte de tentar, ou, quem sabe, tivesse a capacidade de ver através de disfarces e descoberto, no preço de um instante, no que poderia me converter se eu quisesse. Esperava que quando chegasse o findar dos meus dias que sobrevivesse somente uma recordação, à qual nunca existirá medição possível para a sublime e inefável riqueza que me concedera das formas mais sutis ao que sua iluminada presença fazia do universo uma partícula do nosso desejo. Quando ela dormia sobre meu peito, abraçada no calor do meu corpo, retribuindo-me com o seu, começava a desconsiderar a eternidade como uma maldição adornada por ilusões, pois, cada vez mais, eu percebia já tinha tudo o que precisava, junto a mim.



… Então, depois de ter mergulhado nas profundezas da montanha procurando por alimento, ao retornar avistei que, nossa casa, feita de madeira rústica, não existia mais. Suas cinzas varriam-se aos elevados sopros, planando sobre os arruinados canteiros pré-cultivados, o fim de uma vida. Não havia sinal algum de Ângela, nem mesmo de um cadáver. Os homicidas a levaram.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sessão de Autógrafos: Fim de Toda Existência – Prelúdio do Fim e Outros Escritos

Está chegando! Dia 12 de Novembro de 2011 (sábado), às 19h30min, na Feira do Livro de Porto Alegre. Estão todos convidados! 


Escrever esta obra foi um árduo trabalho (embora me tenha sido igualmente prazeroso, pois criar é minha vida), na qual eu empreguei todas as minhas capacidades intelectuais e criativas para fazer um trabalho que trouxesse aos leitores um deleite artístico de primeira, englobando terror, suspense, drama, filosofia e poesia. É um roteiro fortíssimo, em linguagem sublime, que beira o poético a todo instante. Extremamente impactante, creio que ampliará a percepção e concepções de quem o ler. E, sobretudo, é uma obra extraordinariamente diferente de tudo que já foi visto. Isso eu lhes garanto.
Muito obrigado pela atenção. Conto com a presença de todos.
Um forte abraço!
"Apocalipse". Guilherme de Faria. Consta no livro.
"A Humana Condição". Guilherme de Faria. Idem.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Monólogo de Hamlet (William Shakespeare)

(Hamlet, Ato II, Cena 1)
Ser, ou não ser - eis a questão.
O que é mais nobre para a mente sofrer
Os dardos e setas de destino cruel
Ou pegar em armas contra um mar de desgraças
E pela resistência pôr-lhes fim? Morrer, dormir;
Nada mais? E com o sono, dizem, terminamos
O pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos
Da carne herdados. Eis um epílogo
Devotamente desejado. Morrer, dormir.
Dormir - sonhar talvez. Eis a dificuldade.
Nesse sono da morte, que sonhos virão
Quando nos libertarmos do invólucro mortal
Devemos nos deter. Aí está a reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria os insultos e desdéns do tempo,
A injúria do opressor, a afronta do soberbo,
As angústias do amor desprezado, a morosidade da lei,
As insolências do poder, e as humilhações
Que o mérito paciente tem do indigno,
Quando ele próprio pudesse encontrar repouso
Com uma lâmina nua?
Quem suportaria tão duras cargas,
Gemendo e suando sob uma vida penosa,
Se não fosse o temor de algo após a morte -
Região misteriosa, fronteira de onde
Nenhum viajante retornou - confundindo a vontade,
E impelindo-nos a suportar os males que nos afligem
Em vez de nos lançarmos a outras que não sabemos?
Assim nossa consciência nos faz covardes em tudo.
E assim a cor nativa de nossas resoluções
Se debilita na pálida sombra do pensamento,
E as empreitadas de maior alento e importância
Com semelhantes reflexões desviam seu curso
E perdem o nome de ação.


(Hamlet, Act II, Sc 1)
To be, or not to be - that is the question.
Wheter 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune
Or to take arms against a sea of troubles
And by oppossing end them? To die, to sleep;
No more? And by a sleep, to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to. 'Tis a consumation
Devoutly to be wished. To die, to sleep.
To sleep - perchance to dream. Ay, there's the rub.
For in that sleep of death, what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil
Must give us pause. There's the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
Th' opressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolen of office, and the spurns
That patient merit of th'unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin?
Who would these fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death -
The undiscovered country, form whose bourn
No traveller returns - puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all.
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pitch and moment
With this regard their currents turn awry
And lose the name of action.

Ossadas do Passado (Confissões de um Escritor) - Texto Excluído

 Fiz este texto para ser uma introdução de meu livro "Fim de Toda Existência - Prelúdio do Fim e Outros Escritos", mas acabei desistindo de incorporá-lo à obra, pois, depois de bem analisá-lo, acabei considerando-o inadequado por denotar certo favoritismo. Enfim, ei-lo abaixo.


Conceitos da Leitura (Análise das Artes)


Analisando as vertentes artísticas segundo suas percepções, as artes visuais possuem arrebatamento de maior instantaneidade do que as auditivas, por serem os olhos os imediatos captadores do mundo externo ao individual e o fulcro de nossa razão. As artes cênicas, por sua vez, abarcam a visão e a audição, sendo seu impacto de redobrada intensidade e fruição instantânea, já que a idéia que contextua a beleza da arte é absorvida e canalizada de duas diferentes formas, facilitando assim, tanto o entendimento do respectivo assunto quanto o afloramento das emoções.
       Entretanto, a arte de ler não é fecunda aos olhos, tampouco aos ouvidos ou a qualquer outro captador; todo seu processo produtivo e fruição manifestam-se na mente sem a menor influência de seus receptores, cuja função, neste caso, é neutra. Por conseguinte, sua percepção requer demasiado tempo e esforço em comparação às demais. Podemos enxergar perfeitamente cada página, identificar cada letra e sua respectiva função, porém, o desdobrar de uma ideia, o fulgor de um raciocínio, será nulo caso não compreendamos a amplitude de seu significado. De fato, a leitura é o deleite da mente. Livros nada mais são do que a materialização de pensamentos, concebidos pelo conhecimento e desenvolvidos pela imaginação, feitos para enraizarem-se em um intelecto compatível. Sendo a mente a regente de todo o universo-corpo, inclusive, dos sentidos e seus captadores, torna-se esta a justificativa de maior teor para a complexidade e imprescindibilidade da leitura.
Portanto, milênios após sua criação, a literatura continua sendo a arte suprema e a mais rica herança de conhecimento. O imortal registro de um ser, de um povo, de toda uma existência; o fogo que reacende as cinzas de nossas origens. Podemos conhecer diversas culturas, pessoas e lugares, a partir de uma boa leitura, criando uma conectividade com os grandes pensadores de distintas épocas. Aliás, é esse o método mais eficaz para ampliar e fortalecer as capacidades intelectuais, o que forja a interioridade de um indivíduo e a cultura de uma nação. Pode-se dizer que toda a Vida está descrita nos livros. Até mesmo, os mundos que pairam na ilusória fronteira do existir.

WATCHMEN – TÍTULOS & FRASES DE ENCERRAMENTO

         No final de cada edição, há uma frase de algum artista ou pensador, sempre coincidente à temática do capítulo (geralmente, é uma continuação do título). Segue abaixo os títulos e as frases de encerramento de todas as edições.  
    
1 – À MEIA-NOITE TODOS OS AGENTES… (“À Meia Noite todos os agentes e super-humanos saem e prendem qualquer um que saiba mais do que eles.” Bob Dylan)


2 – AMIGOS AUSENTES (“E eu estou desperto quando irrompe a aurora, embora meu coração padeça. Deveria estar brindando a amigos ausentes e não a estes comediantes.” Elvis Costello


3 – O JUIZ DE TODA A TERRA (“Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” Genesis, capítulo 18, versículo 25)


4 – RELOJOEIRO (“A liberação do poder do átomo mudou tudo exceto nosso modo de pensar… A solução para este problema reside no coração da humanidade. Se eu soubesse disso, teria me tornado um relojoeiro” – Albert Einstein)


5 – TEMÍVEL SIMETRIA (“Tigre, Tigre, ardente açoite, / Nas florestas da noite / Que imortal olho ou guia / Pode captar-te a temível simetria?” W. Blake)


6 – O ABISMO TAMBÉM COMTEMPLA (“Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles. Se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.” – Friederic Nietzsche)


7 – IRMÃO DOS DRAGÕES (“Eu sou irmão dos dragões e companheiro das corujas. A pele que me recobre é negra e meus ossos estão calcinados pelo calor.” Jó, capítulo 30, versículo 29-30)

8 – VELHOS FANTASMAS (“No dia das bruxas, os velhos fantasmas vêm até nós. Para alguns, eles falam; para outros, são mudos.” Dia das Bruxas, Eleanor Farjeon)


9 – AS TREVAS DO MERO SER (“Até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana é lançar uma luz nas trevas do mero ser.” C. G. Jung – Memórias, Sonhos e Reflexões)


10 – DOIS CAVALEIROS ESTAVAM SE APROXIMANDO… (“Lá fora a distância um gato selvagem rosnou, dois cavaleiros estavam se aproximando. O vento começou a uivar.” – Bob Dylan)


11 – CONTEMPLAI MINHAS REALIZAÇÕES, Ó PODEROSOS… (“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: contemplai minhas realizações, ó poderosos, e desesperai-vos!” Ozymandias – Percy Bysshe Shelley)

12 – UM MUNDO FORTE E ADORÁVEL (“Seria um mundo mais forte, um mundo forte e adorável onde morrer.” John Cake)



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ossadas do Passado - Confissões de um Escritor (Parte I)

Nestes espaços (Confissões de um Escritor), postarei textos de minha autoria mais antigos (dos quais não consegui me desapegar) e, de certo modo, pessoais, tal como que segue abaixo, feito em decorrência de um curso de teatro cuja seleção requeria a criação de um texto em que o candidato expunha seus motivos para querer participar do curso. Os melhores argumentos venciam. Se eu passei ou não, é irrelevante; o que importa é conteúdo que me restou, que retrata uma de minhas perspectivas sobre a arte (pela centésima vez, dou marretadas na mesma tecla - logo chegarei à milésima vez). Segue abaixo:

A arte; quem poderia defini-la, delineá-la? Quem ousaria construir cercanias no infinito mar para delimitá-lo, aprisionar em rígidos conceitos a eternidade? Ninguém conseguiria, nenhuma mente de amplitude almejaria tão hedionda pena. É através dela que rompemos as limitações do pensamento, que se afloram as mais profundas emoções, que se liberta a alma da cotidiana mediocridade. A vida nada é sem a arte. E é unicamente nos trabalhos cênicos, que ambas se encontram. Não há outros métodos que materializam a arte com tanta força, com tanto ardor. Apenas no teatro existe a interação plena da ficção com a realidade; os personagens estão vivos (não são pinturas, trechos de um livro, tampouco ilusórias imagens), são tangíveis e passíveis da interioridade humana (sofrem, desfrutam, choram, riam, preocupam-se, invejam, desejam, etc), iguais ao público que tão perto os assiste. Os espectadores procuram nas ações dos atores integrar-se à trama, assim como, os artistas pela reação de sua platéia acrescem-se de ânimo para desenvolver mil faces. A empatia e a fruição são mútuas. Existências refletidas. De tão intensa e sublime a conectividade palco/público e sua profusão de sentimentos, a sensação de se estar num teatro é indizível tanto para quem assiste, quanto para quem estabelece o encanto do espetáculo.
“Toda vida é uma peça de teatro; a diferença é que, apenas nós artistas, sabemos disso”.
Trecho do projeto Anjos.
      

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ilustrações de Gustave Doré - Cruzadas

Paul Gustave Doré (1932 – 1983) foi um magistral pintor e ilustrador francês que, sendo um contumaz apreciador da literatura, empregou seu talento para ilustrar diversos livros clássicos, entre os quais estão Paraíso Perdido, A Divina Comédia, O Corvo, Dom Quixote, Abalada do Velho Marinheiro e várias fábulas. Foi um divisor de águas em sua área tamanho era o brilhantismo de suas obras. Ao morrer, legou-nos mais de 10.000 trabalhos.

Cruzadas (Cruzades)

A Celestial Light

A Friendly Tournament

An Enemy of the Crusaders

Apparition of Saint George on the Mount of Olives

Assassination of Henry of Germany

Blondel Hears the Voice of Richard

Bohemond Alone Mounts the Rampart of Antioch

Celestial Phenomena

Children’s Crusade

Christian Chevaliers Captive at Cairo

 
Crusade Against the Moors of Granada



Crusaders Surrounded by Saladin’s Army

Dandolo Preaching the Crusade


Death of Baldwin I

 

Death of Frederick of Germany


Dishonorable Truce


Edward III Kills his Attempted Assassin

Entry of the Crusaders into Constantinople


Florine of Burgundy

For the Defense of Christ

 
Gaining Converts

Gerard of Avesnes Exposed on the Walls of Asur
 
Godfrey Enters Jerusalem

 
Godfrey Imposes Tributes upon Emirs

 Hospitality of Barbarians to Pilgrims

Ilghazy Gives Gauthier his Life

Ilustrações de Gustave Doré - O Corvo (The Raven)

Paul Gustave Doré (1932 – 1983) foi um magistral pintor e ilustrador francês que, sendo um contumaz apreciador da literatura, empregou seu talento para ilustrar diversos livros clássicos, entre os quais estão Paraíso Perdido, A Divina Comédia, O Corvo, Dom Quixote, Abalada do Velho Marinheiro e várias fábulas. Foi um divisor de águas em sua área tamanho era o brilhantismo de suas obras. Ao morrer, legou-nos mais de 10.000 trabalhos. (Obs: nota-se que o título da ilustrações são fragmentos do poema)
Cover
List of illustrations with engravers - page 1
List of illustrations with engravers - page 2
Plate 1 - Title Page
Plate 2 - Nevermore
Plate 3 - ANATKH (Inevitability)
Plate 4 - A Midnight Dreary
Plate 5 - Bleak December
Plate 6 - Vainly I had Sought to Borrow
Plate 7 - Sorrow for Lenore
Plate 8 - Nameless Here for Evermore
Plate 9 - Some Late Visitor
Plate 10 - Darkness there and Nothing More
Plate 11 - Dreams No Mortal Ever Dared to Dream Before

Plate 12 - Something at My Window Lattice
 
Plate 13 - Open here I Flung the Shutter
Plate 14 - Not the Least Obeisance Made He

Plate 15 - Perched Upon a Bust of Pallas
Plate 16 - Wandering from the Nightly Shore
Plate 17 - Other Friends Have Flown Before
Plate 18 - Fancy Unto Fancy
Plate 19 - Velvet Lining
Plate 20 - Respite and Nepenthe
Plate 21 - By Horror Haunted
Plate 22 - Balm in Gilead
Plate 23 - Whom the Angels Name Lenore
Plate 24 - Bird or Fiend!
Plate 25 - Back into the Tempest
Plate 26 - My Soul from out that Shadow
Plate 27 - The Secret of the Sphinx